E São Pedro não tem nada com isso!

Torneira E São Pedro não tem nada com isso!

Desde que a crise de água se agravou em São Paulo, principalmente na Capital, estórias e teorias da conspiração tem surgido a respeito dos culpados por essa escassez. O primeiro, apontado como o principal responsável por essa situação, é o Governo. Claro, faltou planejamento, agiu com negligência por muitos e muitos anos, deixando de preparar as cidades para uma emergência como a que estamos vivendo agora e, principalmente, negou por quase um ano que estivéssemos em situação delicada em relação ao abastecimento de água, adiando assim as medidas necessárias e emergenciais.

Aí culparam São Pedro (coitado) por não ter mandado chuvas suficientes no ano passado. Também tenho lido absurdos ignorantes de que não está faltando água apenas por causa da seca e sim porque "estão desviando o líquido para a agricultura, para industrias importantes e outros setores protegidos pelo governo, blá, blá blá...". E até vídeos tem surgido mostrando represas cheias para afirmar de a falta d'água é mentira das autoridades. Bom, não preciso postar aqui imagens aterrorizantes do cenário na Cantareira, Atibainha, Alto Cotia e outros sistemas. Eu pessoalmente estive em boa parte desses locais e pude ver de perto a situação.

Na minha opinião, deixando São Pedro de lado, todos tem sua responsabilidade. E se existe alguém, também, a quem devemos culpar, grandemente, pelo que está acontecendo, somos nós mesmos, os consumidores. O governo tem sua parcela de culpa pela falta de projetos que pudessem remediar essa escassez ao longo do tempo e não deixar pra correr atrás agora, quando as represas estão secando. Mas quem gastou água, exageradamente, sem limites ou consciência, fomos nós os consumidores. Exageros que foram para o ralo sem sequer produzirmos absolutamente nada em troca! Foi desperdício puro! E quando digo isso, não falo apenas pelo que usamos no banho, para escovar os dentes, lavar louça e roupa ou para beber. Isso seria o básico necessário! Mas me refiro aos exageros de deixar torneiras abertas durante esses processos. Além disso, sempre lavamos carros na frente de casa, "varremos" a sujeira com o jato forte da mangueira por pura preguiça de usar a vassoura, passamos horas debaixo do chuveiro no inverno para esquentar um pouco mais o corpo, ou no verão para refrescá-lo. Cansamos de mal-fechar as torneiras, permitindo que aqueles pingos "insignificantes" se tornassem um turbilhão de consumo ao final de um ano e usamos máquinas de lavar-roupa e louça, desenfreadamente, para nos livrarmos da árdua tarefa de fazer isso com as mãos, como se fez durante seculos e séculos até que elas surgissem. E gastamos milhões e milhões de litros para manter piscinas com água sempre cristalina e livre de micro-organismos. E não se culpe menos se você não tem piscina em casa mas usa a do clube.

E é preciso analisar, também, não só o consumo humano como os que citei, mas o que se gasta de água também para saciar nossa sede de consumo comercial. Me refiro a água que é utilizada nas indústrias e na agricultura, em centenas de processos, para produzir bens e alimentos que consumimos com uma voracidade inacreditável. Veja exemplo abaixo:

Consumo Àgua2 E São Pedro não tem nada com isso!

(Fonte: UNESCO/ONU)

É ou não um consumo absurdo? Mas e ai? O que fazer? Proibir o uso da água na produção industrial para que, ao contrário da água, nos falte alimentos, nos falte o que vestir, nos falte combustíveis ou aço para nossas construções e transportes? Alguns radicais irão dizer "Que parem tudo, precisamos matar a sede!". Mas será que é assim que vamos resolver o problema? Não me parece o mais sensato.

O setor industrial, assim como a agricultura, os maiores consumidores de água do planeta (cerca de 70%), podem sim assumir a sua parcela de culpa e, como nós, adotar medidas de contenção de consumo. E isso já está acontecendo. Mas, em grande escala, isso poderia ter um efeito ainda danoso à nossa produção em geral. Até podemos ficar sem comprar roupas e acessórios de couro ou calças jeans. Mas quando se trata de alimentos, a sua escassez pode ser tão dolorosa quanto a da água. E outra: quem garante que estes setores vão diminuir seu consumo? Quem garante que o governo vai impor a eles qualquer sanção pelo consumo exagerado como tem feito a nós? Seria assinar uma sentença de morte dos setores produtivos em geral.

Então, amigos, cabe a nós mesmos arcar com a responsabilidade de cuidar da água que nos resta para que ela dure por muito mais tempo. É difícil ouvir isso, mas é a realidade que já estamos enfrentando.

E nosso papel não é tão complicado assim. Outro dia peguei uma conta de água de fevereiro de 2014 e comparei meu consumo com o atual, depois das medidas que adotei em casa (veja artigo a respeito aqui). Fiquei pasmo com a minha economia. Na época, eu e minha família chegávamos a consumir cerca de 48 metros cúbicos de água por mês. Hoje o meu consumo é de 14 m³. Ou seja, menos de 30% do que eu gastava antes. E minha vida não mudou absolutamente nada com essa redução. Só assim percebi que eu, assim como a maioria dos brasileiros, teríamos condições de fazer isso há muito mais tempo, de adotar medidas para reduzir o consumo  e não agir mais como se a água fosse uma fonte inesgotável. Precisamos desse chacoalhão para nos tornarmos mais conscientes. A iminência de um racionamento radical que está ai batendo às nossas portas é que nos acordou para essa nova realidade. E não vai doer nada fazer a nossa parte.

Agora, também precisamos cobrar quando virmos algo errado: chamar a atenção do seu vizinho pelo uso da mangueira, não deve ser um constrangimento. Assim como alertar à empresa de abastecimento e saneamento quando virmos algum vazamento pelas ruas. E o principal: mesmo que os níveis das represas voltem ao normal (o que está sendo tratado como praticamente impossível), devemos manter essa postura. Relaxar no consumo de água, mesmo que ela esteja sobrando novamente, vai apenas ratificar nossa ignorância à respeito dos problemas que nosso planeta enfrenta!

Então pare de reclamar e ficar apontando culpados, não dê bolas para as conspirações que surgem a todo momento na internet e faça algo de útil para contribuir de verdade!

 

Pra fazer o bem, não precisa esperar

Bondade 250x300 Pra fazer o bem, não precisa esperarMais um ano termina, outro começa e continuo ouvindo as mesmas ladainhas. São promessas de todo o tipo: vou emagrecer, parar de fumar, voltar pra academia, ser mais solidário, ser menos egoísta, trabalhar menos, trabalhar mais, me dedicar mais a isso ou aquilo, blá, blá blá. Jamais questiono o que as pessoas desejam para si próprias mas me indigna sempre que elas esperem uma "mudança de era" pra fazer isso. Parece que basta o badalar da meia noite no dia 31 de dezembro para que suas vidas se transformem. Existe sempre a falsa impressão de que "tudo vai mudar", "um novo tempo chegou". Tudo muito bonito mas para mim não passa de mística barata.

