25 agosto 2010

 

Desculpe, mas tenho que voltar ao tema de ontem. Se você não leu, vale o clique. Percebeu o absurdo?

Pois é, pelo visto não fomos apenas eu e você. O Tribunal de Justiça de São Paulo também.

O TJ-SP considerou que a "prova" apresentada contra a Igreja Universal é "imprestável como prova documental de natureza bancária".

Em outras palavras, o promotor quebrou o sigilo bancário de uma conta nos Estados Unidos sem autorização, desrespeitando a lei brasileira.

Você viu a notícia que saiu na Folha de hoje sobre o caso? Não? Compreensível.

A "reportagem" de ontem (a que copiava o Estadão) estava estampada na primeira página do jornal e foi manchete do filhotinho da família Frias, o UOL.

Hoje, nada de destaque na capa do jornal e nenhuma linha na home do Portal. Por quê?

Porque o título é "Justiça anula provas contra a Universal".

Peraí para ver se eu entendi: a notícia que não era notícia, era requentada, uma cópia da que o principal concorrente do Grupo Folha havia feito em abril aparecia gigante para quem quisesse - ou não - ler.

A que mostra erros na condução do processo que levam à anulação das provas fica escondida na décima quinta página do jornal e sei lá onde no UOL.

Daqui a pouco vou precisar de um jornalista investigativo só para localizar onde os textos ficam escondidos. "Onde" eu sei que ele descobre, o problema é achar o "porquê".

Quer dizer... isso nem é preciso investigar.

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5 abril 2010

O furo jornalístico está se tornando uma atividade em extinção. Deveria ficar sob a tutela do Ibama ou da Funai. Questão de tempo para se tornar verbete de enciclopédia.

Antigamente, o furo era a capacidade de um jornalista investigar a fundo o que os poderosos tentavam esconder. Bons tempos. Não voltam mais.

Hoje, o furo é a capacidade que um repórter tem de atender ao telefone na hora certa. Mais nada. Pronto. Acabou. Vergonha.

Basta lembrar alguns dos últimos grandes momentos da imprensa. A começar pela Renata Lo Prete, da Folha de S.Paulo, e o chamado mensalão.

Ela apenas estava sentada na sua cadeira quando o Roberto Jefferson ligou para ela. Ganhou o Prêmio Esso por isso.

E o furo das provas do Enem que foram vazadas? O Estadão investigou isso durante meses? Não. Os bandidos que ligaram para a redação. Emocionante.

Esses são os casos mais comuns. O de um repórter ser arrancado de sua rotina por um telefonema bombástico, um dossiê anônimo, uma proposta indecente.

Perigo é quando passam por bucha de canhão ou laranja de falcatrua. Ficaria seriamente preocupado se o Daniel Dantas ligasse pra mim. Onde foi que errei, perguntaria.

Se não fossem os criminosos ressentidos que querem ferrar os criminosos desavisados, não haveria mais grandes revelações. Algumas entrevistas parecem delação premiada. Há instrumento de vingança melhor do que a imprensa?

Não podemos esquecer as mulheres traíras que destroem a vida dos maridos ladrões. Essas são imprescindíveis. Pobre Pitta, que descanse em paz.

Mas cuidado. Há o furo safado, corrupto, vendilhão – tipo subornar advogados e delegados para noticiar com exclusividade a confissão de algum psicopata.

Ou participar de uma blitz da Policia Federal vestindo colete de agente.

Tem jornalista pra tudo. E leitor, também.

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18 janeiro 2010

O jornalismo impresso se acha. Principalmente as revistas semanais de informação. Como elas não são açoitadas pela urgência do tempo, fazem pose de que entregam um produto mais bem elaborado.

montagem r72 Espreme que sai sangue

Mau gosto se repete nas capas da Veja e Época - Foto: Reprodução

Sempre que podem (a cada sete dias, portanto), praticam o esporte de dar bordoadas no sensacionalismo da TV. Aquele mesmo que criticamos aqui neste blog.

Mas péra lá! Essa conversinha dos revisteiros é muito mole. Cara de pau. Pois respirem fundo e abram a Veja, a IstoÉ e a Época desta semana. Antes, retirem as crianças da sala.

Duvido que o leitor consiga tomar o café da manhã olhando para a sucessão de horrores que desfilam por aquelas páginas.

O Haiti tem nos obrigado a ver cenas devastadoras. Muitas delas vão permanecer por um bom tempo em nossas memórias. É muito sofrimento. Uma tragédia.

É realmente tentador apostar em imagens apelativas, fortes, impactantes. Elas alavancam audiências. E vendem jornais e revistas.

Pois bem. As semanais todas promoveram uma verdadeira carnificina. Um festival de sofrimento, escombros e mutilados.

Na Veja, um homem caminha sobre um “tapete de mortos”. Um “corpo abandonado da menina, com as ruínas de uma igreja ao fundo: ninguém sobrou para chorá-la”. Quem escreve um troço desses?

Veja Haiti Espreme que sai sangue

Na Veja, homem caminha sobre um "tapete de mortos" - Foto: Reprodução

Uma outra foto terrível arrebenta em páginas duplas. Precisa ser muito dolorosa para merecer tanto destaque. Tem que ser chocante, desesperadora. Tem que vender.

O mesmo mau gosto, a mesma rapinagem se repete, em graus distintos de competência, na Época e na IstoÉ. E se repete tanto que as revistas da Abril e da Globo têm a mesmíssima foto na capa. Claro, os editores devem se achar igualmente sábios e requintados.

Mas eles só fazem o servicinho de sempre. Vendem papel. Cobertos de sangue. E se julgam elegantes e sérios. E se vangloriam de ter mais credibilidade. Sei.

Eles adoram apontar o sensacionalismo da TV. E se esquecem deles mesmos, a imprensa marrom e suas páginas vermelhas, ensanguentadas.

Mas calma, pessoal. Na próxima edição, eles nos trarão uma nova dieta de emagrecimento. Ninguém é de ferro. E a vida continua. Aqui, em Angra dos Reis, em São Luís do Paraitinga, no Jardim Pantanal.

E no Haiti.

Veja mais:

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25 novembro 2009

estudantes Não há lugar para amadores no jornalismo

Faculdades de Jornalismo jogam mais de 7 mil jovens no mercado todo ano. E costumam ser vistas como inúteis ou desnecessárias.

Há uma boa dose de razão nesse preconceito, alimentado pelas fábricas de diplomas que infestam este país. No coro dos que descem a lenha, muitos empresários de comunicação gostam de dizer que é possível formar um jornalista, dentro de uma redação, em três, quatro meses.

Esses patrões devem saber do que estão falando – mesmo porque pra fazer a porcaria que  muitos deles entregam não é preciso estudar muito: basta uma pitada de puxa-saquismo do poder e um sentimento de superioridade típicos dos que se julgam acima da sociedade que deveriam representar.

O jornalismo brasileiro evoluiu. Não há mais espaço para amadorismo ou truculências (à exceção do Diogo Mainardi e o Reinaldo Azevedo, argh).

Formar opinião é hoje uma atividade profissional e a manutenção do poder demanda requintes de inteligência. Não há mais lugar para amadores.

Difícil é ver nas primeiras páginas, nas capas de revista, nos telejornais da noite, nos programas de rádio, na internet, o verdadeiro rosto da multidão. “A dor da gente não sai no jornal”, ensina o samba popular.

Inquietação, comprometimento, sensibilidade, coragem, capacidade de se indignar, isso ninguém aprende em três, quatro meses. É obra de uma vida inteira.

E os meninos estão apenas começando. Venham!

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