10 janeiro 2013

belas artes Sobre o Belas Artes, pancadões e vida noturna: por uma São Paulo menos sombria

Faz dois anos escrevi um post sobre a proposta de tombamento do cine Belas Artes. Para mim, o prédio, de arquitetura grotesca, e o fim dos cinemas de rua (engolidos pela violência e pela especulação imobiliária) não justificavam os apelos hipócritas pela manutenção de algo que representaria, rigorosamente, o fracasso da cidade.

Agora, parece que a prefeitura de São Paulo tem planos para comprar o imóvel e lá instalar um (minúsculo) centro cultural. Continuaria achando a ideia um esforço fadado ao fracasso, se não estivesse acontecendo por ali uma inciativa (rigorosamente privada) de retomar um dos ícones da boêmia paulistana, o bar Riviera, fechado em 2006, após 57 anos de funcionamento.

Quem conheceu o auge da vida noturna de Sampa sabe que na esquina da Consolação com a Paulista havia uma efervescência cultural orgânica, espontânea, vibrante. Onde hoje há escuridão, viciados em crack e assaltantes, havia um burburinho que avançava até altas horas. Os mais diversos tipos de pessoas se espalhavam pelos restaurantes bem cuidados, as lanchonetes fuleiras, as pizzarias e redutos de variadas tribos.

Outros tempos, que provavelmente jamais voltarão com a mesma força. De uma década pra cá, a capital paulista foi dominada por um pensamento político que ignora a necessidade de se pensar uma metrópole como um organismo que só sobrevive se nele forem toleradas suas inúmeras contradições. A rigor, as gestões Serra e Kassab instituíram um toque de recolher na maior cidade do Brasil.

Venceu um ponto de vista legítimo, o da normatização de leis que favorecem direitos individuais, em detrimento dos coletivos. Mas quando um dos lados é forte demais, acaba a diversidade. Um exemplo exasperante disso ocorreu numa roda de samba famosa da Zona Norte da cidade, em torno da qual, durante anos, se reuniam nos sábados à tarde mais de 500 pessoas da comunidade. Um abaixo assinado de 50 moradores incomodados com o barulho levou à interdição do evento.

Óbvio que muitos “pancadões” que se espalham pela periferia dão sólidos argumentos para os que querem uma cidade silenciosa e pacata. Afinal, por absoluta falta de locais onde os jovens possam se reunir para lazer, acabam todos amontoados ao lado de bandidos e traficantes nos finais de semana. Nada é simples, bem sabemos.

Não adianta instalar equipamentos culturais e esperar que ao redor se estabeleça a civilização. A magnífica Sala São Paulo, templo da música erudita, construída em plena Cracolândia, é o mais triste exemplo de como o poder público é capaz de errar mesmo quando movido pelas melhores intenções. Em alguns dias só é possível entrar no prédio com escolta militar.

Travo uma batalha particular contra a caretice que assola minha cidade. É muito sombrio ver São Paulo ir dormir cada vez mais cedo. Não quero incomodar o sono de ninguém, mas se todos olharmos ao redor teremos que concordar que São Paulo já foi uma cidade mais colorida, desperta e artística. E não, não tenho a solução definitiva para recuperar essa alegria. Só não dá para ficar parado e esperar que tudo fique ainda mais triste.

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