A boleia da morte


acidente 300x200 A boleia da morte
Cuidado! O perigo está ao seu lado nas estradas.

Essa semana perdemos uma colega de trabalho. Uma pessoa doce e meiga que não deveria ter partido da forma brutal como foi - num acidente de ônibus. Dayanne estava com outras três amigas e colegas de trabalho que também se machucaram. A morte dela é dolorosa para nós, amigos, e é mais uma nas estatísticas violentas que rondam as nossas estradas.

E quero me referir, especificamente, a uma delas: a BR 116, Régis Bitencourt. Foi ali que Dayanne e outros três passageiros perderam a vida. E junto com eles, apenas no período do Natal para cá, foram mais de duzentas vítimas. Pessoas que se foram em acidentes envolvendo ônibus e caminhões, os principais causadores de mortes nas estradas brasileiras, principalmente na Régis. São mais de 1.500 vítimas fatais por ano - média de 5 por dia.

Falo com propriedade disso porque, frequentemente, enfrento rodovias brasileiras a caminho de Florianópolis, onde mora a família da minha mulher, ou pelo interior de São Paulo onde tenho parentes. Nas viagens mais curtas, sempre opto pelo avião, muito mais seguro. Mas quando a temporada é maior, me arrisco a ir de carro. E, confesso: toda viagem é um misto de temor, raiva e estresse.

O motivo: o abuso, o desrespeito, a imprudência e o mal-caratismo dos motoristas de caminhões. Não da maioria, claro. Mas de boa parte deles. Me perdoem aqueles que tem esse tipo de profissional em suas famílias, mas não temo em dizer, baseado em estatísticas, que eles são os maiores responsáveis pelas mortes nas estradas. Veja alguns números de uma pesquisa da Associação Brasileira de Prevenção de Acidentes de Trânsito/Vias Seguras:

- a maioria dos acidentes é provocada por fatores humanos, ou seja, por culpa do próprio motorista: velocidade inadequada, ultrapassagem indevida, fadiga (sono ao volante), não manter distância exigida, embriaguez e utilização de entorpecentes e reativantes. A faixa etária que mais se envolve é a de 18-25 anos, o que mostra a pouca experiência de alguns motoristas.

- outros fatores: chuva, neblina, farol alto, lusco-fosco (ao amanhecer e ao entardecer), animal na pista, excesso de cargas (20% acima da capacidade máxima permitida), veículo mal conservado, defeito mecânico, entre outros.

O pior mesmo é a atitude de quem comanda um caminhão. Cansei, mas cansei mesmo, de ver as atrocidades que eles cometem na pista. Ultrapassam em locais proibidos, se jogam pra cima de carros pequenos para forçar passagem, saem para a pista da esquerda sem a menor cautela ou preocupação com quem vem atrás, obrigando você a frear bruscamente ou tirar para o acostamento. Enfim, é uma sessão de desrespeito ao demais motoristas e à sinalização, que ultrapassa os limites da tolerância humana. E o resultado? Mortes, famílias destruídas e prejuízos materiais. E o pior: ninguém toma qualquer medida para impedir essa voracidade rodoviária.

Pressionados pelas empresas ou pela própria ganância em faturar mais fretes, muitos motoristas estendem a jornada além dos limites do corpo humano, se drogam, viram noites e noites na estrada sem dormir, movidos a "rebites" e a muito álcool. E com isso, dormem ao volante, perdem os reflexos, causam acidentes e tiram vidas.

Até quando? Quantas pessoas mais terão de morrer pela direção irresponsável de alguns motoristas até que se tome alguma providência? Cade a fiscalização da Polícia Rodoviária, muitas vezes calada pela propina? Cade a punição mais severa para estes motoristas que geralmente escapam dos acidentes apenas com pequenos arranhões enquanto os outros morrem? Cade a melhor sinalização das estradas? Cade os impostos que pagamos que deveriam ser usados também para recuperar as rodovias?

O acidente que matou nossa colega, também foi provocado por um caminhoneiro sem alma que tirou o ônibus da estrada, talvez pela ânsia de querer chegar mais cedo em casa ou para faturar mais uma viagem. Ou, até mesmo, por estar drogado, não se sabe. O que se sabe é que, na mesma proporção em que os caminhões transportam o Brasil de norte a sul, de leste a oeste, também carregam na boléia e na carroceria as milhares de mortes que assombram as estatísticas.

Até quando?

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