27 janeiro 2012

8 Cinelândia, Candelária, Brasil

 

Brasileiro gosta de tragédia. E a da Cinelândia está aí para mostrar essa nossa vocação mórbida e insaciável. Só falta botar a culpa no governo, para que se complete a receita infalível da falsa comoção nacional.

Não faltou nem a megalomania às avessas, outro aspecto marcante do caráter tupinambá. “Parecia o Word Trade Center” e “imagina se fosse durante o horário comercial, quanta gente não morreria” foram as exclamações mais ouvidas nas arquibancadas montadas em cada esquina, mesa de boteco e sala de jantar.

Estou convicto de que muita gente acha que o estrago foi pouco. Sério mesmo. Ninguém vai confessar uma tara dessas em público. Mas garanto que quase ouço um murmúrio de decepção.

É um roteiro conhecido e que se repete exaustivamente. Seja no desmoronamento de um morro, na enchente devastadora, na seca no Nordeste.

Nunca está bom? Pois logo a seguir, nos invadirá uma sensação de vazio, ou melhor, de esquecimento e frieza quando nos chegam à lembrança fugaz essas hecatombes que voltarão a nos visitar.

Poxa vida, resmungaria algum mais exaltado, bem que poderia haver um tsunami no Brasil. Daqueles bem japoneses, sabe? Mas, também, caramba, não há terremotos nessa terra abençoada por Deus e bonita por natureza.

Minha tese é a de estarmos tão acostumados às tantas tragédias do nosso cotidiano (elas se repetem e se perpetuam), que sempre ficamos à espera de algo ainda pior, doentio, atroz. Desde que aconteça com outros, evidentemente.

Daqui a uma semana, um mês, tudo se encaixa na revoltante normalidade. Afinal, nenhuma providência será tomada, nada será feito para acabar com esse ciclo vicioso e masoquista.

Ou seja, aprendemos a conviver com aquela morte lenta e dolorosa, mesquinha até, que nada tem de dramática. Embora devesse nos encher de indignação e nos colocar num luto perpétuo pelo que esse país deixa de ser a cada dia.

Que cada um dos mortos da Cinelândia jamais caia no esquecimento leviano. Que o futuro não reserve a eles, em nossa memória, a mesma vala comum que tiveram, por exemplo, os seis meninos de rua e os dois sem-tetos chacinados na Candelária.

Ou os cidadãos soterrados numa cratera de metrô. As famílias de Angra dos Reis, Jardim Pantanal, Nova Friburgo. Os milhares de vítimas anônimas da violência policial. As centenas que estavam na queda dos voos da TAM e da Gol. Os incontáveis que morrem sem atendimento na calçada de hospitais. São tantos. Nunca está bom?

Já são muitos os nossos mortos. Todos merecem o mais sincero respeito. Mas nossa maior homenagem seria, em seguida, praticarmos a mais vigilante indignação. Todo dia. Até que a morte de uma só pessoa inocente fosse o bastante para virar uma tragédia.

A morte de cada homem nos diminui. Assim falou o poeta. Esse é o murmúrio que eu gostaria de ouvir.

Veja mais:
+ R7 BANDA LARGA: provedor grátis!

+ Curta o R7 no Facebook

+ Siga o R7 no Twitter

+ Veja os destaques do dia

+ Todos os blogs do R7

 

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitthis
  • Digg
  • Netvibes
  • Facebook
  • Google Bookmarks

19 julho 2011

As entranhas do Rio de Janeiro estão explodindo diariamente. Bueiros voam por conta dos gases que se acumulam nos subterrâneos da cidade. Como um grande e sonoro pum da Light e do governo na cara dos cidadãos fluminenses.

Escatologia é o que se refere às nossas mais profundas manifestações humanas. Não aquelas ligadas aos sentimentos, sonhos e ambições. Mas tudo aquilo que vem de dentro de nossos corpos mortais, que diariamente se decompõem. Excrementos. Não há palavras bonitas ou agradáveis para falar sobre isso, lamento.

Portanto, perdoem-me o termo escatológico. Mas é um fato: a administração pública está soltando flatulências, ventando e andando para a população, que vive em pânico diante da iminência de ser lançado aos ares junto com labaredas e pedaços de calçada.

Pessoas ficam seriamente machucadas. Morrem. Tudo porque nossos governantes não conseguem cuidar de seus compromissos mais básicos. Em plena rua, fazem suas necessidades primitivas: em vez de zelar pela vida de quem paga impostos, desviam dinheiro, se omitem e mandam às favas suas obrigações mínimas.

