12 maio 2011

Já que a entrevista de Octavio Florisbal para Maurício Stycer, do UOL, está sendo publicada em capítulos, volto a dar meus pitacos nessa novela, cujo nome bem poderia ser “Dissimulação”.

Neste episódio, o diretor-geral da Globo vem a público falar sobre futebol e Olimpíadas. E aqui cabe uma obviedade: quando um homem desses vem a público, é porque ele quer mandar recados. Ele é um profissional, não veio ao mundo para gentilezas.

Nas entrelinhas e, principalmente, nos grifos da matéria, a intenção parece clara: justificar o injustificável.

Em vez de assumir que fugiu de uma licitação transparente pelo Campeonato Brasileiro, com regras oficialmente criadas por um órgão federal (o Cade), preferindo a tática de aliciamento dos clubes e de terra arrasada no Clube dos 13, Florisbal fica desfiando números como uma Velha Senhora fazendo tricô.

Mas o cachecol que agasalha seus argumentos ficou meio apertado. Ao justificar a perda do direito de transmissão em TV aberta dos Jogos Olímpicos de 2012 para a Record, ele diz:

“Nós tínhamos uma visão de que os Jogos Olímpicos de 2012 deviam valer, para o Brasil, entre US$ 25 milhões e US$ 30 milhões... E foi essa oferta que fizemos, dentro da realidade de mercado... Se passar daqui, vai dar prejuízo. A oferta vencedora foi o dobro disso.”

Ah, é? Mas o que li é que foram cerca de U$ 25 milhões o que a SporTV - canal a cabo das Organizações Globo - pagou pelo direito de transmissão. Repito: a cabo, em que os valores são bem menores. Por que a mesma Globo que Florisbal comanda aceitou pagar um valor tão alto no cabo? Caridade? Erro de estratégia? Desespero?

Mal informado o Florisbal não é. Vai ver esqueceu esse detalhe ou fecharam o negócio sem avisá-lo.

E quanto ao valor oferecido pela Globo para as Olimpíadas de 2016? O chefão da emissora não deve ler jornais. Se lesse, saberia o que é de domínio público: a Globo ofereceu R$ 160 milhões pelas Olimpíadas de 2016, sem exigir exclusividade. E detalhes: antes mesmo de saber que o Rio seria a cidade-sede.

Duvido que alguém em um cargo tão importante desconheça essas informações. Vai ver, mentiu mesmo. Ou se emaranhou na lã de seu casaquinho de tricô.

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10 maio 2011

recordXglobo blog Mais um pouco e a Globo vira Record

Em entrevista a Mauricio Stycer, crítico de TV do UOL, o diretor-geral da Globo, Octavio Florisbal, assume, com aquele jeitão autossuficiente, que a emissora vai ter que correr atrás do prejuízo. E da Record, quem diria!

Até que enfim o governo Lula começou para a Rede Globo. Como sempre, com décadas de atraso, a Velha Senhora percebe que o Brasil mudou. Mais um pouco e vai ter que aceitar que vivemos em uma democracia.

Observem o que diz o texto, logo no início:

“No embalo do crescimento econômico recente do país e das projeções otimistas para os próximos anos, a Rede Globo aprofundou um processo de modificações em sua programação para atender a uma nova clientela: a emergente classe C. As mudanças afetam as áreas de novelas, os programas de humor e o jornalismo. E objetivam deixar a programação mais popular. A nova classe C, na visão da emissora, quer se ver retratada nas telas.”

Eureka!

Então, quer dizer, finalmente, que a “popularização” que a Record pratica há anos, sempre sob o olhar arrogante e presunçoso dos oráculos globais, estava certa? Mais um pouco e a Globo renegará as elites deste país, a quem tão bem serviu.

Jornalismo popular a Record sempre fez, com a clara intenção de se comunicar com as classes C, D e E, que, para o executivo (vejam só), “têm uma vida própria, com características próprias. Nós precisamos atendê-los”. Incrível. Visionário, não é mesmo?

