18 janeiro 2011
Quem mora em São Paulo tem acompanhado um movimento, repleto de boas intenções, para tombar o Cine Belas Artes, prestes a ter suas portas fechadas pela especulação imobiliária. Acho isso tudo uma bobagem. (Leia mais aqui).
De fato, o tal cinema é um ponto de resistência aos cinemas enterrados dentro de shoppings. Em plena esquina das avenidas Consolação e Paulista, representa um tempo em que as pessoas não tinham medo de andar pelas ruas.
Também merece destaque a qualidade da programação oferecida no local, os chamados filmes de arte. Poucas salas de exibição se arriscam além dos filmões de pancadaria e apelo fácil.
Mas é só. Não justifica essa comoção cívica tardia e inútil. Já era. Tombar o imóvel (na verdade um caixote de cimento feio e remendado) seria o mesmo que abrir um cineclube em plena era dos DVDs, blu-rays e 3D.
Até a multinacional de locação de vídeos BlockBuster bateu as botas, depois de arrasar quarteirões e ser determinante na falência de milhares de cinemas pelo mundo. Bem feito. O tempo não para pra ninguém, mermão.
O que fez do Belas Artes um marco na cidade foi a efervescência daquela esquina. Não foi só o cinema. Lá havia o antológico Riviera e vários outros botecos, restaurantes, boates e livrarias.
Era nesse cenário que se reunia a nata da intelectualidade paulistana, na época em que havia inteligência em São Paulo. Foi engolido pela falta de planejamento e a violência urbana promovidas por seguidos governos.
O cinema ficou lá, sozinho. Sem vizinhos, é um velho sentado na calçada.
Deviam ter tombado as vagas noturnas de estacionamento na rua, engolidas pela CET, que permitiam que jovens e boêmios avançassem na madrugada discutindo projetos de filmes e livros que jamais seriam escritos ou filmados.
O Belas Artes, ilhado numa metrópole suicida, ao lado daquela Lojas Pernambucanas, seria o melancólico tombamento do fracasso da cidade. Nada mais.
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