Arquivo do mês: fevereiro 2012

Pedágio urbano: solução ou engodo?

 

pedagio urbano Pedágio urbano: solução ou engodo?

Lá fora funciona! Será que aqui também vai?

Cidadãos brasileiros, preparem os bolsos! Vem mais uma taxinha aí pra gente pagar. É o pedágio urbano que as cidades do nosso país estão autorizadas desde janeiro a implantar. A lei tem como objetivo tentar desestimular o uso de determinados modos e serviços de mobilidade”, ou seja, desincentivar o uso do automóvel e motocicletas para amenizar os problemas do trânsito.

Por um lado, acho a medida interessante. Primeiro por não ser punitiva (de certa forma). É apenas uma opção do motorista querer pagar ou não para circular com sua caranga por algumas regiões da cidade. Em São Paulo, por exemplo, com esse caos que o trânsito é, até que seria bem vinda. Inclusive já se pensou nisso para a região central, tempos atrás. E seria bem diferente do Rodízio, esse sim pune o motorista que desrespeitar, sem lhe dar opções.

Mas há um lado que me preocupa: será que o dinheiro desse pedágio seria mesmo aplicado onde a lei prevê? Ela diz que os recursos da arrecadação do pedágio devem ser usados na melhoria do transporte urbano, em ônibus e metrô melhores e no subsidio das tarifas. Temo que, mais uma vez, como já se conhece na história desse país, não seja isso que aconteça e o dinheiro vá financiar campanhas políticas, desvios, fomentar mais corrupção, caixas 2, etc. Por acaso a saúde pública melhorou com a CPMF?

No Estado de São Paulo temos um bom exemplo de como a cobrança de pedágio funciona bem. Ou alguém discorda da qualidade das nossas estradas? Claro, há exceções. Mas eu, pelo menos, não tenho nada do que falar de rodovias como a Anhanguera, Bandeirantes, Castelo Branco, Trabalhadores, Raposo Tavares e a Régis (tirando o trecho da Serra do Cafezal e lembrando que o pedágio só foi implantado ali há pouco tempo). Fora outras rodovias estaduais menores, pedagiadas, que também tem excelentes pistas de rodagem.

Aliás, pedágio é uma das poucas taxas que pagamos, obrigatoriamente, em que vemos um mínimo de retorno. Só precisa ser mais barato - acho a cobrança justa, mas ainda muito onerosa para quem viaja com frequência.

A maioria dos especialista defende a idéia do pedágio urbano como uma das soluções para o trânsito caótico de algumas cidades. Seria uma medida muito radical? Mas é exatamente nisso que engenheiros de trânsito apostam: quando pesar ainda mais no bolso do motorista, talvez a coisa melhore. E as alternativas aplicadas até hoje já não são mais eficientes. O rodízio em São Paulo, por exemplo, é uma delas. Quem mora aqui sabe que tirar alguns veículos de circulação nos horário de pico não tem resolvido mais a questão.

Já fora do país, temos bons exemplos de que o pedágio urbano funciona muito bem. Mas são em países em que o respeito ao cidadão e suas necessidades é imensamente diferente daqui. Por isso o que conta é a seriedade e a responsabilidade das prefeituras em tornar isso bom para quem usa o transporte público. Eu não preciso usar e não me importaria de pagar esse pedágio desde que a coisa funcione.

Mas, vai saber, né?

O samba-enredo que desandou

 

briga carnaval O samba enredo que desandou

Ah, o Carnaval! Que harmonia, que tranquilidade!

Meu Carnaval está sendo dos mais tranquilos. Assim como meu Natal e Réveillon, a folia acontece em meio a trocas de fraldas e mamadas. O samba-enredo foi substituído pelo chorinho (do bebê), e o ronco da cuíca pelo meu, cansado das noites mal dormidas. Na verdade, muito bem-dormidas, porque, com esse anjo que temos em casa, é botar a cabeça no travesseiro e dormir de felicidade, mesmo que pouco.

Mas confesso que nunca gostei muito de Carnaval. Aliás, gostei até meus vinte e poucos anos quando ainda zarpava com a turma para alguma praia ou passava as noites pulando feito pulga nos salões do Clube Renascença, em Cajuru, cidade onde cresci no interior de São Paulo. E naquela época, quase 30 anos atrás, era tudo diferente. O axé ainda não existia pelo Sudeste do país, graças a Deus, e o que reinava por aqui eram as marchinhas, os sambas de raiz e alguns sambas-enredos dos quais até hoje cantarolamos seus refrões. Bem diferente dos atuais que já esqueceremos no próximo Carnaval.

O Carnaval da minha época não tinha drogas. Bom, até tinha, mas não passava de cigarrinhos de maconha que muitos usavam (eu nunca curti, sério) nos corredores atrás do clube. Mas na minha turma não tinha isso. Outras drogas pesadas como cocaína, por exemplo, combustível da folia de hoje junto com o crack, até poderiam existir, mas fazia parte de uma realidade muito distante da nossa. Acho que eu nem sabia o que era. Crack então, nem existia. Agora, uma coisa que a gente curtia muito era lança-perfume. Que, perto de tudo isso que existe hoje, era uma inocente brincadeira, apesar de proibido. Mas o nosso era uma coisa ainda mais inocente: a gente usava um desodorante muito vagabundo na época chamado Rastro. Era a nossa viagem etérea (risos)!