Telejornais conversados, reportagens com plano sequência, inteligíveis para todos, e com temas pertinentes à vida de qualquer cidadão comum fazem parte do noticiário da Record há anos. Por algum milagre, deixarão de ser apelidados de “sensacionalistas” e “apelativos”.

Percebam o quanto um homem pode se regenerar, nas sábias palavras de Florisbal: “Eles têm que ver a sua realidade retratada nos telejornais. Eles querem ter uma linguagem mais simples, para entender melhor.” Eles quem? A classe média “emergente”.

Mais um pouco e a Globo admitirá que existem pobres neste país! E é capaz até de colocá-los em sua programação, sempre tão elitista, repleta de milionários em seus jatinhos, nas novelas em que os ricos e canalhas sempre se dão bem.

Na Record, favela é cenário desde Vidas Opostas, novela de 2006. Repito: 2006. Pela entrevista, somos advertidos que a próxima novela de Aguinaldo Silva vai se passar na “periferia”. Uau. Que revolução.

Capaz de vermos gente humilde vestida com roupas humildes na tela da Globo. Como farão com os merchandisings? Fiquei curiosíssimo.

Florisbal, mediúnico como ele só, percebeu que houve em nosso país uma forte “mobilidade social ocorrida em função do crescimento da renda e do emprego”.

Talvez isso explique a crise por que passam o PSDB e o DEM (não, não mudei de assunto). Mais um pouco, uma década talvez, e a Globo vai perceber que o governo Lula acabou. Entrou uma mulher no lugar. É o que dizem por aí.

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6 maio 2011

Sou fã de Jack Bauer, do seriado 24 Horas. Suas oito temporadas são uma autópsia da alma do império americano, um desnudamento implacável, a sangue frio.

Sintomaticamente, a série estreou dois meses após o ataque de 11 de setembro. E ficou no ar tempo suficiente para os EUA invadirem o Iraque e o Afeganistão. A vida e a arte se estranharam. E se entranharam.

Muitos dizem que 24 Horas é uma obra hiper-reacionária, uma apologia ao espírito bélico da América imperialista. Discordo: é uma crítica feroz a tudo isso, sem perdão.

A fúria patriótica de Jack Bauer é um tratado ético, principalmente sobre o uso da tortura como método “legítimo” de investigação e combate ao terrorismo.

Afogamentos, dedos amputados, choques elétricos, dores lancinantes e outras barbaridades, tudo era tolerado (e se mostrava muito eficiente) na defesa dos interesses da nação.

Alguém aí duvida que é dessa forma que agem todas as polícias, exércitos e agências de espionagem (ironicamente chamados de “serviços de inteligência”)? Eu não.

A novidade é o governo de Barack Obama vir a público e despudoradamente assumir que faz uso de “métodos reforçados de interrogatório”. Contra terroristas, métodos aterrorizantes. Na cara dura.

Guerra é guerra, muitos dirão. E chamarão de ingênuos os que lembrarem que leis internacionais (assinadas pelos EUA, diga-se de passagem) proíbem o uso da violência para obter confissões.

Estou entre esses imbecis que julgam a tortura a manifestação mais baixa e atroz da nossa lamentável condição humana. Mas continuo fã de heróis trágicos e atormentados.

Retrato definitivo de uma era, Jack Bauer matou Bin Laden. Simbolicamente, é claro. Porque, no seriado, o justiceiro não teria sido tão covarde.

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5 maio 2011

Não há nada mais boiola do que a expressão “união homoafetiva”. Casamento gay não é um termo claro o suficiente? Precisava dar esse enfrescalhada no vernáculo? Cansei.

Pelo menos, é um assunto a menos a ocupar nossa agenda fashion. O Supremo Tribunal Federal está dando por encerrado o assunto: homossexuais têm o direito legal de estabelecer uniões civis estáveis com seus parceiros.

