23 dezembro 2010

Este ano vai nos custar uma década. O debate sobre a legalização do aborto foi entrevado pelo oportunismo e ignorância de nossa classe política. Vai ser um parto retomar o nível da discussão.

Durante a campanha presidencial, o tema foi tratado de maneira espúria e hipócrita. Desenterraram argumentos medievais, repletos de moralismo.

Uma questão de saúde pública foi soterrada por um discurso religioso ultrapassado que se misturou sem pudor com a demagogia eleitoral. Um estrago irreversível.

A Organização Mundial de Saúde estima que 20 milhões de abortos em condições inseguras são feitos anualmente no mundo. Cerca de 70 mil mulheres morrem nesses procedimentos ilegais.

É uma guerra civil cruel e silenciosa. No Brasil, as principais vítimas são pobres e negras. Como sempre. As que não se encorajam a encarar o corredor da morte das clínicas-açougues tomam o caminho da luta incansável pela sobrevivência de um número sem fim de filhos.

Mesmo assim, ninguém tem coragem de subir no palanque e, diante dessa tragédia, defender o direito a um tratamento digno, em hospitais públicos, com a devida assistência médica. Vale a pena repetir a palavra: direito.

Apenas 26% dos países no mundo consideram crime o aborto. A maioria, nações miseráveis ou dominadas por governos ditatoriais. A Europa inteira legalizou a interrupção voluntária da gravidez. Inclusive Portugal e Itália, bastiões do catolicismo.

A descriminalização do aborto precisa voltar à pauta com urgência. Não com declarações sem seriedade como fez na semana passada o governador Sergio Cabral ao insinuar que todo mundo já teve "uma namoradinha que teve de abortar".

Mas é preciso que homens públicos capazes e sérios se apresentem para enfrentar a discussão. E que estejam dispostos a sofrer um desgaste inevitável. É uma questão de vida ou morte.

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