É uma imundície o que fazem essas pessoas poderosas. São uns porcos. É uma nojeira fétida o descaso e a incompetência desses senhores. As desculpas que proferem são com um arroto na opinião pública. Usam nossos ouvidos como pinicos.

Quantas vidas serão desperdiçadas até que se recupere o direito de simplesmente andar pelas ruas — sem o risco de ser estilhaçado pelas indecências que se acumulam no estômago podre do poder?

O Rio de Janeiro solta puns mortais. Dá vergonha de dizer isso, mas é o que sobra diante de tanta escatologia. Que nojo.

Veja mais:
+ Curta o R7 no Facebook
+ Siga o R7 no Twitter
+ Veja os destaques do dia
+ Todos os blogs do R7

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitthis
  • Digg
  • Netvibes
  • Facebook
  • Google Bookmarks

7 abril 2011

Cerca de 65% da população brasileira participou do massacre do Realengo. São os mesmos honrados cidadãos que votaram contra a proibição do comércio de armas de fogo no país, no referendo de 2005.

Com certeza, estão todos indignados e perplexos. Horrorizados. Como pode acontecer uma tragédia dessas? Logo aqui? Uma terra de gente tão cordial e pacífica.

Um dos motivos é simples, lamento lembrá-los, senhores de bem: o psicopata que matou as crianças da escola Tasso de Oliveira estava com uma pistola na mão. E tinha muita munição.

A resposta já está na ponta da língua, não é mesmo, paladinos da liberdade? O armamento foi comprado no mercado negro, o maníaco não tinha porte. Esse crime hediondo ocorreria de qualquer forma, não é?

Pois continuem nessa ingrata missão de aplacar vossas consciências. Boa sorte nessa luta inglória. Podem limpar as mãos sujas de sangue com suas lágrimas comoventes.

Untitled2 Alguém colocou a arma na mão do psicopata do Realengo

Podem comemorar a entrada do Brasil no Primeiro Mundo. Aquele em que há assassinatos em massa, principalmente nos corredores de escolas. Fomos batizados com uma extrema-unção.

Já não somos mais abençoados. Mas nos tornamos, enfim, uma nação adulta.

Deveriam ser coerentes, os que acham justo uma pessoa carregar armas na cintura. Que tal reivindicar que supermercados e farmácias comercializem revólveres e balas de grosso calibre?

É agora que vamos precisar nos defender! Outros assassinos virão, a guerra está apenas começando. Nossos filhos têm que estar preparados. Está cheio de maluco violento por aí.

Veja mais:
+ Siga o R7 no Twitter
+ Veja os destaques do dia
+ Todos os blogs do R7

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitthis
  • Digg
  • Netvibes
  • Facebook
  • Google Bookmarks

16 dezembro 2010

Sou obrigado a concordar com o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes. Ele é um incompetente, um porcaria (leia mais aqui).

Quem sou eu pra discordar? E tão raro ver um homem público abrir seu coração, que não podemos perder a oportunidade.

O Kassab poderia aproveitar o gancho e também se imolar em praça pública. Não vai resolver o problema das enchentes, mas já seria algum conforto espiritual para os cidadãos paulistanos.

Porque qualquer político que assuma o comando dessas cidades (e tantas outras) sabe que há décadas as chuvas têm hora e local marcados para causar tragédias  e destruir vidas. Eles foram eleitos sabendo disso.

Só que a desculpa vem junto com o cargo.  Na maior cara dura, todos jogam a responsabilidade em gestões passadas. Quando forem embora, o sucessor repete o discurso, e assim segue a caravana dos alagados.

Quando a força da natureza nos coloca em nossos devidos lugares de pobres mortais, não há nada a fazer mesmo. Grandes capitais do mundo civilizado sofrem com chuvas torrenciais.

Mas nada justifica o adiamento eterno de medidas que todos eles entoam aos brados quando são candidatos. Na hora de enfiar o dedo no nariz de seus antecessores, as soluções existem.

Basta sentar no trono de prefeito, num passe de magia negra, não há nada que possam fazer para evitar mortes e destruições anunciadas. É um dilúvio de desculpas e justificativas técnicas.

Por isso, palmas para o prefeito que ele merece! Não vai resolver nada. Mas pelo menos economizamos insultos e desaforos. Incompetentes! Porcarias!