Vejam só: na época do Natal parece que todo mundo se reveste do mais alto altruísmo e sai por ai distribuindo cestas com produtos natalinos a quem encontrar na rua em situação de necessidade. E se sente bem com isso. Ótimo! Os mais necessitados realmente precisam dessa ajuda e esse tipo de ação, de uma certa forma, alivia a alma de quem a pratica. Mas porque fazer isso apenas agora? O problema é que muita gente acredita que basta uma simples atitude solidária para compensar um ano inteiro de boa vida. É a forma de "gratidão passageira" que adota-se quando a época exige mais compaixão, mais amor ao próximo. E não deveria ser assim!

Sempre vejo a passagem de ano como um dia qualquer. Tanto que não busco participar de grandes comemorações, festas de arromba ou eventos inesquecíveis. Para mim é um dia comum, como dormir hoje, dia 05 de janeiro e acordar amanhã, dia 6. Nada muda, a vida segue seu ritmo e não preciso elaborar listas do que fazer a partir de agora. Por isso atitudes de solidariedade, de altruísmo, de amor ao próximo ou a si mesmo não devem exigir uma época específica para serem colocadas em prática. Porque não fazer as mudanças desejadas no dia 20 de janeiro, 05 de fevereiro, 12 de julho ou 03 de setembro? Esses dias são tão comuns como qualquer outro - não são feriados ou dias santificados. Será que esperar uma data apropriada para essa prática as torna mais verdadeiras em termos de sentimento? É óbvio que não!

O que preenche o ser humano é a cordialidade do dia-a-dia, não a sazonal, sermos gentis e gratos todos os dias e não apenas em uma data certa, não esperar a Páscoa para refletir sobre nossa religiosidade ou o dia 07 de setembro para exercer civilidade e cidadania. Não há a necessidade de esperar pelo Dia da Árvore (21 de setembro) para plantar uma semente ou o Dia da Criança para presentear um órfão. Dispensável também é celebrar o amor apenas no Dia dos Namorados, ou abraçar nossos pais e mães na data reservada para eles. Muita gente não percebe mas muitas dessas datas foram criadas apenas para fazer o comércio vender mais presentes, panetones, flores, ovos de chocolate, jóias e, principalmente, ilusões! O real sentimento que elas traduzem, na verdade, se perde em meio a euforia capitalista que as cerca.

Por isso tudo que disse acima, acredito que o exercício de humanidade deva ser diário, permanente e atemporal. Essa sim é a melhor forma de agradecimento por tudo aquilo que recebemos durante o ano todo. De outra forma - da mais usual,  como vemos hoje - a satisfação é efêmera, dura muito pouco e aí acabamos na círculo vicioso da vida que é fazer o bem toda vez que as coisas vão mal. E só nesses momentos!

Os atos de bondade não devem ser como as idas ao médico em que só o fazemos quando é extremamente necessário. Devem ser perenes. Não devemos esperar uma simples virada de data ou o suposto recomeço de um novo tempo para fazermos aquilo que deveríamos ter feito todos os dias da nossa existência. É desnecessário esperar uma medida cronológica para tomar decisões e fazermos aquilo que deve ser feito e, muito menos, esperar sentado que essas supostas transformações aconteçam. As mudanças só ocorrem em nossas vidas quando as buscamos, elas não partem de nenhum lugar que não seja de dentro de nós mesmos.

Assim, quero aproveitar essa reflexão para desejar a todos uma "Feliz Vida Longa!", porque desejar "Feliz Ano Novo" ou "Feliz 2015" é querer que um ano apenas seja bom pra vocês! E eu desejo mais que isso. Desejo que vocês meçam o passar do tempo em sorrisos registrados, em abraços conseguidos, em olhares apaixonados... Que o relógio de cada um não marque horas, minutos e segundos, mas sim batimentos cardíacos que significam vida quando normais e felicidade quando acelerados. Que o calendário passe a contar os dias através do número de vezes que ouvimos um "eu te amo" e quando o despertador tocar, uma voz suave nos diga "parabéns, você tem mais um dia feliz pela frente!".

Doe aquilo que acredita que não pode e receberá o que nem imagina que mereça!

Como chegar bem aos 50!

Ogg1 225x300 Como chegar bem aos 50!

Óculos: amigo inseparável aos 50.

Acabo de completar 50 anos de idade. Pensei que fosse demorar pra chegar, mas chegou. Também, quando pensava nisso estava lá com os meus 18 anos. E mesmo assim, não demorou muito. Não demorou porque vivi intensamente a partir do momento em que ganhei asas. E isso foi aos 19 anos, depois de perder minha mãe, que se foi três anos depois do meu pai (quando eu tinha 16). É... fiquei órfão de pai e mãe muito cedo. E com dois irmãos menores. Vivendo uma fase difícil depois da falência do meu pai, eu tinha tudo pra ser errado na vida. Sem pais, sem dinheiro e convivendo diariamente com colegas de trabalho que não eram exemplo de boa conduta.

Naquela época eu trabalhava no IPESP (Instituto de Previdência do Estado de São Paulo) junto com estagiários de um programa que empregava ex-internos da FEBEM (hoje Fundação Casa que abriga menores infratores). Digamos que a índole daquela moçada não era nada tranquila e as tentativas de me arrastar para umas "paradas cabulosas" foram incansáveis. Mas resisti. Eu era um (desculpem) "cagão". Tinha medo até de guarda de trânsito. E graças a esse meu medo acabei seguindo meus instintos para o lado do bem. Os valores que aprendi dos meus pais falaram mais alto e isso me ajudou a me tornar o que sou hoje.

Mas eu sempre tive pavor de chegar aos 50, até chegar aos 40. Para mim foi a melhor virada. Quando entrei nos "enta" apertei o botão do "fo...-se". Me senti maduro o suficiente para ser mais autêntico, mais sincero, mais transparente, falava o que dava na telha, perdi o pudor com alguns assuntos, me livrei daquela coisa de me preocupar com o que os outros pensam de mim. E para minha surpresa, ao contrário do que imaginava, ganhei mais amigos sinceros, conquistei uma posição mais sólida na minha carreira de jornalista e passei a dar mais importância às relações matrimoniais e à constituição da família. Isso porque nessa fase eu acabara de encerrar meu segundo casamento por, até então, não acreditar na fidelidade.

