12 julho 2010

odespertar ok O rei está nu, mas não pode mostrar os seios

A Vara da Infância e da Juventude deve estar sem serviço. Afinal, nosso país não tem problemas com menores, está tudo sob controle. E aí sobra tempo para cuidar dos filhos da classe média rica e esclarecida.

Pois não é que um juiz de São Paulo tomou a urgente decisão de proibir uma atriz de 16 anos de mostrar os seios durante uma peça teatral?

E ainda pôs duas psicólogas acompanhando a menina, coitada. Ele quer um laudo psicológico para medir o estrago a que a pobre criança foi submetida. Tudo pago com dinheiro público, óbvio. Quanto zelo. Não é uma grana bem aplicada?

Malu Rodrigues, esse é o nome da suposta vítima, foi devidamente emancipada pelos pais.  Ela é modelo desde criança e passou nos concorridos testes para o elenco de O Despertar da Primavera, que estreou em agosto do ano passado, no Rio.

A gravidez precoce e o aborto clandestino são questões de saúde pública, tamanha a gravidade. A violência entre os jovens já acionou todos os alarmes. A exploração do trabalho infantil é uma vergonha nacional.

Mas mesmo assim temos tempo e dinheiro para gastar com uma moça culta, articulada e, como ela mesma diz, uma pessoa de sorte. E “virgem”, faz questão de esclarecer.

O espetáculo é baseado na obra homônima do dramaturgo alemão Frank Wedekind. Escrita em 1891! Fala sobre um grupo de adolescentes e a descoberta da sexualidade. É um texto antológico, belíssimo.

Foi adaptado para musical e recebeu alguns ajustes. Ganhou prêmios. É feito por gente séria, profissional. A tal nudez dos seios não é apelativa, pelo contrário, é artisticamente defensável.

E se há algum recado no texto é curiosamente contra a hipocrisia e o moralismo que destroem tantas vidas e nos condena à infelicidade.

Pois bem. A justiça acha que pode interferir numa obra artística. Já até proibiram criança de ser vilã em novela (leia mais). Não deve faltar quem defenda esse tipo de atitude. Há platéia para tudo na vida.

Mas isso tem nome: é censura. E o recado está dado. Se nossos juízes continuarem preocupados com o supérfluo, se insistirem em serem porteiros anacrônicos da moral e bons costumes, toda atenção é pouca.

A sociedade é suficientemente capaz de enxergar onde está o exagero, o factóide, a vaidade. Só não pode ficar calada. O rei está nu. Isso sim é uma vergonha.

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9 julho 2010

DJ Whoo Kid blog2 Vamos retribuir a gentileza do rapper preconceituoso?

Foto: Jim Cooper/AFP

Já que brasileiro adora um saguão de aeroporto, que tal recepcionar o DJ Whoo Kid, que trabalha com o rapper 50 Cent? Levem vuvuzelas. E camisinhas. E antibióticos. Já explico.

O ilustre artista desconhecido desembarca aqui esta semana para uma série de shows. Deve embolsar uma grana legal. E, se for esperto, o malandro vai pedir desculpas de joelhos.

"Isso é terrível, a única porcaria pelo que o Brasil é conhecido é por sexo, mulheres e Aids. Ah, sim, e futebol". Essas frases são dele. Coisa fina. Pura elegância. Precisamos retribuir.

Graças ao Twitter, ficamos sabendo dessas demonstrações de admiração e carinho. Arrumando as malas para nos visitar, o cara postou: “Todo mundo está dizendo para eu levar camisinhas - Jesus!".

Seus seguidores também recomendaram trazer muitos antibióticos na bagagem. Que legal. Alguém lembrou de dizer: traga um pouco de respeito. Mas é pedir demais.

O interessante é que o cara é haitiano. Sabe do que está falando, portanto. E o seu chefe, o tal que vale cinquenta centavos, aproveitou a farra para declarar que ama as brasileiras:

"Elas são muito lindas! Espero trazer uma delas para casa quando eu voltar". Não é meigo? Alguém se candidata?

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Filhinho de papai pode ser educado na cadeia
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5 julho 2010

Não tem gentinha pior do que filhinho de papai. É a manifestação mais arrogante de como a vida pode ser injusta. E de como ricos em geral não sabem educar seus filhos.

Sempre lembro do multibilionário Bill Gates comentando que faz questão de que seus rebentos adolescentes lavem a louça após o jantar. Claro que é simbólico. Afinal, eles têm dezenas de empregados domésticos.

Aqui no Brasil isso soaria ridículo entre a granfinagem. Um jovem trabalhar, então, seria motivo de vergonha, até para alguns pais manés da classe média deslumbrada.

