A Lei Seca não funciona, e ponto

Ser contra a Lei Seca é quase um suicídio intelectual, tamanha a popularidade dessa nova Guerra Santa instalada no País. Assim como a Antifumo, esse tipo de legislação dura, intolerante e castradora se encaixa como uma luva de boxe no inconsciente coletivo. Mas não fujo ao debate que ninguém se atreve a enfrentar. Essas leis são burras. E a Lei Seca é um abuso que só trará equívocos e arbitrariedades.

Já disse, mas repito: sempre foi proibido por lei dirigir embriagado. E deve continuar sendo, mas de forma racional e razoável. O que nunca houve, e continua não havendo, é um Judiciário que efetivamente puna quem fere ou mata ao volante (inclusive, ou principalmente, os sóbrios). Que fique claro: não estou defendendo bêbados. Só acho um porre demagogia e autoritarismo.

Assim como todos os cânceres são atribuídos ao cigarro (enquanto é ignorado o malefício evidente da poluição causada por automóveis e indústrias), as mortes no trânsito, da forma como chegam à opinião publica, parecem ser decorrentes exclusivamente de motoristas embriagados. Claro que não são.

Infelizmente, a questão da violência sobre rodas não se resolve de um trago só. Basta olhar com frieza os números de acidentes e mortes ocorridos durantes as festas de fim de ano. Por mais que autoridades e reportagens histericamente otimistas tentem dourar a pílula, a tragédia continua a mesma.

É comum que discursos inflamados lembrem que 40 mil brasileiros morrem todo ano nas nossas ruas e rodovias. São números de países em guerra. O que ninguém diz é quantas dessas mortes são de fato decorrentes do abuso do álcool ao volante. A imprudência, a arrogância e a burrice são muito mais mortais que uma taça de vinho no almoço de domingo.

As policias montaram verdadeiros arrastões para fiscalizar a aplicação da nova Lei Seca, aprovada e sancionada à toque de caixa. O resultado é impressionante: só a Polícia Rodoviária Federal fez 25 mil testes de bafômetro. Quase 1700 multas (caríssimas, extorsivas) foram aplicadas. E por fim, o que muito me interessa, mas não escandaliza ninguém: 723 pessoas foram presas. Setecentas e vinte e três pessoas! Presas. Foram dormir na cadeia, ao lado de ladrões e assassinos. E tem gente que acha isso legal.

Precisa ser muito inconsequente e maligno para achar que está certo entupir nossas delegacias e prisões superlotadas por causa de dois copos de cerveja (suficientes para caracterizar o "crime"). É medieval. Assustador.

Mas digamos que, em tese, apenas para efeito de raciocínio, esse massacre trouxesse evidentes benefícios e o número de vítimas fosse diminuído proporcionalmente ao estrago na vida dessas pessoas encarceradas. Talvez valesse a pena?

O fato, a verdade, é que desde que a lei foi severamente alterada, há anos, o número de mortes continua inalterado. É, insisto, um fato. A Lei Seca não funciona.  Não dessa forma virulenta e exclusivamente punitiva.

No caso do balanço do final de 2012, a vergonha e o descalabro são incontestáveis. Muitos mais brasileiros morreram durante a Operação Fim de Ano, exatos 11% além do registrado em 2011. Foram 392 mortes, contra 353 no ano anterior. Dados oficiais, que estão em todos os veículos de comunicação. Entenderam? E a que custo?

Criminalizar o consumo de bebidas é uma invenção americana. Veio dos EUA, um pais que autoriza (e há séculos estimula) seus cidadãos a andarem armados. Os gênios que pensaram essa lei dizem que ao beber (ressalte-se: não é preciso estar efetivamente fora de suas faculdades motoras e mentais, basta ter ingerido alguma bebida) o infeliz assume o risco de matar alguém. Mas pode colocar um revólver na cintura e sair por aí que não será preso. É coisa de gente doente, pensar assim.

Sei como é antipático o que estou tentando dizer. Mas estou convencido de que esse não é o caminho. Prender pais de família, pessoas sem nenhum histórico de violência, jogar numa cela um motorista em condições de dirigir, ser intolerante e irracional, com certeza, não vai poupar vidas. Mas vai destruir muitas. Não duvidem.

