22 fevereiro 2010

vancouver abre O que mais a Globo esconde?

Inúmeros colegas da imprensa já deram o recado: a audiência dos Jogos Olímpicos de Inverno foi surpreendente. Quem achava que a Record ia entrar numa fria se deu mal.

O povo não é bobo. É capaz de ligar seu televisor para conhecer e se encantar com novidades. O brasileiro é curioso e tem bom gosto. Não é o estúpido que alguns barões da mídia acham.

O que me interessa discutir aqui não são as estranhas regras do curling ou do skeleton, mas as entranhas de outro jogo. O de esconde-esconde. Não aquele da infância de todos nós. Mas a brincadeira que a Globo faz com seus telespectadores.

A Velha Senhora detinha os direitos de transmissão dos Jogos de Inverno há anos. Mas o escondeu de todos nós. Pagou para não exibir. Nem deixar que outros exibissem. Encastelada no Jardim Botânico, decidiu o que uma nação gostaria ou não de acompanhar. Talvez porque nos julgue estúpidos demais.

Mas tão estúpidos que a Globo resolveu simplesmente ignorar os Jogos de Vancouver. Não deram um segundo sequer sobre esse fenômeno que tomou conta das nossas telinhas. Esconderam de novo! Em resposta ao Estadão, que no último dia 19 publicou a pergunta óbvia (por que vocês não falaram dos Jogos de Inverno?), veio a arrogância.

Descreve o jornal: "a emissora alega que não falou sobre o evento porque não viu fato 'relevante' (um competidor morreu em uma prova), não possui os direitos de transmissão - que foram da Globo até 2006 e agora são da Record - e porque não possui ninguém de sua equipe lá cobrindo. Opa: e a turma do Sportv?", conclui a colunista Keila Gimenez.

Traduzindo: em 2006 foram realizados os Jogos de Inverno de Turim, na Itália. Lembra? Não, ninguém pode lembrar, só os executivos mestres globais.

A morte do atleta georgiano, no luge, foi tão irrelevante que a imprensa mundial noticiou. Sobre a turma do Sportv, eles são da Globo, estão lá, dividem a cobertura de inúmeros outros eventos, vivem usando microfone com o logotipo das duas emissoras, mas neste caso... e agências de notícias? Coitada, a Globo não deve assinar nenhuma delas.

Esse esconderijo platinado é bem amplo, nele cabe um montão de coisas. Nesse esconde-esconde, ficamos sem ver as Diretas Já. Esconderam mais de um milhão de pessoas no comício do Anhangabaú. O Lula só apareceu quando virou presidente da República. Aí não dava mais pra esconder.

Leonel Brizola e Luís Carlos Prestes não tiveram a mesma sorte. Sumiram.

Precisaram morrer para aparecer. Aí já era tarde. Só de uma coisa eu não reclamo. A Glória Maria pode continuar escondida.

A Globo, pensando bem, escondeu o quanto pode a história do Brasil. Quem estudar nosso país pelos arquivos do Jornal Nacional nem vai saber que houve uma ditadura militar.

Por isso, temos que torcer para que a concorrência aumente. Para que não haja líder absoluto, concentração de poder, esconderijos.

Aí, sim, a Velha Senhora vai ter que se esconder. De vergonha.

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18 janeiro 2010

O jornalismo impresso se acha. Principalmente as revistas semanais de informação. Como elas não são açoitadas pela urgência do tempo, fazem pose de que entregam um produto mais bem elaborado.

montagem r72 Espreme que sai sangue

Mau gosto se repete nas capas da Veja e Época - Foto: Reprodução

Sempre que podem (a cada sete dias, portanto), praticam o esporte de dar bordoadas no sensacionalismo da TV. Aquele mesmo que criticamos aqui neste blog.

Mas péra lá! Essa conversinha dos revisteiros é muito mole. Cara de pau. Pois respirem fundo e abram a Veja, a IstoÉ e a Época desta semana. Antes, retirem as crianças da sala.

Duvido que o leitor consiga tomar o café da manhã olhando para a sucessão de horrores que desfilam por aquelas páginas.

O Haiti tem nos obrigado a ver cenas devastadoras. Muitas delas vão permanecer por um bom tempo em nossas memórias. É muito sofrimento. Uma tragédia.

É realmente tentador apostar em imagens apelativas, fortes, impactantes. Elas alavancam audiências. E vendem jornais e revistas.

Pois bem. As semanais todas promoveram uma verdadeira carnificina. Um festival de sofrimento, escombros e mutilados.

Na Veja, um homem caminha sobre um “tapete de mortos”. Um “corpo abandonado da menina, com as ruínas de uma igreja ao fundo: ninguém sobrou para chorá-la”. Quem escreve um troço desses?

Veja Haiti Espreme que sai sangue

Na Veja, homem caminha sobre um "tapete de mortos" - Foto: Reprodução

Uma outra foto terrível arrebenta em páginas duplas. Precisa ser muito dolorosa para merecer tanto destaque. Tem que ser chocante, desesperadora. Tem que vender.

O mesmo mau gosto, a mesma rapinagem se repete, em graus distintos de competência, na Época e na IstoÉ. E se repete tanto que as revistas da Abril e da Globo têm a mesmíssima foto na capa. Claro, os editores devem se achar igualmente sábios e requintados.