E assim vemos um país criando mais uma geração de jovens afortunados e cruéis. Os mesmos que botam fogo em mendigos e estupram meninas de 13 anos como se a maldade fosse um direito de senhor feudal.

O caso dos dois estupradores de Santa Catarina é exemplar (leia mais). Mas no sentido de ser exemplo de como a impunidade é um valor passado de pai para filho. Eles aprenderam a não ter medo da Justiça com quem?

Um é filho de delegado. Autoexplicativo. O outro, do poderoso Sérgio Sirotsky, diretor da RBS, que controla jornais, rádios e as emissoras de tevê afiliadas da Rede Globo em Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Nenhuma surpresa. Eles sabem o que fazem. E tripudiam.

Tão covarde quanto a sevícia de uma menina indefesa é a omissão da imprensa. O silêncio de 40 dias desde o crime tem que ser encoberto pelo clamor de quem ainda sente vergonha da elite sórdida deste país.

A sociedade tem que se mobilizar, e vigiar, para garantir que sejam punidos. Sabemos que a lei brasileira é uma mãe com deliquentes precoces. No máximo, vão cumprir as tais medidas socioeducativas.

Que seja. Melhor do que continuarem achando que são intocáveis em suas vidas desprezíveis. Ou que podem cuspir na nossa cara. Que somos babacas, pobretões.

Mas eu torço para que não se confundam justiça e vingança. Os pais desses bandidos pirralhos devem saber como estuprador é tratado na cadeia. É um crime imperdoável.

Porque os miseráveis que se amontoam nas prisões desse país têm alguma decência.

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2 julho 2010

dunga provocador ok Cubra se de vergonha, Dunga

Dunga tem 70% de aprovação, segundo pesquisas. É quase tão popular quanto o presidente da República. Como nunca antes na história deste país, a mediocridade chegou ao ápice. E foi posta em seu devido lugar. Os píncaros da humilhação. Os derrotistas venceram, dirá o chefe supremo da nação de chuteiras. O homem ficou só, no meio da multidão.

Não foi por falta de aviso. Mas de nada adiantou, diante da genialidade fanfarrona do arrogante general e de seus soldados. Em vez de jogadores, os guerreiros da batalha perdida. Uma pátria de joelhos, torcendo pelo homem enfurecido. A derrota anunciada. O Brasil foi eliminado.

Dunga é do tamanho de sua teimosia. Um anão em cima da montanha. Esbravejando contra o vento. Tivemos que engoli-lo. Será cuspido pela história. Que nunca mais este país se apequene. Que o medo seja enterrado junto com a covardia. Que os gritos no futuro sejam apenas os da multidão comemorando o gol bonito, o drible desconcertante, a jogada triunfal.

O Brasil é o país do futebol. Pentacampeão mundial. A seleção que foi para a África do Sul é a do Dunga. Ele fez questão de dizer. O triunfo seria dele, apenas. Pois que ele se cubra de vergonha. E fique só. Como sempre quis. 

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1 julho 2010

 Em país pobre, a fila não anda
Congestionamento é coisa de pobre. É o que demonstra pesquisa publicada nos EUA, envolvendo motoristas de 20 cidades de todo o mundo. Nas piores colocações, adivinhe, ficam países distantes do Primeiro Mundo.

São Paulo comparece com um honroso quinto lugar, com 75 pontos de uma escala de transtorno que vai até 100. Para nosso consolo, existem lugares mais insuportáveis.

Quem duvidar, nas próximas férias dirija-se a Cidade do México e Pequim, líderes absolutas no caos de trânsito, com 99 pontos (ninguém é perfeito mesmo).

Na fila da pobreza urbanística, seguem-se Johanesburgo (97), Moscou (84) e Nova Délhi (81).  Esta última, capital da Índia, compensa o quarto lugar sendo a líder mundial de acidentes em estradas.

Foram 118 mil indianos mortos em 2008, último ano para o qual existem números disponíveis sobre genocídio rodoviário. Como se vê, carro e pobreza se misturam como poças de sangue e asfalto.

O paraíso da fluidez de trânsito é Estocolmo, na Suécia, com míseros 15 pontos. Lá e na australiana Melbourne (17), pelo menos 25% dos entrevistados disseram que nunca ficaram parados em um engarrafamento nos últimos três anos.

Los hermanos de Buenos Aires também juram não viver entalados, mas os 50 pontos deles entregam o manjado complexo de europeu.

Porque não adianta querer ultrapassar a realidade. Carro é sinônimo de progresso. Mas quando países insistem em distribuir placas em vez de renda, a fila não anda.

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+ Sonolência e cansaço causam 30% das mortes no trânsito
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