13 julho 2011

A revista Veja, que se comporta como o Diário Oficial do Apocalipse, deu sinais de que a velhice se impõe até mesmo para quem sempre defendeu ideias ultrapassadas. Nada como o tempo, o eterno senhor da razão.

Pois não é que a revista semanal resolveu praticar revisionismo histórico inconsciente? Devem estar ficando caducos, lá na redação. Ou é remorso mesmo.

Em uma daquelas reportagens mixurucas que não passam de editorias camuflados, algum editor com Alzheimer resolveu dar lições de ética e bons costumes, como sempre fazem, até quando o assunto é cinema ou culinária.

Com a modesta pretensão de acabar com o fisiologismo no Brasil, traçam um breve panorama da história recente do país, sem perceber que remoem culpas e empilham atos falhos.

Logo a Veja, que apoiou incondicionalmente o regime militar (e dele se beneficiou, após a saída do jornalista Mino Carta, verdade seja dita), resolve, num ato intempestivo, registrar para os anais que “na ditadura, nomeações de prefeitos e governadores era uma maneira de saciar os caciques políticos locais”.

Rufem os tambores! A Veja enfim descobriu que passamos por uma ditadura. Eureka! E que ela foi corrupta e clientelista! Uia. Agora vai!

Em seguida, o evangelho da Veja nos ensina: “Sarney distribuiu cargos nas antigas estatais e nos ministérios”. Agora, prepare-se, é chocante: “Antonio Carlos Magalhães, chefe do PFL baiano, tornou-se o babalorixá do Ministério das Comunicações e serviu concessões de rádio e TV à vontade a parlamentares que votavam com o governo”.

Estou perplexo. A Veja, que fez parte da tropa de choque do governo Sarney? A Veja, que apoiava todas as malvadezas de ACM, a quem acompanhou como cão de guarda? A Veja? Só pode ser descuido, senilidade. Alguém tem de ser demitido. Ou aposentado.

A matéria, em seguida, fica cozinhando o galo de sempre. “Fernando Collor, mais por autossuficiência do que por convicção, não cedeu tanto ao fisiologismo”. “Itamar retomou o costume aos poucos”. “Fernando Henrique Cardoso deu espaços preciosos do governo... mas não negociou no varejo.” Tirando Itamar, tratado a pontapés, Collor e FHC nunca tiveram do que reclamar da imprensa que, veja só!, sempre os apoiou.

Para Lula, não há esclerose que atenue o ódio: “não hesitou em retalhar o governo”. Aí sim reconheço a maior revista de informação do país. Deve ser difícil continuar existindo sem ninguém para prestar atenção nas bobagens que dizem. A idade pesa.

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6 janeiro 2011

Luis Inácio Lula da Silva já entrou para a história como o presidente da República mais admirado deste país. Pelo visto, vai ter que se esforçar um pouco para ser um ex-presidente respeitado.

A dimensão de um homem público se mede pelos exemplos que ele deixa de herança. Como mandatário da nação, Lula deu algumas lições de bom tamanho. A principal, que o Brasil é viável, e o brasileiro, um cidadão do mundo.

A auto-estima vai bem, obrigado. Mas o espírito crítico começa a se inquietar quando vemos o também ex-metalúrgico aceitar benefícios do Estado para ele e sua família. Benefícios, diga-se, aparentemente legais. E que nada têm de exemplar.

Passar alguns dias numa reserva militar ou conceder passaportes especiais para seus filhos são privilégios tão pequenos que podiam ser dispensados em nome da provável grandeza de sua biografia.

"Não se apequene", disse o falecido líder tucano Sérgio Motta ao então presidente Fernando Henrique Cardoso. Hoje sabemos todos muito bem qual foi a real envergadura do governo FHC.

No dia da posse de Dilma Rousseff vimos com que emoção (e apego?) alguém pode deixar um cargo. E assistimos, em seguida, um homem voltar com dignidade (e tristeza?) à sua vida comum. Foram cenas simples, decentes.

Lula não precisa de favores. E também não devemos nenhum a ele. O que ele merece é respeito. E, como ele mesmo já provou, isso se conquista. Não se ganha de presente.

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13 outubro 2010

Tem gente que se dá muita importância. Toda eleição aparecem aquelas listinhas de apoio assinadas por pessoas que se acham notáveis o suficiente para influenciar o voto do resto da humanidade.

Esta semana, quem recebeu o socorro desses faróis da democracia foi a Dilma. Um grupo de artistas e intelectuais liderados por Leonardo Boff e Chico Buarque bolou um manifesto que vai mudar os rumos da República. Modestamente, claro.

O Caetano Veloso é outro que adoooora fazer inimigos e influenciar pessoas. Chamou o Lula de analfabeto e conclamou todos os mal-educados a votarem na Marina. Deve ser por isso a votação expressiva da candidata verde.

Regina Duarte nem vale a lembrança. Dá medo. Mas foi comovente a forma como ela entrou para o anedotário das campanhas eleitorais. Devia saber que aquele seria seu último grande papel. Ou papelão.