E depois de tudo isso, começar a caminhar para os 50 só me trouxe uma expectativa: chegar com muita saúde a essa, praticamente, metade da vida. Aí comecei a trabalhar nisso: me dediquei mais às atividades físicas, as baladas que antes tomavam a madrugada ficaram em terceiro plano, o sono passou a ser uma das coisas mais importantes e a dedicação ao trabalho, apesar de sempre intensa, tinha sua compensação em bons momentos de lazer e desestresse. Acho que deu resultado: cheguei aqui com fôlego de garoto (tá, um garoto de uns 35 anos) e o espírito de quem sempre sorri para a vida.

Acabei descobrindo que ter 50 anos é uma das melhores coisas do mundo. Apesar de alguns jovens de vinte e poucos anos te chamarem de tio ou dizer "pô, meu pai é mais novo que você", ou vê-los sempre te chamando de "senhor", a gente se sente mais respeitado. Não pelos cabelo brancos, pois eles me acompanham desde os 20 e poucos. Mas pela postura, pelas idéias, pelo jeito maduro de lidar com as coisas que a gente aprende nas porradas que leva. E levei algumas boas. Ganhei dinheiro, perdi dinheiro, casei e descasei, construí e reconstruí minha vida umas duas vezes, apanhei de maus investimentos mas descobri que nunca é tarde para recomeçar. E fiz isso quando cheguei aos 40. E do "ZERO"!

Também aprendi outra coisa: que esse negócio de não se arrepender de nada que fizemos na vida é tudo balela. Pura filosofia. A gente se arrepende sim e gostaria de não ter feito muita coisa errada. A vantagem de ter feito é que a gente aprende a não fazer de novo.

Aos 50 ainda me acho moleque. Brinco com a minha filha como se tivesse 5 anos de idade e amo minha mulher como se tivesse 17. Pedalo, quase que diariamente, como se tivesse 30. E trabalho com a sabedoria de quem, ao meio século de vida, ainda tem muito a aprender. Mais do que a ensinar. Com o passar do tempo a gente vê que idade se resume apenas à quantidade de velinhas que são colocadas em cima do bolo. Por isso nem quis bolo este ano, comemorei sem festa. E com as pessoas que mais amo neste mundo: minha mulher e minha pequena Mariah. Afinal elas serão as únicas que estarão comigo até o fim da minha empreitada terrena.

Antes, pensava que para chegar aos 50 eu tinha de ter status, patrimônio e dinheiro guardado. Hoje não tenho nada disso: ganho o necessário pra viver bem mas menos do que mereço, ainda não tenho casa própria e no trabalho acho que, as vezes, não me dão o devido valor. Mas quer saber? Sou feliz pra cacete com o que tenho e o que faço! Aprendi ao longo da vida a viver com pouco pois entendi que assim a gente não sente falta de coisas que poderia, ou gostaria de ter, mas não pode. Mas também não serei hipócrita de dizer que não penso numa "Megasena" (risos)!

Chegar aos 50 é ter a certeza de que não nos magoamos nem nos decepcionamos mais com facilidade. É saber que levamos 5 décadas para aprender algumas coisas. É descobrir que os óculos de grau são mais importantes que o celular. É vibrar com a paquera daquela "quarentona" sem ser questionado pelos amigos. É não precisar mais murchar a barriga na praia e ser chamado de tiozão sem recalques. Fazer 50 é imaginar que se tem apenas 10 anos porque "a vida começa aos 40" e nem se preocupar se a camiseta combina com a bermuda e o dockside. Estar nos 50 é chutar o balde e o pau da barraca com o cuidado de não machucar o pé e falar palavrões sem que alguém lhe chame a atenção. Estar com 50 é não ter mais 40 e ainda estar longe dos 60.

Cheguei aos 50 e não sei se vou viver mais 50. E nem quero ser um velho que, assim como um sofá, fica sendo mudado de um lado para o outro. Mas a vantagem disso é saber que o melhor da vida vivi até agora. O que vier daqui pra frente é lucro. E lucro com correção monetária!

Poupando o que temos de mais precioso

FALTA DE GUA Poupando o que temos de mais precioso

O homem consumiu em apenas 10 meses o que agora levará, no mínimo, com muito otimismo, de 3 a 4 anos para ser recuperado. Se for recuperado algum dia. Estou falando das águas do Sistema Cantareira que abastece boa parte da região metropolitana de São Paulo. A previsão é de meteorologistas, fazendo um cálculo do que choveu nos últimos dias. Nos sete primeiros dias de novembro a precipitação foi de 54,7 mm, segundo a Sabesp - mais do que choveu em todo o mês de outubro. Mas isso não fez a mínima diferença no nível do Cantareira, que continua caindo. O problema é que o solo está muito seco e rachado e a água que cai é absorvida mais rapidamente por essa imensa esponja gigante de terra. Calcula-se que, para chegar a 80% da sua capacidade, o sistema precisa receber água de chuva constante e homogênea pelos próximos 3 anos, no mínimo. Mas como a chuva nunca é homogênea e nem constante, esse prazo pode se estender ainda mais.

São necessários mais de um trilhão de litros de água para se chegar a esse nível. Isso corresponde a 406 mil piscinas olímpicas. Preocupa ou não?

De certa forma, toda essa crise hídrica que estamos vivendo veio nos mostrar a irresponsabilidade com que sempre consumimos e desperdiçamos água. E, infelizmente, a gente só aprende na porrada. Agora estamos correndo atrás do prejuízo, tentando remediar uma situação que não se sabe se poderá ser remediada. Entendam que trazer água de qualquer outro lugar, com obras custosas e demoradas, apenas vai desvestir um santo para vestir outro.

O governo errou, como sempre, em não ter um planejamento adequado que previsse essa tragédia. E nós também, admitamos, nunca colaboramos com o consumo racional lavando carros e calçadas regularmente com a água a escorrer fartamente pelas torneiras, com banhos demorados, vazamentos e desperdício desenfreado. Hoje, tendo adotado as medidas de economia que muitos estão adotando, podemos perceber o quanto jogamos fora um líquido tão precioso. E que somente agora estamos tendo consciência da sua importância.

Na minha casa adotei medidas nas quais nunca pensei: a água que sai da máquina de lavar agora é acumulada em latões que adquiri. Depois é reaproveitada na lavagem do quinta e garagem. Fiz adaptações na lage da garagem para coletar a água da chuva que, filtrada, pode ser usada até para lavar louça, na máquina de lavar e para a limpeza do carro. No banheiro, a água que escorre da ducha até a temperatura ficar ideal para o banho, é coletada em baldes e depois despejada na caixa acoplada do vaso sanitário para descarga. Além disso reduzi a pressão dos registros que distribuem água pela casa para diminuir a vazão das torneiras. Resultado: uma economia de mais de 60% no consumo. Agora me pergunto: porque nunca fizemos isso antes? Porque nunca nos preocupamos que um dia a água poderia nos faltar como agora? A resposta é simples: porque tínhamos água em abundância e sequer pensamos que um dia ela poderia acabar ou chegar a níveis de racionamento como vivemos hoje.

