17 setembro 2010

New Image1 Na hora da notícia, é proibido ser ingênuo

Foto: Julia Chequer/R7

 

No debate do R7 e Record News com os principais candidatos a vice, fiz uma pergunta ao companheiro de chapa de José Serra, deputado Índio da Costa: 

 

"A revista Carta Capital publicou uma reportagem afirmando que a empresa da filha do candidato Serra, Verônica, expôs os dados bancários de 60 milhões de brasileiros. 

O então presidente da Câmara, Michel Temer, em 2001, enviou ofício ao Banco Central cobrando explicações sobre essa quebra de sigilo. O senhor não ficou indignado com essa denúncia?". 

A resposta dele foi singela: "Não leio Carta Capital". E pronto, mudou de assunto. Ficou por isso mesmo. Se fez de surdo, ignorou a pergunta e continuou a ladainha dele. Mesmo com o Temer, vice da Dilma, ô mundinho pequeno, confirmando o fato. 

Entender como funciona a política a gente meio que consegue. Funciona mal. O que pode gerar alguma discussão é como se comporta a imprensa brasileira em época de eleições. 

Se comporta muito mal. Os barões da mídia montam uma orquestra afinadíssima. Pena que a música que eles tocam seja tão ruim. 

Estamos acompanhando a sucessão de denúncias contra o PT. Bem feito. Seria ótimo para a democracia extirpar funcionários corruptos. Melhor ainda se for uma ministra da Casa Civil. 

Roubou, fez tráfico de influência? No caso, bastavam os indícios para demitir: funcionário público de alto escalão tem mais é que ser e parecer honesto. Depois prove a inocência. A vida é cruel. 

Não se trata, portanto, de sair em defesa de ninguém. Essa turma sabe muito bem se defender sozinha. O que interessa é prestar atenção em como os jornais se unem na calada da noite e nas manchetes do dia. 

Como uma denúncia tão grave como a de Carta Capital não recebe nenhuma atenção dos outros veículos? 

Perguntado sobre isso, Eliane Catanhêde, jornalista da Folha de S.Paulo respondeu: "Muito simples: porque a Carta Capital não tem credibilidade". 

Não é que é simples? Pronto. Mude de assunto. Fique por isso mesmo. Se faça de surdo, ignore a pergunta e continue cada um com sua ladainha. 

Deixar perguntas sem resposta. Desqualificar o adversário para fugir de uma denúncia. Se fazer de morto. Essas táticas de dissimulação a gente já conhece. 

Tem que ficar esperto, isso sim. Cada um que saiba muito bem onde está metendo o bedelho. Quer ler jornal, leia. Quer ver o noticiário da TV, bom proveito. 

Só está proibido uma coisa: ser ingênuo. Isso é eliminatório. Ainda mais se você for leitor, ouvinte ou espectador. Se liga aí. 

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3 setembro 2010

O festival de besteiras que assola o país continua. Não bastassem os palhaços voluntários, há aqueles que sem querer nos fazem rir.

De nervoso.

O candidato ao senado pelo obscuro PTC de São Paulo chama-se Ciro Moura. E se apresenta apenas como Ciro, número 360.

O cara é mistura de gênio da garrafa de pinga com professor aloprado. Seu slogan é "Para uma mudança de 360 graus, vote em Ciro". Não é estupendo?

Se tivesse frequentado as aulas de geometria, o candidato saberia que um giro dessa magnitude devolve qualquer objeto, inclusive ele, ao mesmíssimo lugar.

Talvez seja uma confissão premeditada. Para que depois o povo eleitor não diga que foi enganado. O improvável senador sabe que com ele não chegaremos a nada.

Pois o ilustre desconhecido se apresenta sem seu sobrenome, para que os desavisados o confundam com o xará cearense, o Gomes.

Só isso explica os 19% de intenção de voto que as pesquisas registram a seu favor (e contra todos nós).

O Moura faz essas gracinhas sem nenhum remorso. No horário eleitoral, aparece na penumbra e não abre a boca. Apenas um locutor, em off, pede votos para "o Ciro".

Se não for estelionato, sei lá que nome tem essa lambança. Como não vai dar certo, deixa quieto. Pior que tá não fica.

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24 agosto 2010

Nada desmoraliza mais a classe política do que o horário eleitoral gratuito. É o ultimo degrau. O porão. Esgoto a céu aberto. Vergonha nacional.

Tirem as crianças da sala! Devia passar só de madrugada, para maiores de 28 anos, em canal fechado. É pornográfico. O Ministério da Justiça não vai tomar nenhuma providência?

Se é esse o preço que devemos pagar pela democracia, melhor dar um calote. Veja se nos Estados Unidos existe algo assim. Lá, se Mr. Tiririca quiser desfilar suas piadas ignorantes tem que pagar. E bem. Político compra espaço na TV como qualquer anunciante, afinal, são todos produtos. A maioria, com prazo de validade vencido.