O voto é secreto, mas a patota dá muito valor aos holofotes. Vivem disso. E sempre há os intelectuais com inveja de nunca aparecer em Caras. Contentam-se com notinhas de jornal.

No fundo, eles têm muito desprezo pela inteligência das pessoas normais. Acham que alguém muda de opinião só porque o cantor que nem lota um teatro participou de um abaixo-assinado.

Seriam mais úteis se lembrassem do desprezo com que todos os políticos tratam a cultura no nosso país. Todos. Fazem é papel de palhaço. Bobos de uma corte cujos salões só se abrem em época de eleição.

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29 setembro 2010

Esta semana entrou para a história do jornalismo botocudo. No domingo, 26, os jornais O Estado de S. Paulo e Folha de S.Paulo, cada qual no seu quadrado, caíram do muro e tascaram porrada no Lula. Assim que é bom.

Cara a cara. Na bucha. Sem rodeios. Não gostam dele e pronto. O Estadão foi mais atrevido e manifestou apoio ao Serra. Não que não soubéssemos. Mas é melhor quando o óbvio fica evidente.

Pena que o editorial de declaração de voto do Estadão seja tão mal redigido. A ocasião merecia mais solenidade. Não deviam deixar o dono escrever nessas horas. Pagam redator pra quê?

O editorial da Folha, na primeira página, todo pimpão, é mais limpinho, mas nem por isso deixa de ser meio doidão, esquizofrênico. Fica enrolando meia hora naquela conversinha de ser apartidário, independente e ruralista. Algo assim.

Só diz a que veio no último parágrafo. A chefia mandou pegar pesado. Sem nenhum constrangimento, dão um pito no atual presidente. E na futura. Ato falho: acreditam que tudo se resolve no primeiro turno.

Com um tom bem mal-educado, descascam essa: "Fiquem ambos advertidos, porém, de que tais bravatas somente redobram a confiança na utilidade pública do jornalismo livre".

Depois, dão chilique de novo: "Fiquem advertidos de que tentativas de controle da imprensa serão repudiadas". Ui.

Se falam com o dirigente máximo da nação assim, imaginem como tratam os funcionários. E ainda vêm com esse papinho de bravatas. Olha quem diz. Fanfarrões.

Teve gente que ouviu na sala mais imponente da Folha que o jornal dará a manchete que seria o tiro de misericórdia na campanha da Dilma. A bala de prata. Seria bem divertido ver isso.

Nada como a liberdade de imprensa. Só em um país democrático, no pleno estado de direito, jornais podem enfiar o dedo na cara do presidente da República. "Numa nice", como diria o Serra. Como tem que ser.

Declarar voto a favor e voto contra é positivo e transparente. Agora só faltam O Globo, a Globo e a Veja. Cada qual no seu quadrado, bem apertadinho.

Fiquem os leitores advertidos: imprensa livre é bom e eu gosto! Pena que estejam todos de um lado só. Para que ser livre, então?

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21 setembro 2010

É evidente que o caos no metrô paulista foi sabotagem da turma do PT. Como bem observou a ex-vereadora Soninha, isso faz parte de um plano para garantir o segundo turno em São Paulo. E eleger a Dilma, claro.

Um usuário do Twitter reforçou a tese: há anos, o partido manda milhares de militantes lotarem o metrô da zona leste todos os dias para desestabilizar o transporte público paulista.

A Folha de S.Paulo vem cobrindo muito bem esse tipo de assunto. O Globo também dá sua contribuição diária. Até dia 3 de outubro, haja criatividade. Azar deles, são pagos pra isso.

O jornalismo investigativo contra a candidata do Lula vem recebendo ampla aceitação popular. Até se formou uma brigada de voluntários para garimpar manchetes conspiratórias.

Graças a esses repórteres brincalhões, ficamos sabendo que Dilma causou a Guerra do Iraque e a convulsão de Ronaldo na Copa de 1998. E, sim, foi ela quem matou Salomão Ayala e Odete Roitman.

Felizmente, ainda temos gente engraçada neste país. Porque, para enfrentar a troca de acusações em período eleitoral, é preciso ser profissional do bom humor.

Depois reclamam do Tiririca. Preconceito das elites. Ele vai receber uma votação expressiva por simbolizar a profissionalização do Legislativo. "Chega de amadorismo" será o recado das urnas.

O povo quer se sentir representado em Brasília. Na hora do escracho, não podemos depender exclusivamente da imprensa nativa. Já basta a vida difícil que a gente leva. Temos o direito de criar nossas próprias piadas.

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15 junho 2010

O Lula deveria mandar seu apoio à Coreia do Norte. A seleção do Dunga ganhou o jogo desta terça-feira por um placar tão apertadinho quanto os olhos dos valentes coreanos. Não custaria nada ser solidário agora.

O Irã não é melhor que a ditadura comunista de Pyongyang. E o que é afundar uma corveta perto de naufragar uma nação inteira no fundamentalismo? Questão de coerência, portanto.

Não tenho nada a favor do regime norte-coreano. Não tenho nada contra também, por absoluta ignorância. Na verdade, ninguém sabe nada sobre aquele país esquecido de Deus e isolado por natureza.