Fiz questão de editar o vídeo abaixo para ilustrar as medidas que adotei. Alternativas que não me custaram mais que 200 reais - pode ser muito para a maioria das pessoas, mas é um valor que consegui compensar em apenas dois meses de economia na conta.

Sem gasto nenhum, apenas com adoção de novas rotinas, também é possível alcançar uma boa economia. Veja:

- diminuir os banhos de 15 para cinco minutos: 90 litros de água economizados;
- escovar os dentes ou fazer a barba com a torneira fechada, abrindo-a apenas para a lavagem da escova ou do aparelho: economia de 5 litros;
-  aproveitar o banho para fazer xixi no ralo do box: 5 litros da descarga poupados;
- molhar a louça, fechar a torneira, passar a esponja em tudo e só depois enxaguar: 8 litros;
- aproveitar a chuva para lavar o carro: pelo menos, economia de 100 litros;
- coloque 1 garrafa PET de 2 litros (ou duas pequenas de 500 ml cada, se não couber), cheia de pedras, dentro da caixa de descarga acoplada. Elas vão ocupar o espaço que seria preenchido com água: economia de 1 a 2 litros a cada descarga;
- reaproveite a água da chuva na máquina para lavar tapetes e panos de chão: pelo menos 40 litros a cada lavada. E depois reaproveite a água dos enxagues para lavar o quintal;
- para quem tem, use mais a máquina de lavar louça. Ela trabalha com muito menos água do que uma torneira aberta: 8 litros;
- máquinas de pressão (tipo Vap) também economizam muito mais água do que uma mangueira, se o uso for imprescindível: 50 litros a cada 15 minutos.

É claro que alguma dicas dão um pouco mais trabalho que outras. Mas o sacrifício valerá quando você ver na conta a economia que fez e o tanto que poupou. Afinal não estamos num momento de se brincar com o consumo de água.

Aproveito também para mostrar-lhes um vídeo que me comoveu muito e me fez pensar a respeito de economia. Ele narra um texto escrito em 2002 sobre falta d'água no futuro. E lhes digo uma coisa: é arrepiante pensar que um dia isso pode realmente acontecer.

Mãos à obra!

Entre a meretriz e a desonesta

urna eletronica 300x172 Entre a meretriz e a desonesta

Difícil escolha.

Até o momento, eu tinha me contido em falar de eleições. Acho que, como jornalista de uma rede de TV, minha opinião poderia influenciar eleitores (se bem que acredito que não sou tão influente assim). De qualquer forma, acho que cada um tem a sua filosofia, o seu ideal, a sua predileção por esse ou por aquele candidato e nada do que eu dissesse aqui seria razoável para mudar a opinião de quem quer que fosse. Afinal, adianta discutir política com radicais ou ignorantes que mantém suas razões como soberanas e insofismáveis? Não! Prefiro me poupar desse desgaste e adotar a seguinte postura: "se não faço você aceitar minha posição, não quero, portanto, ter que engolir a sua". Inclusive bloqueei das minhas redes sociais quem considerei exagerado, fanático, apelativo. Cortei aquele que colocou situações suspeitas como verdadeiras, acima das amizades, e vomitou filosofias que não passarão do dia 26 de outubro, tenho certeza. Gente que, até a campanha eleitoral, eu jamais tinha visto falar de política. Quem declarou seus ideais dentro da razoabilidade, continua ali.

Resolvi tocar no assunto porque acho que nunca presenciamos uma disputa tão sangrenta e criminosa como esta e é disso que eu quero falar. Ataques de ambos os lados, alguns de forma impiedosa, mentirosa, vil e desprezível, tornaram a campanha eleitoral no segundo turno presidencial vexatória e lamentável - vai ficar gravada na história do país como um dos piores momentos que o Brasil já viveu. Devíamos estar fazendo história mas isso mostra que a estamos desconstruindo.

E quando vemos a postura de um ex-presidente, aclamado pela maioria, subindo no palanque para atacar de forma grosseira o adversário da sua candidata, usando palavrões e levando o discurso eleitoral para o mais baixo nível já visto, percebemos que a campanha extrapolou mesmo o patamar das idéias para virar palco de baixarias e bizarrices. E do lado de lá também podemos apontar deslizes irrefutáveis que abandonaram o decoro e o respeito ao eleitor.

E o que tirar de tudo isso? Em meio a essa baixaria toda, onde estão as propostas de mudança de verdade? Onde foram parar as idéias de desenvolvimento da economia, as soluções para a segurança, os projetos para a educação e a saúde? Em que momento, de verdade, nos foram apresentadas propostas efetivas e objetivas que sejam novas e mudem os rumos do país para melhor? Infelizmente se perderam no meio da falta de escrúpulos e da irracionalidade desmedida dos candidatos que se apresentam para comandar o país. Quem pudemos ver durante a campanha eleitoral que, realmente, se preocupa com o Brasil? O que vimos até agora coloca o eleitor numa encruzilhada, sem saber para que lado correr. E uma eleição não pode ser decidida pelo "voto do protesto" ou do medo.

Senti falta das manifestações públicas do ano passado. Milhares foram às ruas por mudanças em todo o país. Pelo menos é o que diziam. Mas na verdade o silêncio e a imobilidade de agora indicam que foi apenas, mesmo, pelos 20 centavos da tarifa do ônibus. Ninguém mais protestou, ninguém mais encheu ruas e avenidas, mesmo sabendo de que a disputa eleitoral tem manchado a democracia brasileira. E o resultado do primeiro turno mostrou que ainda não aprendemos a votar - nos forçou agora a ter de engolir oligarquias que vem se revezando no poder há décadas. Uma delas, cercada de escândalos assombrosos. A outra, apoiada num passado obscuro e ambíguo. Mas também me pergunto: que outro quadro seria diferente?

Nem a prerrogativa de não precisar votar - ainda justifico - me dá a certeza que eu gostaria de ter nesse momento. E imagino assim milhões de eleitores por esse brazilzão afora. Mesmo não votando me coloco no lugar dos eleitores e sinto-me como o noivo, entrando na igreja com o sogro apontando a arma para a cabeça, obrigando-me a escolher uma de suas filhas: uma desonesta e a outra meretriz. Você casaria com qual?

Tomara que o resultado das urnas comprove que estou totalmente errado.

Querem crucificar o Cristo errado!

Certo dia um colega de trabalho me contou algo assustador. Ele disse que saiu do trabalho aqui na Record, pegou sua bike e passava pela ciclovia recentemente criada em frente à emissora, quando foi duramente hostilizado por alguns funcionários da empresa que estavam na calçada fumando. Diziam eles em alto e bom tom: "É por causa desses babacas de bicicleta que perdemos nossas vagas". Eles se referiam às vagas de estacionamento do lado oposto da rua, ocupadas agora pela nova ciclovia.

ciclovias1 Querem crucificar o Cristo errado!

