9 abril 2010

O Brasil precisa retornar ao brega. Mas o brega legítimo, o brega de raiz. Não esse arremedo de cafonagem que invadiu a indústria fonográfica. Precisamos voltar às origens.

Em algum lugar do passado recente, os brasileiros abriram mão de sua identidade mais profunda. Somos um país melodramático, sofrido, sensível, abandonado, carente.

E passional, ciumento, machista, safado. Claro que são generalizações. Mas é assim que se constroem os arquétipos, o imaginário nacional. O Brasil é brega.

No fundo, o povo quer ver novela com final feliz, usar roupas que não combinam, dançar coladinho, ter um milhão de amigos e bem mais forte poder cantar "é o amoooor".

É fácil localizar o momento histórico em que perdemos a ingenuidade e o romantismo desbragado. A ditadura militar sufocou e pôs no pau-de-arara o momento mais brilhante da nossa cultura.

Tínhamos a Bossa Nova, o Tropicalismo, a Jovem Guarda. E do outro lado do ringue, as duplas caipiras, Altemar Dutra, Wanderley Cardoso, Waldick Soriano, Odair José e o grande Nelson Ned. No meio de tudo, soberano, o mestre Chacrinha. Evoé!

 Precisamos resgatar o brega, antes que o Brasil fique cafona

O cantor Waldick Soriano

 Precisamos resgatar o brega, antes que o Brasil fique cafona

Chacrinha com o cantor Wando

Todos foram derrotados. De lá pra cá, é terra arrasada.  Não temos uma única banda de rock que preste. Nosso pop é patético. O sertanejo conspurcou a música caipira, preservando apenas o mau gosto e a rima ruim.

Não há um só compositor que consiga ao menos lamber as botas de um Chico Buarque. As dúzias de novas cantoras que não param de chegar são tão medíocres que dá até saudades da Simone.

A classe média não tem talento. Os artistas populares foram corrompidos pela pornografia. Silvio Santos já não é mais o mesmo. A Hebe está doente. O Bolinha morreu. Estamos perdidos!

Não por acaso Caetano Veloso gravou ”Você não me ensinou a te esquecer”. Que faço eu da vida sem você? Comovente.

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7 abril 2010

A Gloria Perez sofre de uma dor insuperável. Seria desumano imaginar que ela pudesse esquecer o assassinato hediondo da sua filha. Tudo que faça de absurdo em decorrência disso merece nossa mais sincera compreensão.

Qualquer um na sua situação viveria transtornado. E não perderia uma única oportunidade de bradar sua revolta. Muitos buscariam vingança. E seriam milhares de pessoas solidárias.

Mas a Gloria Perez errou. E cometeu algo impensável: deixou o Ratinho coberto de razão. A que ponto pode nos levar o ódio, mesmo que justificado. O apresentador tem todo direito de entrevistar o assassino Guilherme de Pádua.

Ele será para sempre lembrado como o monstro que matou Daniella Perez de forma bárbara e cruel. Junto com sua então mulher, Paula Thomaz, é preciso lembrar. Foram julgados, condenados e presos por isso.

E cumpriram suas penas. Na verdade, um terço dos 19 anos de cana que teriam que puxar. A lei concede esse direito a todos que tenham bom comportamento na cadeia. É desse jeito que funciona.

Guilherme de Pádua não deve mais nada à sociedade. Ele é um homem livre, pagou sua dívida. Mesmo assim, continuará sendo hostilizado nas ruas. Cospem no rosto dele, jogam-lhe fezes, proferem insultos.

Gloria Perez não tem a menor obrigação de perdoá-lo. Não lhe faltam motivos, todos sagrados, para ser implacável. Ela, sim, merece nosso perdão. Só não precisamos concordar com ela.

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6 abril 2010

Essa turma do BBB sabe aproveitar seus 15 minutos de fama. Antes de virarem pó, ganham uns trocados bem legais. Estão na deles. Intrigante é ter quem pague. Pagando, que graça tem?

Por que um dono de boate acredita que vale a pena desembolsar 20 mil reais para ver a Angélica Morango por duas horas? E 15 mil reais pela Cacau Melancia ou o Eliezer Banana? O Dourado Pé na Jaca, então, vale 50 mil? Esses empresários são loucos de rasgar dinheiro?