Mas que beleza seria o nosso presidente se apresentar como mediador da Guerra Fria que se instalou entre as Coreias do Norte e do Sul desde 1953. A ONU tem fracassado solenemente na tarefa de promover a paz naquela península.coreia provocador Lula deveria apoiar a Coreia do Norte Surpreendente seria se a ONU conseguisse, mas isso é outra história. A tendência do órgão é sempre se alinhar aos EUA. Que excelente oportunidade para o Lula, não é?

Imagine a cara do Obama tendo que engolir mais um acordo pacifista que não serve pra nada? O Lula poderia chamar a África do Sul para ser parceiro no lugar da Turquia. Imagine o som das vuvuzelas durante a assinatura do tratado de paz?

O jogo de hoje passaria a ter um simbolismo histórico. Após uma partida tão medíocre, os dois países poderiam fazer algo que tivesse algum nível de dignidade.

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19 maio 2010

Os velhos olhos azuis estão de volta. Com sua arrogância histórica, os EUA refrescam nossa memória e nos lembram por que os ianques enfileiram tantos inimigos. Império do Mal não é um apelido que se ganhe impunemente. É preciso fazer por merecer.

Movidos pelos mais mesquinhos interesses, os americanos reuniram a patotinha para colocar lenha na fogueira do fundamentalismo. Eles não admitem perder a liderança mundial, nem que isso lhes custe mais um confronto nefasto entre as forças das trevas.

Não há mocinhos nessa história. Os iranianos são barra pesada. Um bom motivo para não atiçar a fogueira deles. Mas não. O governo de Barack Obama é mais do mesmo. Beligerante, imperialista e presunçoso.

Aceitar a proposta turco-brasileira seria a confissão de que é possível uma saída pacífica e negociada. Mas os donos do universo não admitem intermediários. Só negociam se o interlocutor estiver ajoelhado. Acordo, para eles, é rendição.

Aqui no Brasil, a euforia de alguns políticos para desqualificar o esforço diplomático soa como um ranger de dentes. Estão trincando de inveja. Vão acabar mordendo a língua de tanta raiva.

Como nunca antes na história deste país, temos um presidente que de fato participa do cenário internacional. Como protagonista. Contra todas as expectativas, não fez papel ridículo. Nem ele acreditou.

O Lula Alá também conseguiu a proeza de colocar do mesmo lado Hillary Clinton e Arthur Virgílio. Que capacidade de aglutinação fantástica. Um estadista. Quem sabe agora o Obama não se filia ao PSDB?

Não sou vidente para saber quem no mundo vai produzir bomba atômica. O Irã, com sua ira, irá? As grandes potências já têm seu paiol de mísseis e tacapes. Bom motivo para conversar, não é?

Os EUA não admitem que um país emergente assuma alguma importância. Mas nenhuma noite é eterna. Uma hora o sol sempre surge. Assim será o dia de amanhã.

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10 dezembro 2009

O governo encaminha ao Congresso nesta quinta, 10, projeto de lei que transforma a corrupção de políticos em crime hediondo e inafiançável. Tipo sequestro, estupro e homicídio qualificado.

Essa é daquelas demagogias com prazo de validade. Estão jogando pra galera. Depois de passar pela Câmara e pelo Senado, é capaz de essa lei virar algum tipo de gratificação ou abono salarial.

A corrupção no Brasil é patrimônio histórico. Uma hora ainda vai ser tombada. Veio com as caravelas. É algo tão arraigado no imaginário popular que poderia entrar na letra do hino nacional. Ou no lábaro estrelado: Ordem, Progresso e Corrupção.

Eu não defendo corruptos. Ninguém defende corruptos. Em uma situação pública. Na privada, todo mundo faz a mesma coisa.

Uma pesquisa do DataFolha realizada em agosto deste ano é implacável: 83% dos brasileiros admitem já ter cometido pelo menos uma prática ilegítima ou corrupta. Cacetada.

Então, a indignação com a ladroeira só pode ser inveja. É a velha história: pergunte para quem esbraveja a própria moralidade se ele já teve a oportunidade de ser corrupto.

É isso que define se alguém é honesto ou não. Machado de Assis foi na mosca: “A oportunidade faz o furto. O ladrão já nasce feito”.

É fiel à sua esposa? Tá. Mas algum dia a Juliana Paes deu mole pra você? É fácil dizer que nunca roubou, jamais aceitou propina, de forma alguma seria comprado. Claro, se não é parlamentar, fiscal da prefeitura, juiz de futebol, policial ou bandido.

Quem mandou estudar e ter um emprego decente? Gente assim não interessa aos corruptores.

O Henfil, orgulho nacional, mandou ver lá pela década de 80:

Henfil Juliana Paes? Não, obrigado

O Tancredo Neves contava uma história edificante. Ele nomeou como secretário da Justiça um juiz de sua cidade natal, São João Del Rei. O nobre magistrado era incorruptível, não aceitava nem bom dia.

Uns seis meses depois da posse, mandou um bilhete: “Sr. Governador, por favor, me demita. Estão chegando ao meu preço”. Esse, sim, é o cara. O resto que vá pra cadeia.

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