A rigor, não houve debate. Os adversários da proposta, salvo exceções raríssimas, esgrimiram argumentos toscos, vociferantes, preconceituosos e truculentos como uma conversa de bofes bêbados após o futebol de domingo. Afe.

Não dá pra entender que o mundo pode ser mais alegre e saltitante, cada um cuidando do que é seu? Tenho vontade de dar uma lampadada na cabeça de gente assim, que implica com a sexualidade alheia. Eu que os veja andando na Avenida Paulista!

O que ninguém pergunta é por que os gays insistiram tanto nesse assunto. Séculos de opressão e o que eles reivindicam é serem tão infelizes como os heterossexuais? Bom proveito.

Casamentos injustificáveis eu vejo por aos montes. Famílias indecorosas compostas de homens e suas respectivas mulheres. Não posso fazer nada por eles.

O comediante americano Henry Youngman definiu bem esse conflito humano: “O homem não sabe o que é a verdadeira felicidade até que se casa. Mas aí já é tarde demais”.

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3 maio 2011

A mulher do jogador Valdívia, do Palmeiras, foi direto ao ponto G do nosso futebol: “A maioria das mulheres brasileiras são umas piranhas, marias-chuteiras".

Untitled1 Piranha e maria chuteira agora são posições de respeito

A declaração de Daniela Aranguriz, no Twitter, em 30 de abril, poderia mexer com os brios da mulherada nativa, não fosse por um motivo: ela tem razão. Tirando o fato de que ela mesma se enquadra na categoria, não é mesmo?

Tanto que a frase aparentemente grosseira não mereceu muitas respostas da comunidade. Talvez porque, desse jeito, ela não ofende muita gente.

Como já disse aqui, se tornar jogador de futebol passou a ser a melhor perspectiva para um jovem no Brasil. O que sobraria para as meninas? Engravidar de um boleiro é um projeto de vida respeitável.

A popstar Shakira entrou para esse seleto grupo de piranhas ao se enamorar do zagueiro do Barcelona Pequí. A atriz Nívea Stelmann assumiu publicamente o Elano, do Santos. E Deborah Secco e Roger? Viram só? Ser maria-chuteira atingiu novo patamar de credibilidade.

Avante, meninas! Jogador está preparado para disputar bola dividida. Podem se engalfinhar à vontade por esses partidões. Mas tem que suar a camisa, mostrar talento com as duas pernas e estar preparada para ocupar o banco de reservas.

Piranhas, não se deixem abalar com os protestos das adversárias. Tem que saber assumir a posição. O que vale é bola na rede.

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2 maio 2011

comemoracao binladen blog Osama morreu, mas não merece uma festa

Quando milhões comemoram a morte de um único homem... esse homem venceu. É o que o assassinato de Osama bin Laden significa. Lamento informar.

A comoção de multidões, o discurso retumbante de Barack Obama, o servilismo colonizado da mídia mundial na cobertura sobre o incidente, tudo isso é somente e exclusivamente primitivo, lamentável, assustador.

Que não fique nenhuma dúvida: o terrorismo da Al Qaeda é indefensável. Como também o é a ingerência norte-americana no destino de outros povos. Todo império se constrói e se mantém sobre escombros e ruínas.

Não vamos ser ingênuos. O ódio contra os norte-americanos não é nem mais nem menos detestável do que o preconceito contra os muçulmanos. Um país não sofre ataques terroristas sem que tenha dado sérios motivos para isso.

É simples e preocupante. A morte de Bin Laden não é o fim do terrorismo islâmico. É apenas um baque profundo, assim como foi o ataque de 11 de setembro.

A maior potência bélica do mundo demorou 10 anos para finalizar sua vingança. Não há motivos para que isso se torne uma final de campeonato, com multidões urrando em praça pública.

Toda morte deveria ser motivo de luto ou, no mínimo, de silêncio. Se não for por outro motivo, que seja porque outras virão.

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