Ciclovias: ainda falta muito planejamento

A questão me levou a analisar o que está acontecendo em São Paulo. De um mês pra cá, a prefeitura começou a implantar novas ciclofaixas e ciclovias ao longo de ruas e avenidas na região central da cidade e alguns bairros. Mas da forma como está sendo feita, essa alternativa de mobilidade urbana está, muito mais, atraindo a revolta de motoristas, moradores e comerciantes das regiões afetadas do que angariando a simpatia dos ciclistas.

Em primeiro lugar há um certa falta de planejamento nessa implantação. Como ciclista de lazer que defende a medida, desde que de forma correta e gradativa, vejo que alguns trechos de ciclovia ocupam ruas erradas. Elas poderiam ter sido implantadas uma quadra abaixo ou uma acima, onde a segurança para quem pedala seria mais necessária. Com isso acabou com vagas de estacionamento, interrompeu a entrada em frente à lojas e prédios e dificultou a descida de deficientes físicos na frente de clínicas e laboratórios.

Também verifiquei mudanças bruscas de lado - da esquerda para a direita e vice-versa - que colocam os ciclistas em risco de atropelamento, sem a mínima sinalização e aviso do perigo. E também há trechos em que essas faixas terminam, sem dar nenhuma opção de caminho seguro, obrigando a quem pedala, a cruzar em meio ao trânsito rápido, sem semáforo ou faixa de pedestre por perto.

É claro que precisamos criar alternativas de mobilidade, principalmente em São Paulo, onde o trânsito está cada vez mais complicado e estagnado. Mas a administração municipal precisa entender que não basta apenas pintar o asfalto em qualquer lugar e colocar tachões como se isso bastasse para dar segurança aos pedaleiros, delimitando o espaço entre carros e bicicletas. Além disso, criar ciclofaixas sem consertar as irregularidades e os buracos ao longo delas, torna-as mais perigosas do que o fluxo de veículos ao seu redor. Em resumo: o que está sendo feito em São Paulo parece mais uma medida paliativa, feita nas coxas, do que um projeto de planejamento urbano.

De qualquer forma, os ciclistas que fazem uso da bike no seu dia-a-dia para ir e vir ao trabalho ou estudos, não podem sofrer com a ira de quem não gosta da idéia - provavelmente gente que nunca pedalou ou não tem nenhuma simpatia pelas bicicletas. Afinal nunca houve em São Paulo um grande movimento de ativismo pró-ciclovias que obrigasse a prefeitura a implantá-las. Assim como não foram os ciclistas que pediram para que as vagas de estacionamento fossem ocupadas. E tampouco, tenho certeza, algum ciclista foi chamado para participar do planejamento da sua implantação. Então, estão querendo crucificar o Cristo errado!

Já ouvi dizer que não estamos evoluídos culturalmente para usar a bicicleta no nosso ir e vir. Discordo. É só olhar para os números. Segundo a Associação Brasileira da Indústria, Comércio, Importação e Exportação de Bicicletas, Peças e Acessórios (Abradibi), o mercado de bicicletas cresceu 300% em cinco anos, superando massivamente a venda de qualquer outro segmento de veículos. É claro que boa parte dos novos ciclistas, ainda, é composta de quem pedala por lazer. Mas a fatia de quem a usa como transporte cresce a cada dia.

São Paulo devia se espelhar em algumas cidades que fizeram das ciclovias seus maiores e mais importantes projetos. Na Dinamarca, por exemplo, a capital Copenhagen, é umas das que tem mais programas urbanos a favor da bicicleta no mundo. Cerca de 32% dos trabalhadores vão de bike até o trabalho. Montreal, no Canadá, é a primeira da América do Norte a adotar um sistema público de bicicleta, o BIXI (junção das palavras bicicleta e táxi) que consiste em um programa de aluguel de bikes. A cidade investiu US$ 134 milhões para renovar ciclovias e construir um ambiente ainda mais favorável aos ciclistas. Para citar uma cidade do chamado "terceiro mundo", em Bogotá na Colômbia, apenas 13% dos habitantes possuem carro o que favorece o uso da bike. Uma vez por semana, mais de 70 km de vias públicas são fechadas para o tráfego de automóveis, para que ciclistas, skatistas e corredores possam transitar pelas ruas com maior segurança. E até aqui mesmo, no Brasil, temos bons exemplos. Conhecida pelo bom planejamento urbano, Curitiba (PR) também estimula o uso de bicicletas como transporte há mais de 40 anos. A presença de ciclovias na cidade pode ser claramente vista em qualquer canto. Além da infraestrutura, existe uma comunidade ativista pró-bicicleta bem atuante, com o intuito de promover o uso da bike como alternativa ao congestionamento de carros.

Bike Canadá Querem crucificar o Cristo errado!

Bicicletas-Taxi: alternativa de mobilidade no Canadá.

Uma coisa que é preciso entender é que as ciclovias não devem ser construídas para atender a uma demanda (que ainda é baixa), mas sim para "convidar" a população a usar mais a bicicleta no dia-a-dia. Alguém, por acaso, aderiu ao uso do cinco de segurança de imediato? Não! Demorou anos para que passássemos a usá-lo de forma consciente. E assim vai ser com as ciclovias e ciclofaixas. Daqui pra frente o que será necessário é uma campanha de conscientização, de melhor convivência no trânsito para mostrar que é possível sim a perfeita harmonia nas ruas entre carros, bicicletas, motos e pedestres. Não será de um dia para o outro que veremos as ciclofaixas lotadas. Isso demanda tempo, adaptação, correção de erros e incentivo. Sim, estamos perdendo vagas de estacionamento na cidade, mas não seria melhor pensar em mudar nossa alternativa de transporte em vez de criticar quem faz uso das ciclovias?

Apesar de (ainda) não usar a bike para vir ao trabalho, apenas para o lazer, sou defensor das faixas exclusivas desde que implantadas com planejamento e seriedade, sem medidas eleitoreiras. E para vocês que sempre criticam os ciclistas, as vezes agressivamente, pensem no seguinte: não são com eles que vocês disputam vagas de estacionamento nas ruas, não são eles que poluem o seu ar com fumaça ou seus ouvidos com buzinas, não são deles que vocês levam fechadas no trânsito e muito menos são eles que causam os congestionamentos. Se forem culpar alguém, culpem realmente quem faz das suas vidas um inferno toda vez que você vai para o trabalho ou volta pra casa!