São 20 mil candidatos em todo o país.  É muito picareta para cavar o fundo do poço. Duas vezes por dia, 50 minutos cada? Seria uma lavagem cerebral, se alguém assistisse. Com muito esforço, conseguimos dar uma olhada. Até a Voz do Brasil é menos insuportável.

Se existisse algum político realmente sério, estaria propondo o fim desse suplício. Alô digníssimos senhores e senhoras que tomarão posse em 2011: acabem com isso pelo bem da própria categoria. Porque horário eleitoral gratuito só pode ter sido obra de sabotagem. Coisa da CIA ou do Talibã.

Ficar vendo a escória que quer entrar para a política é um desserviço. Impor esse caríssimo desfile de horrores é pedir para ninguém ter vontade de votar. E aumentar as vendas de Dramin, Engov, Sal de Fruta e Sonrisal. Porque não dá para levar a sério.

Os bons, se é que existem, afundam na mesma lama. Não há debate nem esclarecimento. No máximo, o ilusionismo dos marqueteiros, esses parasitas ordinários.

Quando as urnas forem computadas em outubro, não haverá surpresas. Continuaremos reféns dessa gentinha oportunista e patética. Por enquanto, ao menos eles são engraçados. A tragédia vem depois.

Mas eles que arrumem outros patrocinadores. Os grandes empresários que corrompem nossa República não gostam de aparecer no rádio e na TV. São profissionais.

Não precisamos ficar vendo seus intermediários blasfemando na nossa cara. Se desligamos os aparelhos quando eles surgem, para que tanto desperdício? Vão fazer programa na rua, pô!

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23 junho 2010

Nessa história do suposto dossiê sobre o Serra, é fácil saber quem está mentindo. Todo mundo, é claro. A verdade é uma intrusa nessas horas. E, quando descoberta, é enterrada viva.

Toda campanha é feita de dossiês. Conhecer os pontos fracos do adversário é questão estratégica. Carta na manga e bala na agulha é a diferença entre vencer e trincar os dentes de raiva.

O Serra já foi acusado de espionar seus inimigos muito antes de ser candidato, ainda no governo FHC. Fez uma legião de inimigos por isso. Contra ele pesa também a suspeita de fritar a candidatura de Roseana Sarney em 2002. Ninguém é completamente imperfeito.

Todo partido tem seus aloprados. Arapongagem faz parte de qualquer organograma de campanha. E a imprensa sabe disso. Mas posa de vestal. Faz cara de surpresa quando vê uma armação. E publica, a depender de que lado está.

Dossiê bom é aquele que vaza na hora certa. Ou seja, quando não há mais tempo de ser desmentido. Porque todos são. E fica por isso mesmo.

Não entendo essa implicância contra denúncias em época de eleição. É a única hora em que os políticos se preocupam em prestar e cobrar contas. Acaba tendo um efeito higiênico.

Quero mais é que todos os candidatos se engalfinhem até sangrar. Fora isso só resta os chatíssimos e inúteis programas de governo. Aqueles calhamaços que nunca serão cumpridos. Lenga-lenga, blá-blá-blá.

Vou parafrasear o jornalista americano Murray Kempton. No meio dessa guerra suja chamada política, os candidatos esperam o fim dos combates, descem ao campo de batalha e matam os feridos.

Quem vence uma eleição são os que sobrevivem a ela.

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20 abril 2010

Juro que não ia falar de eleições.

Aí eu vi a foto do Serra na capa da Veja desta semana e fiquei comovido.

Como ele é fofo! Um ursinho de pelúcia! Nem tinha reparado.

capa veja serra ok Aí eu é que sou provocador...

Aí, li que o DataFolha alterou o critério de amostragem na pesquisa eleitoral para presidente da República. Na pesquisa de fevereiro, fez entrevistas em 18 bairros paulistanos. Já em março, os caras foram a 71 (não, não foi 171, calma) bairros na cidade de São Paulo.

Não aumentaram no Rio nem em Belo Horizonte. Bico calado, tá?  Fraude? O pessoal da Folha de S.Paulo nega. Imagina! Eu nem tinha reparado que o Serra desse jeito fica bem melhor na fita.

Aí eu vejo na TV Globo a chamada em comemoração ao aniversário da emissora. Uns 90 artistas e jornalistas aparecem na vinheta sob o slogan “Todos queremos mais”. No final, um número: 45.

Observe:

Sabe que eu nem reparei que 45 é o número do PSDB? E nem que o slogan do Serra é “O Brasil pode mais”?

Aí a Globo vem e, após a gritaria, tira a chamada do ar.

Aí ou eu ando distraído ou Veja, Folha e Globo têm algo em comum.

Aí tem.

Tudo na mesma semana. Santa coincidência. Ai.

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