Mas eles só fazem o servicinho de sempre. Vendem papel. Cobertos de sangue. E se julgam elegantes e sérios. E se vangloriam de ter mais credibilidade. Sei.

Eles adoram apontar o sensacionalismo da TV. E se esquecem deles mesmos, a imprensa marrom e suas páginas vermelhas, ensanguentadas.

Mas calma, pessoal. Na próxima edição, eles nos trarão uma nova dieta de emagrecimento. Ninguém é de ferro. E a vida continua. Aqui, em Angra dos Reis, em São Luís do Paraitinga, no Jardim Pantanal.

E no Haiti.

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26 novembro 2009

No meu post sobre o ombudsman da Folha de S.Paulo, a maioria dos comentários era sobre a Rede Globo. Achei emblemático o ato falho do internauta.

cesar tralli O milagre de César Tralli

Então aproveito para passar a limpo uma sujeira. Essa, sim, é das grossas. Um crime de imprensa, indesculpável, venal, premeditado. Sórdido.

Seu autor foi meu colega de trabalho na rádio Jovem Pan. Seguiu de lá para uma “carreira vitoriosa”, como se diz, não sem dar alguns tropeços pelo caminho. Ele sempre teve aquela voracidade que costuma ser a marca dos vencedores. Um grande repórter. Tinha meu respeito por isso.

Aí comecei a prestar atenção nos seguidos furos jornalísticos dele. Não gostei do que vi. A gente treina o olho para identificar que interesse está por trás de uma notícia exclusiva. E como ela se constrói.

Em setembro de 2005, quando da prisão de Flavio Maluf, o jornalista foi flagrado no exato momento da operação usando boné e roupas semelhantes às usadas por policiais federais. Somente ele presenciou e gravou a prisão do empresário. Hum.

Ano passado, foi chamado a depor na PF sobre o vazamento da Operação Satiagraha. De novo, o repórter sabia antecipadamente dos mandados de prisão e de busca e apreensão às casas dos banqueiros Daniel Dantas e Naji Nahas, e do ex-prefeito Celso Pitta. Humpf.

Um profissional assim é o sonho de muitos patrões da mídia. Consegue se misturar com tiras e meganhas.

E os bandidos? Questão de tempo?

O fato é que Cesar Tralli deve ser visto com ótimos olhos pelos seus superiores. E, portanto, é lembrado na hora dos trabalhos mais difíceis. E, todos sabemos, alguém tem que fazer o serviço sujo.

Pois bem, assistam a essa reportagem do Domingo Espetacular do último dia 15 de novembro. A matéria é longa, começa muito bem, perde o ritmo lá pelas tantas e se permite algumas subjetividades. Mas na essência é bom jornalismo. E faz uma denúncia grave, que não teve a repercussão merecida. Vale a pena ser vista:

Como dá pra ver, a manipulação cometida por Tralli é grosseira. E, repito, criminosa. Uma vergonha.

Para atingir seus fins maquiavélicos, se ajoelha, lambe as botas de quem lhe paga o salário e transforma instituição de caridade em Igreja (qual seria, ó duvida?) e aparelho de TV de plasma em emissora de televisão (Qual? Qual? Me ajudem!).

Bater na Globo faz tempo é esporte nacional. Desde as Diretas Já o povo grita que não é bobo. Com a efetiva democratização deste país e a consequente (e ainda tímida) desconcentração de poder, a velha senhora do Jardim Botânico já não é mais a mesma. E tem que se expor, passar recibo, dar bandeira do quanto está preocupada em perder sua liderança outrora intocável.

Mas façam isso de forma leal. Se alguém aceita perder sua credibilidade, só podemos lamentar. Ninguém faz o serviço sujo e fica de mãos limpas.

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22 novembro 2009

Acabo de chegar, ainda nem deram crachá e já me vejo em meio a um tiroteio.

Até a Sabrina Sato sabe que a Record tem inimigos declarados. A Folha de S.Paulo e a Globo fazem questão de deixar isso bem claro. OK, legítimo. Ninguém é obrigado a ir com a cara do outro.

Mas sair por aí falando pelas costas e espalhando mentiras, que coisa feia.

Ainda essa semana passada, ocorreu mais um round dessa briga que ninguém vai apartar. Dá uma olhadinha.

Que papelão, né? Um jornal tão conceituado, tem até Manual de Redação e rabo preso com o leitor. Era de se esperar que o ombudsman da Folha, Carlos Eduardo Lins da Silva, tocasse no assunto e puxasse a orelha da turma em sua coluna desse domingo, 22. Nada. Ignorou.

Conheço o Carlos Eduardo. É um cara sério, bem sisudo, com uma carreira bacana. Foi um dos mentores do Projeto Folha, que de fato modernizou o jornalismo brasileiro.

Mas parece que nessa briga ele não quer ou não pode se meter. Seria enriquecedor para todos ouvir suas ponderações sobre técnicas de apuração, manipulação e direito de resposta.

A matéria é tecnicamente uma farsa. Um texto daqueles não é publicado sem passar por uma boa dúzia de manés e uns dois ou três cabeçudos que passam as férias na Europa. Redator-chefe, editor, subeditor e repórteres que sabem o que estão fazendo. São pagos pra isso.

O ombudsman comeu bola. Ou ele também sabe o que está fazendo? Será que o representante dos leitores da Folha concorda com essa orquestração? Porque ele, que já foi maestro, ficou só no pianinho.

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