14 Comentários

"A Lei Seca não funciona, e ponto"

4 de January de 2013 às 17:41 - Postado por Odair Braz Junior

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Comentários
  • Ademir
    - 03/12/2013 - 15:25

    PARABÉNS PELO ARTIGO E OPINIÃO, DISSE TUDO! O Brasil e suas crendices. Os verdadeiros motivos que dão causas à acidentes são: 1 - Excesso de Velocidade; 2 - Ultrapassagem em Local Proibido; 3 - Falta do Uso de Cinto de Segurança; 4 - Más condições das vias e rodovias; 5 - Imperícia de motociclistas (campeões em acidentes); 6 - Falta de rigor nos exames ao liberar CNH; 7 - Motoristas em estado de embriagues total (aquele que dirige em zigue-zague e não consegue parar em pé ao descer do veículo). Observação: Motoristas alcoolizados que não estão com a capacidade psicomotora abalada, não dão causas a acidentes. NÃO SE ENGANE, isto é dado científico. Na verdade a Lei Seca foi criada por 2 motivos: agradar a IMPRENSA SENSACIONALISTA que insiste em afirmar que os acidentes são causados por motoristas alcoolizados e para aumentar a ARRECADAÇÃO DE VERBAS PARA OS COFRES PÚBLICOS. Qual político iria se indispor contra a imprensa e contra o aumento de verbas para os cofres?????? Se os governos quisessem mesmo reduzir acidentes investiriam em: radares e lombadas bem sinalizadas para coibir o excesso de velocidade e câmaras para flagrar motoristas que não usam cintos de segurança ou manobras perigosas realizadas por motociclistas. É lógico que o governo também de cumprir com sua parte, ou seja, de ZELAR pelas vias e rodovias com manutenção, duplicação, acostamentos pavimentados, etc. Por último proponho um reflexão: somente o Brasil e Colômbia adotaram tolerância zero. Somente os motoristas destes 2 países sofrem alteração psicomotora ao ingerir uma lata de cerveja? Sim porque os demais países do mundo há um limite de tolerância.

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  • heloisa
    - 18/02/2013 - 16:18

    Concordo com você, estamos entrando numa onda de leis absolutamente espartanas, sem qualquer embasamento que as sustente, além do achismo de nossos politicos que, pasmem!, agora criaram uma lei em que os donos de restaurante sao obrigados a cobrar meia porçao, ou efetivamente servi-las (mesmo que nao haja esta prática no restaurante), para quem sofreu cirurgia para reduzir o estomago. Estamos vivendo tempos difíceis, de um estado totalitário e pessoas que se acomodaram, há muito, pois é mais fácil do que lutar por uma causa! Parabéns!

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  • Tania
    - 14/02/2013 - 11:23

    A lei seca é uma forma que o pode público arrumou de melhorar a arrecadação. Uma forma de fazer dinheiro rapidinho.

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  • Guilherme Camargo
    - 24/01/2013 - 08:53

    A Lei Seca é um caso clássico de fazer a coisa certa da forma errada. Sendo que esta forma errada, tem um nível de arrecadação satisfatório ... Não gosto de ir a um restaurante e sentir medo por dirigir por consumir 2 taças de vinho. Afinal fiz e faço isso há mais de 20 anos e nunca arranhei uma roda por causa disso. Meu histórico e senso de responsabilidade pouco importa para os mantedores da lei. Outra coisa 1: TODOS que cometeram acidentes fatais embriagados estão fora das grades. Outra coisa 2: Destes acidentes, quantos cometeram com até 10% acima do limite de álcool no sangue?

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  • Armando
    - 21/01/2013 - 08:36

    Muito bom o artigo, mas faltou acrescentar o caráter arrecadatório dessas operações que visam mais encher os cofres do estado. Fiscalização de motoristas "embriagados" deveria ser desvinculada da fiscalização de IPVA e vistoria de veículo. Não é justo que um pai de família que use o seu carro que está com IPVA atrasado para levar um membro de sua família ao hospital de madrugada, fique a pé por conta disso mesmo que tenha passado no teste do bafômetro. @Jagpinho @RadarCostaVerde

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