Veja mais:
+ Veja os destaques do dia
+ Siga o R7 no Twitter
+ Veja os destaques do dia
+ Todos os blogs do R7

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitthis
  • Digg
  • Netvibes
  • Facebook
  • Google Bookmarks

30 novembro 2010

Estava demorando. Mesmo com apoio irrestrito da comunidade, as ervas daninhas da PM do Rio agiram como bandidos, na tomada do Morro do Alemão.

Eles são minoria, mas conseguem contaminar a imagem da corporação. Tratam trabalhadores como marginais. Roubam, agridem, humilham. Se a mídia não estivesse marcando em cima, com certeza matariam inocentes.

Esses criminosos fardados acham que um pobre honesto não consegue comprar uma TV de plasma. Isso é privilégio de traficante, na cabeça preconceituosa desses soldados do mal. Quebraram várias, com tiros de fuzil.

Um casal deixou um bilhete com a vizinha, dando boas vindas aos policiais e autorizando a entrada deles para varredura no local. Quando voltaram, encontraram a TV destruída e a casa revirada.

Mais grave o caso de Ronai de Almeida Lima Braga Júnior. Os milicos roubaram dele R$ 31 mil, fruto de indenização trabalhista por oito anos de trabalho. Ele mostrou para repórteres os documentos da rescisão... E seus móveis destruídos pelo tsunami policial.

Várias denúncias de maus-tratos chegaram ao comando da Secretaria de Segurança Pública. Se forem minimamente inteligentes, vão apurar e punir com rigor essas condutas odiosas.

Quem mora em favela tem medo da polícia, todos sabemos. Mas a população, sabiamente, fez um armistício absoluto com a PM. Recebeu os soldados como se fossem heróis. É um momento único, que não pode ser desperdiçado.

Quando as câmeras de TV não estiverem mais no Morro do Alemão, esse lado sombrio das milícias pode voltar com a força que já conhecemos. A PM precisa proteger a população dos bandidos. E também, da própria PM.

Veja mais:

+ Siga o R7 no Twitter

+ Veja os destaques do dia
+ Todos os blogs do R7

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitthis
  • Digg
  • Netvibes
  • Facebook
  • Google Bookmarks

29 novembro 2010

invasao rio  Quantos “Alemães” existem no Brasil?
Policiais do Bope na Favela da Grota, no Complexo do Alemão - Foto: Wesley Santos/AE

 
Durante a última semana assisti a Tropa de Elite 3D. Exército, Marinha, Bope, Swat, Marines, CIA e KGB unidos contra o tráfico.

Exageros à parte, funcionou. Se os chefões continuam soltos, ao menos perderam território e com menos espaço não há união entre facções que resista.

Mas após o espetáculo cinematográfico, o que fica? De cara, uma pergunta: e os outros morros, as outras favelas? Quando o Estado vai subir em todos os complexos, colocar traficantes pra correr e restaurar a ordem?

Não falo apenas do Rio – escolha óbvia, mas das milhares de comunidades espalhadas por entre esgotos Brasil adentro.

O fato é que o Rio comprovou na prática o que qualquer cidadão honesto sempre pensou: só não derrota o crime organizado o governo que se omite e não cumpre sua função de garantir a lei.

Fácil, claro que não é. Mas impossível, também não. Demorou pra começar, isso sim. E vai demorar ainda mais para terminar. Portanto, não há mais tempo a perder.

Temos um país atolado de territórios ocupados por bandidos. Lugares que precisam ser invadidos pela polícia, pelo Exército, pelo poder público.

Ao fazerem seu trabalho, pela primeira vez, nossos governantes caíram numa cilada. Não há mais desculpas para aceitarmos viver como reféns de marginais.

A normalidade deve ser a regra. Nas ruas, quem deve mandar são as pessoas de bem.

Bandido é bandido. Não pode ser mais forte que a lei. Não pode valer mais que um trabalhador. Bandido cumpre a lei, não a faz.

É um belo alerta aos governadores eleitos e reeleitos. Se precisar, vamos invadir os palácios, ocupar as secretarias, sobrevoar as delegacias, obrigar os corruptos a fugir pelos esgotos.

Guerra é guerra.

Veja mais:

+ Siga o R7 no Twitter

+ Veja os destaques do dia
+ Todos os blogs do R7


Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitthis
  • Digg
  • Netvibes
  • Facebook
  • Google Bookmarks
Ir para a home do site
Todos os direitos reservados - 2009-2011 Rádio e Televisão Record S/A