22 fevereiro 2012

Parecia o Pedro Bial escondendo suspeita de estupro no BBB. Assim foi a narração da constrangida Glenda Kozlowski durante o desfile de carnaval da União da Ilha. Um comovente esforço pessoal.

Tudo para não ter que falar da Olimpíada de 2012, citada no enredo - De Londres ao Rio: Era uma vez... uma Ilha - que buscava exatamente fazer uma contagem regressiva entre os Jogos deste ano, na cidade inglesa, e os de 2016, que ocorrerão no Rio.

Existem os realistas e os reis. No caso, duvido que a simpática apresentadora de Esportes da TV Globo tenha tomado a iniciativa da omissão por conta própria.

Assim como o Pan-Americano do ano passado, o que a Globo não transmite não é notícia. Nem merece ser citado. A arrogância de sempre. O tipo de ordem que vem de cima. Obedece quem tem juízo. Ou quem acha que audiência dura para sempre.

O momento mais ridículo, cretino até, foi quando as imagens mostravam bandeiras citando os Jogos de Londres e a moça, obediente, se superou: “Olha aí os anfitriões das Olimpíadas de 2016”. Assim, na cara dura.

Pobre Glenda. Não deve ter sido fácil engolir durante uma hora essa informação essencial para a compreensão do desfile. Os telespectadores que se danem: esse é o verdadeiro refrão do Carnaval na Globo.

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22 fevereiro 2012

preso Liga do Samba ou crime organizado?

A Liga das Escolas de Samba de São Paulo entrou para o panteão das vergonhas nacionais. Lembrou os tempos em que carnaval era considerado coisa de marginais e bandidos. No caso, tudo indica, é mesmo.

Não bastasse a pobreza incorrigível do desfile paulista, sua patética imitação do espetáculo midiático que se tornou o modelo carioca, ainda temos que assistir a cenas explícitas de vandalismo, violência e mau-caratismo.

A apuração das notas do Grupo Especial acabou como se estivéssemos diante de uma rebelião de presidiários, com direito a polícia acuada e incompetente. Claro que no meio havia inocentes: é comum em situações como essa. Azar.

O mais vergonhoso é tudo ser patrocinado por dinheiro público. Na verdade, nada mais natural para um país que financia até a corrupção privada. Mais um pouco, vamos abrir linhas de crédito para o crime organizado.

Se os envolvidos nessa algazarra não forem punidos, podemos esperar pelo momento em que esses desfiles vão se tornar uma guerra campal.

Por mim, tudo bem, desde que cerquem o sambódromo e fiquem todos confinados lá. Aí, sim, vai fazer sentido que existam jurados presentes. Que se esfolem, os foliões.

Qualquer condescendência com esse show de barbárie deve ser responsabilizada criminalmente. Ou só eu percebi o clima de histeria que alimenta essa gente violenta e desocupada?

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17 fevereiro 2010

Que brasileiro é o rei da hospitalidade, o mundo todo sabe. Os primeiros foram os índios com os portugueses. Deixaram entrar e deu no que deu.

Após séculos de treino, atingimos mais um grau negativo na escala do capachismo. O nível de servidão com as celebridades estrangeiras que vieram ao Brasil na última semana poderia ser caso de segurança nacional.

Devemos ser uma nação com carência afetiva. Tudo bem que é legal receber na nossa casa gente como Beyoncé, Mariah Carey, Madonna e, hum, vá lá, Paris Hilton. Mas não precisamos nos humilhar. Serve um cafezinho com bolo de fubá que está de bom tamanho.

Não é à toa que a gringaiada sai daqui falando bem do país. Lotamos nossos estádios para assistir aos shows que muitos deles só fazem em fim de carreira. O povão canta em coro suas letras em inglês, espanhol, sânscrito, o que for preciso.

É uma clara inversão: a plateia que faz de tudo para agradar. Só pode ser complexo de inferioridade.

Mas o que vimos neste carnaval é o fim da picada. A Madonna veio aqui em novembro de 2009 e levou US$ 7 milhões do Eike Batista (que jamais doaria esse dinheiro para o Corpo de Bombeiros, por exemplo).

montagem R7 Celebridades internacionais tratam brasileiros como súditos

Madonna, Beyoncé e Paris Hilton

Até chorou de emoção, a coitadinha. Leia aqui. Aí voltou.

Com uma recepção dessas, até eu voltaria. Pois ela desembarcou, a convite, para curtir os camarotes hipervips do sambódromo. Ela e a patota dela. Foi tratada como rainha. E nos tratou como súditos, é claro.

Carregou seus seguranças para todo lado, foi cortejada pela elite política, invadiu a avenida durante um desfile, fez a muvuca que bem entendeu. Até beijou na boca um amigo do Jesus. Só pode ter sido o Judas.

A culpa não é dela. Nem da Paris Hilton, a patricinha milionária cujo único talento é trocar de namorados. Andou pra lá e pra cá, se esbaldou, foi bajulada, comeu e bebeu de graça. Por quê? Ainda não entendi.

Lembram daquela modelo fuinha que catou um monte de ricaços brasileiros? Isso, Naomi Campbell! Essa foi a pioneira em se divertir assim, às nossas custas. Ela deve ter contado para as amigas como funciona o esquema. Agora fazem fila para entrar aqui.  Ou melhor, furam a fila.

Creio que está na hora de mudar esses papéis. Querem vir para cá? Sejam muito bem-vindas, as celebridades internacionais e seus milhares de dólares. Vamos tratá-las de forma especial, é nosso jeito. Somos um povo gentil e educado.

Mas espera lá, né? Respeito é bom, todo mundo gosta.  Limpem os sapatos antes de entrar. Usem os capachos do lado de fora.

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12 fevereiro 2010

É bom passar o carnaval em São Paulo. A cidade fica sem os paulistanos. E é a única forma de fugir das estradas entupidas e saguões de aeroportos lotados.

Os congestionamentos e filas, os estressados e endinheirados, os tipinhos mais grosseiros, são todos transportados para lugares até então paradisíacos. Não há destino – do sítio do sogro ao mais extorsivo resort – que escape da horda em fuga.

E são muitas as opções ficando por aqui. Promover uma festa de arromba em casa sem que os vizinhos possam reclamar. Praticar o ócio sagrado. Ficar vendo na TV o quanto descendemos dos macacos. Evoé.

Não consigo entrar no clima de histeria consentida dos sambas-enredo, axés, trios elétricos, tambores e danças tribais. Morro de tédio vendo aquele monte de gente explodindo de alegria.

Carnaval é um surto coletivo muito estranho. As pessoas ficam pulando e suando no meio da rua. Argh. Ou correndo em círculos num salão lotado. Afe.

Isso sempre me pareceu uma catarse mais apropriada a povos nórdicos ou de libido refreada por séculos de civilização. Nada a ver com um país como o nosso, que exala safadeza o ano todo e não precisa de efemérides para soltar a franga.

Carnaval foi feito pra mulherada. Elas ficam ainda mais nuas e podem se contorcer freneticamente ao som dos atabaques. É a dança do acasalamento em sua plenitude. Que bonito é.

O resto são homens babando e exercendo ao extremo a capacidade de ser ridículo. Ai, que falta faz o Clóvis Bornay. Aquele sim sabia do que se tratava.

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