Olhar nos olhos está virando coisa do passado

olhos nos olhos 243x300 Olhar nos olhos está virando coisa do passadoA história é de um vídeo que vi na internet. Um jovem caminha pela rua a procura de um endereço. Nas mãos, um pequeno pedaço de papel com o nome da rua e o número. Na esquina ele cruza com uma jovem e lhe pergunta onde fica tal endereço. Ela aponta o caminho, eles caminham juntos e as cenas que se seguem mostram o namoro, o casamento, os filhos e a vida feliz que os dois levaram juntos. Tudo por causa de um pequeno papel e um endereço.

A cena se repete. Mas ao invés do papel, o jovem tem nas mãos um celular com GPS. Ao passar pela mesma esquina em que a jovem aparece, com os olhos grudados na tela do aparelho, ele segue em frente, sem ao menos olhar para a moça, seguindo as orientações do seu guia eletrônico. Perdeu a oportunidade de conhecer alguém, de ter uma vida bela e feliz. Não importa o que pode ter acontecido com ele depois daquele momento em que cruzou com a moça nessa segunda versão. Importa as oportunidades que, às vezes, perdemos por estarmos viciados na tecnologia e na pseudo liberdade que nossos tablets e smartphones nos oferecem.

Sento à mesa de um café, numa praça extremamente agradável e começo observar as coisas à minha volta. Um belo e pequeno lago com carpas amarelas, alaranjadas e brancas nadando na água cristalina, o barulho da cachoeirinha que oxigena a água, as flores diversas que colorem o paisagismo do local, pássaros voando pra lá e pra cá e gorjeando efusivamente. Observo também as pessoas que passam. A morena bonita de vestido florido, o homem sério de terno falando ao telefone, a mãe que toma sorvete com a criança, o casal de idosos que caminham como dois namorados.

Mas vejo também aquilo que cada vez mais me assusta: pessoas sentadas próximas a mim, no mesmo café, perdendo tudo isso que vi por estarem com os olhos colados em seus celulares, riscando os dedos na tela nervosamente.

A jovem de cabelos pretos sorri, sozinha, talvez contagiada por alguma mensagem ou foto que encontrou. A outra, ruiva, à sua frente na mesma mesa, digita algo rapidamente e gesticula como se estivesse conversando pessoalmente com alguém. O homem de camisa e gravata, sem paletó, devora o tablet apoiado na mesa abrindo as páginas do Facebook, curtindo, comentando ou compartilhando alguma coisa, enquanto grava mensagens pelo Whattsapp. Vejo que seu semblante muda quando vem a resposta.

Na outra mesa, uma mãe fala ao telefone enquanto seus dois filhos adolescentes, um menino e uma menina - ela com fones de ouvido balançando a cabeça como quem ouve uma música - se divertem com seus gadgets, sem prestar atenção um no outro. A impressão que dá é que qualquer um que levantasse da mesa e fosse embora não teria sua ausência notada. Mal sabem eles, mas estão todos solitários em seus mundos virtuais particulares.

Saio dali caminhando, passo em frente a pontos de ônibus e vejo um grupo de pessoas, cada um trancado no "pequeno-gigantesco" mundo do seu celular, sem conversar, sem se olhar, sem prestar atenção naqueles que os cercam.

A tecnologia que nos abre portas cada vez mais amplas e nos permite ir cada vez mais longe na internet e na comunicação com outras pessoas está criando diversos universos isolados - cada pessoa no seu, interagindo com o que está distante dos seus olhos, mas sem perceber o que está próximo. Não buscamos mais a satisfação num sorriso devolvido, mas sim em centenas de "curtidas" em algo que postamos numa rede social. E quando as curtidas são ínfimas, bate a frustração, a insatisfação e o desencanto. É incrível como os comentários numa foto surtem mais efeito de satisfação do que ganhar um abraço, um aperto de mão ou um elogio verbal. É entristecedor ver como uma mensagem de Whattsapp pode ser mais poderosa que a voz de alguém ao pé do ouvido.

A mocinha que fica quase uma hora olhando para a tela de um celular enquanto devora rapidamente um lanche, ri, chora, se enraivece e fica perplexa a cada deslizada do dedo na tela. Acredito que ela pense: "Nossa, que mundo maravilhoso este a que tenho acesso". Mas no fundo ela esta sozinha diante do mundo que a cerca. Ela poderia, a exemplo do caso que cito no início deste artigo, prestar atenção e trocar sorrisos com o jovem bem apessoado que senta à sua direita e, quem sabe, iniciar uma relação verdadeira. Mas não, talvez ela prefira trocar mensagens com algum paquera que está à quilômetros de distância.

Percebi que os ambientes de bares, restaurantes, cafés e salas de embarque de aeroportos estão mais silenciosos. Basta um olhar pouco atento para perceber que quase ninguém mais conversa - a maioria está imersa, e porque não dizer "submersa", em seus aparelhos. Mesmo entre os casais, as familias, os amigos que viajam juntos. Cada um no seu mundo particular que é exposto na internet. Até mesmo para quem não se conhece.

Na minha opinião, as redes sociais, estão tornando as pessoas cada vez mais anti-sociais. Hoje é mais fácil alguém passar uma mensagem pelo "Zap-Zap" do que fazer uma ligação. E não venham me dizer que "porque é mais barato". Quando alguém faz aniversário, se tornou mais prazeroso ver que existem centenas de mensagens no Facebook do que receber meia dúzia de ligações. Não precisamos mais reunir as pessoas em casa para ver as fotos ou o vídeo daquela viagem de férias. Basta postar no Instagran. "Uau! Mas isso é maravilhoso!" comemoram os aficcionados. Mas será mesmo que tem mais graça ver uma mãozinha azul com sinal de positivo, de alguém que não conhecemos, do que receber o abraço elogioso de um amigo? Com certeza não!

As redes sociais são a grande invenção da humanidade, concordo. Nos "aproxima" de amigos há muito distantes, mas apenas virtualmente. Na maioria das vezes nem os encontramos pessoalmente e eles passam a ser apenas expectadores das nossas postagens. Também nos tornamos preguiçosos. Afinal é mais fácil falar para um grupo de seguidores, mesmo que alguns não estejam nem aí pra você, do que com cada um deles.

Estamos nos distanciando dos nossos reais sentimentos. Rimos sozinhos, falamos sozinhos, recebemos reações virtuais, choramos, comemoramos, brigamos e xingamos olhando apenas para uma tela. Enquanto isso, as oportunidades de felicidade que podemos ter em cada esquina, nos passam despercebidas como a segunda versão da estória que relatei no começo. Mesmo que fossem oportunidades de ver ou ouvir algo belo, algo que nos tocasse os sentidos como a audição, o olfato, a visão e o tato. E com isso não nos damos conta de que ao invés de nos aproximarmos, estamos nos distanciando das pessoas e acabando com a maravilhosa sensação de olhar nos olhos.

Bêbados que matam. Até quando?

Alvaro Teno Bêbados que matam. Até quando?

