10 dezembro 2010

bill gates blog O Brasil precisa de bilionários com remorso

Os Estados Unidos não criaram o capitalismo. Tampouco o sentimento de culpa. Mas nenhum outro país exerce essas atividades tão bem quanto eles.

A campanha "The Giving Pledge" (A Promessa de Doar) é um exemplo antológico disso. Ao todo, 57 bilionários norte-americanos vão usar centenas de milhões de dólares para amortizar uma impagável dívida de consciência.

Só pode dar certo. A iniciativa de doar ao menos 50% de suas fortunas surgiu das mentes brilhantes do fundador da Microsoft, Bill Gates, e do megainvestidor Warren Buffett.

Esse último prometeu testamentar 99% da sua fortuna a entidades beneficentes. E disse que, com o 1% restante, seus filhos e netos jamais terão problemas financeiros. Quem somos nós para duvidar?

Gates, o segundo homem mais rico do mundo, é um mesquinho. Só vai abrir mão de metade da sua grana. Para quem obriga os filhos desde pequenos a lavar os pratos após o jantar, é um claro sinal de pão-durismo barra pesada.

Tanto que ele e a mulher só doaram US$ 28 bilhões à fundação filantrópica que leva seu nome. Bilhõezinhos. Miserável. Tanguinha.

Os mais recentes candidatos a no futuro serem interditados por parentes na Justiça são os jovens magnatas fundadores do Facebook, Dustin Moskovitz e Mark Zuckerberg. Leia aqui

Este moço já havia doado a mixaria de US$ 100 milhões para escolas públicas de uma cidade de Nova Jersey. Não deu nem um centavo para a Universidade de Harvard, onde estudou. Ingrato.

A revista Forbes diz que os EUA são o país com maior número de bilionários. Exatos 403 norte-americanos vivem nessa realidade estressante e desumana. É um número menor do que o de deputados federais no Brasil, com o perdão da lembrança.

O prefeito de Nova York, Michel Bloomberg, provavelmente seguindo o conselho dos colegas Gilberto Kassab e Eduardo Paes, também aderiu à campanha.

O magnata da mídia Ted Turner entrou por esse mesmo cano. Dizem que Silvio Santos decidiu doar todo o dinheiro que tem. Agora que faliu, claro.

Os ianques sabem que dominam o mundo. E enriquecem às custas dos outros — até por que não há outra maneira. Morrem de remorso por isso. Mas só quando sofrem ataques terroristas ou pesadelos. Que são frequentes. Enfim.

Já os bilionários brasileiros são uns pobretões. De espírito, claro. Menos o coitado do Eike Batista, que doou US$ 7 milhões para uma ONG de auto-ajuda. Americana! Da Madonna! Ah, vá!

Os outros gastam cada vintém em carros blindados, segurança armada, advogados e propinas. E deixam como herdeiros filhos vagabundos, incompetentes ou drogados.

Claro que há exceções. Alguns criam homens íntegros e generosos. Digo isso para não ser processado nem morto na próxima esquina.

A diferença fundamental entre ser bilionário nos EUA e no Brasil é que, por aqui, não há sentimento de culpa. Nossos grandes capitalistas são apenas podres de rico. Podres.

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