Que fique bem claro. Vou repetir. Nada contra gente sem nenhum talento fazer um pé-de-meia honesto. Vão precisar. O que merece algum estudo psiquiátrico é ter quem pague para vê-los.

Qual o problema, afinal? Não há nada em suas vidas que faça sentido? Pensam em suicídio com frequência? É algum tipo de ajuda humanitária? Temem pela sanidade desses pobres coitados?

O “show business” chegou a esse estágio de decadência. Há muito que artistas de TV sobrevivem à base de bailes de formatura, batizados e churrasco na laje. Cada um no seu quadrado. Minúsculo, por sinal.

Mais triste é saber que as plateias chegaram a esse ponto. Bons tempos em que a fama era reservada a pessoas especiais. E nos sentíamos especiais por poder admirá-las.

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5 abril 2010

O furo jornalístico está se tornando uma atividade em extinção. Deveria ficar sob a tutela do Ibama ou da Funai. Questão de tempo para se tornar verbete de enciclopédia.

Antigamente, o furo era a capacidade de um jornalista investigar a fundo o que os poderosos tentavam esconder. Bons tempos. Não voltam mais.

Hoje, o furo é a capacidade que um repórter tem de atender ao telefone na hora certa. Mais nada. Pronto. Acabou. Vergonha.

Basta lembrar alguns dos últimos grandes momentos da imprensa. A começar pela Renata Lo Prete, da Folha de S.Paulo, e o chamado mensalão.

Ela apenas estava sentada na sua cadeira quando o Roberto Jefferson ligou para ela. Ganhou o Prêmio Esso por isso.

E o furo das provas do Enem que foram vazadas? O Estadão investigou isso durante meses? Não. Os bandidos que ligaram para a redação. Emocionante.

Esses são os casos mais comuns. O de um repórter ser arrancado de sua rotina por um telefonema bombástico, um dossiê anônimo, uma proposta indecente.

Perigo é quando passam por bucha de canhão ou laranja de falcatrua. Ficaria seriamente preocupado se o Daniel Dantas ligasse pra mim. Onde foi que errei, perguntaria.

Se não fossem os criminosos ressentidos que querem ferrar os criminosos desavisados, não haveria mais grandes revelações. Algumas entrevistas parecem delação premiada. Há instrumento de vingança melhor do que a imprensa?

Não podemos esquecer as mulheres traíras que destroem a vida dos maridos ladrões. Essas são imprescindíveis. Pobre Pitta, que descanse em paz.

Mas cuidado. Há o furo safado, corrupto, vendilhão – tipo subornar advogados e delegados para noticiar com exclusividade a confissão de algum psicopata.

Ou participar de uma blitz da Policia Federal vestindo colete de agente.

Tem jornalista pra tudo. E leitor, também.

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1 abril 2010

A Dilma não vai contar com meu voto. Talvez nem precise dele. Mas ela pode dispor da minha solidariedade contra as grosserias dessa oposição que embrulha peixe.

E literalmente fede, como a primeira página de O Globo desta terça-feira, 30. Vejam a reprodução:

Dilma em O Globo1 O Globo fede

Foto: Reprodução

A foto carrega uma ofensa gratuita. É brincadeira de mau gosto, sem graça nenhuma. Um estilo jornalístico que já conhecemos bem. Fez história neste país.

Percebam como o fotógrafo (ou o editor) enquadrou a foto de forma que a placa atrás da dona Dilma fosse cortada. De propósito, a palavra “federal” ficou sem a última sílaba. E o “fede” se tornou uma legenda para a candidata do Lula. A Dilma fede? Que gente mais mal-educada!

O jornal se desincompatibilizou, afinal. Entrou em campanha. O palanque está montado. É apenas o começo. De uma história que virá em capítulos diários, como eles bem sabem fazer. Essa novela já tem a vilã.

E o herói vai ser construído aos poucos. O biótipo não ajuda, não tem pinta (nem cabeleira) de galã. Mas ele vai sair bem na foto. Nada que um bom enquadramento não resolva.

E eles são bons nisso. Bem melhores do que dessa vez. Coisa de amador isso aí. Não estou desmerecendo, nem pensar. Eles devem estar apenas calibrando as lentes, ajustando o foco.

Em breve, o clique da máquina vai se confundir com o barulho de um gatilho.

Preparar. Apontar. Fogo.

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