O maratonista Álvaro Teno: vida perdida por causa de motorista bêbado

Mais uma vez a história se repete: um motorista embriagado, perde o controle do carro, atropela um grupo de pessoas e alguém morre. O enredo ilustra pelo menos umas seis matérias que fiz nos últimos doze meses para a Record. Sem contar a produção de outros repórteres sobre o mesmo assunto. A última foi nesse dia 16, sábado.

Um grupo de corredores treinava no campus da USP em São Paulo como fazia costumeiramente nos fins de semana. De repente, um carro desgovernado avança sobre eles. Três mulheres e um homem ficaram feridos e precisaram de atendimento nos hospitais da região. O maratonista Álvaro Teno, de 68 anos, foi socorrido mas não resistiu aos sérios ferimentos e morreu uma hora e meia depois no hospital.

O responsável pela morte foi um pedreiro que conforme as imagens mostram (assista a matéria abaixo) estava visivelmente embriagado. Um detalhe: as 9 da manhã. Outro detalhe: disse ele que saiu de casa para trabalhar numa obra dentro da USP. Saiu de casa para trabalhar e estava mamado? Conta outra!

E assim, mais uma pessoa morre, vítima da irresponsabilidade de algum imbecil. Cade a fiscalização prevista na Lei Seca? De que adianta a tolerância zero que tornou a lei mais rigorosa um ano atrás? São perguntas que, acredito, vamos estar nos fazendo daqui mais uns anos e nada terá mudado a respeito dessa irresponsabilidade de muitos.

A Lei Seca hoje estabelece o seguinte: quem for pego dirigindo com 0,1 mg a 0,3 mg de álcool no sangue, atestado pelo bafômetro, tem a CNH suspensa, o carro é apreendido e paga multa de R$ 1.915,00. Acima de 0,3 mg, tem tudo isso e o motorista ainda vai preso e responde a um processo. Mas, apesar das sanções, parece que ainda há muita gente que não está nem aí para o "se beber não dirija, se for dirigir, não beba".

Felizmente, as estatísticas apontam uma regressão dos acidentes desde que a Lei Seca ficou mais rigorosa em 2012. Os testes de bafômetro aumentaram e o número de prisões também. Mas isso ainda não tem sido suficiente. O ideal é que a Lei baixasse o número de motoristas embriagados ao volante a zero. Só assim teríamos menos mortes no trânsito.

Na minha opinião as penas e multas ainda são muito brandas, fazendo aqueles que bebem pensar que basta pagar uns trocados ali pra escapar e ir pra casa curar a ressaca. E perder a carteira? Conheço muita gente que dirige sem habilitação ou com habilitação vencida e nunca foi parado em São Paulo, por exemplo. Então o que acontece? O cara é pego, paga a multa (que não é assim tão esfoladora para quem põe a vida dos outros e a própria em risco), perde a carteira e no dia seguinte tá lá, de novo, rodando no trânsito como se nada tivesse acontecido.

Apesar dos órgãos de trânsito afirmarem que as blitz continuam, elas realmente só tem acontecido em períodos pontuais, como feriados, fins de semana e época de festas (Carnaval, Natal, Reveillon). E justamente próximo a regiões repletas de bares e restaurantes. Ou seja, é uma fiscalização sazonal e ineficiente. Enquanto isso, nas periferias, algumas consideradas terras sem lei, a irresponsabilidade corre solta com mortes e mais mortes a cada semana.

O pedreiro que matou o maratonista será, talvez, quem sabe, provavelmente, condenado por embriaguez ao volante, lesão corporal e homicídio culposo (que não teve a intenção de matar). E com certeza arrumará um bom advogado que o livrará da cadeia em 48 horas para responder o processo em liberdade por ser réu primário. E não duvido que volte a dirigir por aí, mesmo sem habilitação, porque sabe que dificilmente será parado numa blitz.

Para mim as punições tem de ser ainda maiores, trazer consequências ainda mais severas para quem acha que está acima da lei. Bebeu, não importa o quanto, a cadeia por um tempo pode ser o melhor caminho. Além é claro de uma multa muito superior a de hoje - porque sabemos que quando pesa no bolso, a coisa ferve. E pode ser que alguém esteja questionando "Ah, ele diz isso porque não deve beber". Bebo sim, moderadamente, e quando sei que passei dos limites a primeira coisa que faço é entregar as chaves do carro pra esposa. Admito que já dirigi depois de tomar algumas taças de vinho porque achei que estava em perfeitas condições de fazê-lo. E esse é o nosso maior erro, acreditar que estamos com total controle dos nossos reflexos quando, muitas vezes, não é bem assim. O presidente da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet), Dirceu Rodrigues Alves Jr, diz que "Não é só o embriagado que vai se acidentar, é o sujeito que fez uso do álcool. Aquele que não consegue ficar em pé, é um criminoso. Agora, aquele que está fazendo uso e parece estar bem é o risco, porque vai se acidentar ou causar um acidente".

E não depende da lei ser ou não mais rigorosa. O que importa é a nossa conscientização. As leis são para os irresponsáveis. O dia em nos tornarmos responsáveis não precisaremos mais de leis.

O doce e saudoso sabor dos reencontros

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Cajuru: lembranças e reencontros inesquecíveis

Há poucas coisas tão gratificantes nessa vida como rever velhos amigos. Na verdade, amigos antigos que, ao reencontrá-los, temos a certeza de que nunca deixaram de ser amigos, independentemente do que tempo que estão afastados ou distantes. E não importa se eram muito ou pouco próximos, são pessoas que fizeram parte de momentos importantes que ficarão registrados para sempre. Esses reencontros me trazem de volta, imediatamente, lembranças incríveis da minha vida, da minha infância, da minha adolescência. E a gente percebe isso pelo carinho com que é tratado.

Tenho muito isso na cidade de Cajuru, próxima a Ribeirão Preto. Um lugar delicioso onde vivi durante toda a minha infância e adolescência. Quando meus pais se mudaram para lá eu tinha 9 anos de idade, mas já frequentava a cidade e tinha amigos desde que nasci. O primeiro "Velotrol", a primeira bicicleta, a primeira namorada, a primeira briga de rua, a turma do colégio... tudo aconteceu ali. Inclusive fatos não tão agradáveis, como a morte de meu pai.

Dias atrás, depois de um tempo distante, estive por lá de novo. É incrível a sensação de andar pela cidade na esperança de rever alguém conhecido, uma feição familiar, um amigo do qual mal me lembrava. Pareço uma criança revirando o baú de coisas antigas e preciosas. Muitas vezes vejo apenas um rosto distantemente familiar. Mas por força da minha profissão, acabo sendo reconhecido e lembrado como aquele menino que desbravava as ruas de paralelepípedo da cidade.

Entre esses reencontros casuais, quando estive por lá, agora, tive o prazer de topar com três grandes amigos. Téio, Eugênio e Júnior faziam sua caminhada matinal quando passaram por um bando de malucos fantasiados de ciclistas, saindo para fazer trilha na redondeza. Eu e meu irmão éramos dois desses malucos. Foi um encontro rápido onde pude sentir o carinho e a proximidade daquelas pessoas que não via há tantos anos. E é esse tipo de presente que me faz voltar a Cajuru sempre.

Tive outro encontro fortuito com outro grande amigo, na praça onde sempre estávamos nos fins de noite, após os bailinhos no clube. Robertinho Menta, igualmente carinhoso, parou o carro, desceu, me cumprimentou e, de repente, estávamos nós ali relembrando bons momentos. Um pouco depois, mais uma passadinha em outro lugar e novos reencontros. Momentos que me fazem sentir de novo aromas de uma época que não volta mais, mas não vai embora jamais das minhas memórias.

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O coreto: palco de tantas paqueras e namoros.

E tenho esse carinho especial por Cajuru até hoje exatamente por causa desse carinho. Os mais novos me falam de seus pais, meus antigos colegas. Os mais velhos lembram com saudosismo do meu pai, um benemérito da cidade. Os da mesma geração que eu, mesmo que eu não os reconheça, sempre lembram de momentos que passamos no ginásio, nos passeios de bicicleta pela praça, das tardes de sol no clube Recanto da Amizade, que carinhosamente chamávamos de "piscina de baixo". Muitas vezes é difícil reconhecer rostos depois de tanto tempo. Mas basta um nome, um sobrenome, um apelido, pra entender como sabem tanto de você.

Cada esquina tem uma história, cada casa lembra uma situação, cada árvore da praça guarda um nome rabiscado ao lado de outro de quem se gostava. As paixões dali jamais serão esquecidas, mesmo aquelas não correspondidas, apenas respondidas em forma de cartas que demoravam a chegar. O amor por uma garota que durou mais de uma década, o peso na consciência por ter ferido alguém numa briguinha de rua e a lembrança da dor de um tombo ao pular um muro qualquer. Os doces caseiros feitos pela tia, os fins de semana na fazenda, os passeios a cavalo e os banhos de cachoeira... tudo isso vem à tona e reconstrói um passado que jamais desejamos esquecer.

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Durante um passeio em Cajuru, outros tantos reencontros com amigos queridos.

Hoje ainda mantenho amizade próxima com muitos com quem convivi ali na infância. Alguns até viraram "parentes". Parte da minha família ainda está por lá e sinto por não ter tempo de passar por ali mais vezes. Mas o que me conforta é que sempre serei bem vindo em Cajuru. E as pessoas dali sempre serão bem vindas ao meu coração. Obrigado aos amigos e à cidade por terem me ajudado a me tornar o que sou! Tenho orgulho de olhar um banco da praça e ver o nome do meu pai ali, embaixo do da "firma" dele.

Reencontrar velhos amigos sempre nos permite manter viva a parte da nossa história que, as vezes, as circunstâncias tentam apagar. Para mim, jamais!

Imagina na próxima Copa!

Brasil alemanha Imagina na próxima Copa!

"Caramba, Thiago... e eles nem queriam humilhar a gente!"

É Brasil, não foi dessa vez. Mas também não foi da última, em 2010. Nem da penúltima, em 2006. Pois é, acho que ninguém lembrava que o nosso penta já completa doze anos! Talvez seja por isso que queríamos tanto essa taça, justamente por ser no nosso quintal. Imagina um time paulista ficar doze anos sem título! É a desgraça do clube para o deleite dos adversários.

Mas de quatro em quatro anos dói menos. Ou parece que dói menos. Garanto que até mesmo para aqueles que desdenharam a Copa desde o início, doeu. Como para mim, por exemplo. No começo eu não estava muito empolgado. Talvez por prestar mais atenção na farra com o dinheiro público na construção dos estádios e nos arranjos nefastos da Fifa e da CBF. Mas como percebi que não adiantava esbravejar com a bola rolando, cedi a tentação de torcer um pouco.

De uma certa forma, não por empolgação própria, mas contagiado por amigos, pelas pessoas nas ruas, pelos torcedores que entrevistei por aí e por essa paixão desenfreada que o brasileiro tem pelo futebol. Me incomodei com os empates, sofri nos pênaltis e sorri com as fracas vitórias. Mas sorri, fazendo meu papel de patriota, na mesma proporção em que brado contra as mazelas públicas. Afinal sou brasileiro e pensei: "Porque não torcer pela seleção já que faço isso por mudanças no país?".

Mas minha empolgação não foi muito longe. Já tinha arrefecido com o empate contra o México e as tímidas vitórias sobre as pobres Croácia e Camarões. E esfriou de vez com a disputa nos pênaltis contra o Chile. Eu já não esperava muito contra a Colômbia, mas positivamente acertei o bolão. E quando vieram os 3 primeiros gols alemães em menos de vinte e quatro minutos de jogo, eu já começava a me despedir do mundial como torcedor.

Para a minha sorte, não sofri nem chorei como muitos. Mas senti por eles. Fiquei envergonhado no lugar daqueles que estavam lá, na arquibancada do Mineirão nesse fatídico "8" de julho. E, por coincidência, 7 + 1 = 8. Oito do 07 (julho). E quase deu 8. Mas aí já é assunto para o resto do ano dos numerólogos. Imagina se fosse em Agosto!

Essa pode ter sido ou não a Copa das Copas. A imprensa internacional diz que sim. A nossa diz que nem tanto assim. Pelo menos o "imagina na copa" dos pessimistas não vingou. Passagem de avião tava um absurdo de cara. Diária de hotel então, nem se fala. O hot-dog dobrou de preço e tentaram até me vender cerveja "itaipava" por 6 reais a latinha, na Vila Madalena, achando que eu era estrangeiro. Mas ninguém ligou. Até mesmo as manifestações do "contra a copa" foram pífias. Claro, tinham de terminar antes do jogo começar!

Enfim, esta copa, para muitos, passará despercebida. Talvez seja lembrada apenas pela "chocolatada alemã". Ou esquecida. E olha que eles não queriam nos humilhar, como disseram à imprensa. Imagina se quisessem!

Mas uma coisa é certa: na próxima a taça é nossa. Não haverá estádios para construir nem infraestrutura para prometer. E Felipão também não vai estar lá. Neymar já estará melhor da coluna e Fred talvez tenha aprendido algo sobre estar em campo de verdade. Até lá David Luis tenha cortado o cabelo e Julio César... ah, que ele continue sendo o mesmo Julio César. E que a Alemanha cumpra a promessa: que realmente não queira nos humilhar em campo. De verdade!

Se for assim, imagina na próxima Copa!

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