Hoje não vejo o Carnaval como uma coisa saudável, por mais que muitos insistam nessa mentira. Tanto que vem perdendo audiência até na televisão. Basta ver os números do Ibope do último domingo - a transmissão das escolas de samba do Rio pela Globo perdeu feio para o Domingo Espetacular. No horário de confronto, entre as 21h e as 23h32, a vitória foi por 14,5 pontos a 12,7. Mas também não quero ser careta a ponto de discriminar a folia do rei Momo. Apenas acho que a maioria não pensa mais na festa como uma forma de lazer e de diversão. Acredito que o objetivo é muito mais sombrio. O consumo de drogas e álcool em excesso são o ponto forte hoje. O sexo casual e irresponsável também. Basta ver as reportagens sobre isso que, geralmente, são veiculadas nessa época: "Número de mortes nas estradas aumenta no carnaval", "Salvador tem a folia mais violenta da década", "Cresce o volume de assaltos", "Brigas e violência marcam a festa no nordeste do país", "Casos de HIV crescem", etc.

Em resumo, carnaval virou sinônimo de bagunça, criminalidade e violência. Eu não consigo descobrir onde, em qual folia, seja na rua ou em salão, não se tem notícias de pancadaria, quebradeira, bebedeira e afins. Em que lugar a polícia não precisou agir de forma enérgica e até violenta para conter os mais eufóricos? Em que estrada não houve um aumento nos índices de acidentes? Respostas difíceis.

Tá bom, agora estou sendo careta por não gostar de Carnaval e sei que muitos de vocês vão escrever comentários me xingando. Mas tá, careta ou não, falei alguma besteira?

Republiquei um texto do Danilo Gentili no meu Facebook que assinei embaixo. Diz o seguinte:

"Queria ser presidente por um dia. Faria uma lei que anulasse o carnaval em prol da nação. Argumentos lógicos não me faltam: diminuição de acidentes, menor índice de HIV positivo, melhorar a imagem do país no exterior, cortar semana ociosa para aumentarmos a nossa renda, valorizar a imagem da mulher brasileira, investir os dois bilhões gastos por ano no carnaval em educação, diminuir o consumo de drogas nesse período. Acho que não teria o apoio popular pra isso. Já tivemos presidentes que afundaaram a educação, a habitação, a reforma agrária, a inflação, a renda familiar, os empregos e até mesmo presidente que roubou nossa poupança. Ninguém reclamou. Porém, se eu acabasse com o carnaval, certamente me matariam. Mesmo sabendo o risco que corro, aceitaria essa missão suicida, afinal é melhor morrer no país do carnaval do que viver no carnaval desse país."

Talvez Gentili tenha usado mais de humor do que de seriedade no comentário, mas concordo com ele em 90% do que disse. Só acho que não precisamos acabar com o Carnaval e sim trazer de volta aquele romantismo de antigamente que fazia da festa uma das mais bonitas do mundo. Duas coisas sempre fizeram a imagem do Brasil brilhar lá fora: o Carnaval e o futebol. Hoje já não é bem assim. As escolas de samba não são nada mais que tanques para lavagem de dinheiro da corrupção, da contravenção e das drogas. A escolha da escola campeã mais parece uma guerra pelo poder na América Central e as micaretas pelo país afora, tirando o charme das Ivetes e Cláudias, são o que fazem as cidades onde acontecem ficar sem verba para educação, saúde e segurança. Os desfiles se tornaram nada mais que ações de publicidade e os temas variam de acordo com a contribuição dada.

Seria muito bom que a folia do Carnaval ficasse apenas nestes quatro dias. Mas, infelizmente, é uma folia que dura o ano todo. Folia com nosso dinheiro, com nossos costumes, com nossos valores. E as consequências vão longe num samba-enredo desafinado, que atravessa a moral e causa uma imagem cada vez menos gloriosa lá fora. Por isso o termo virou sinônimo de coisa negativa: afinal, é ou não é verdade que muita coisa neste país está o maior Carnaval?

Bom resto de folia a todos!

Justiça cega? Não, é apenas uma catarata!

 

justiça cega 300x296 Justiça cega? Não, é apenas uma catarata!

Justiça nem tão cega assim.

O que diferencia o jornalista Pimenta Neves de Lindemberg Alves?

Antônio Marcos Pimenta Neves era diretor do jornal O Estado de São Paulo quando em agosto de 2000 assassinou a sangue frio sua ex-namorada, a também jornalista Sandra Gomide, num haras em Ibiúna, interior de São Paulo. O motivo do crime foi a rejeição. Sandra tinha terminado um namoro que o jornalista insistia em reatar. Diante da negativa, matou sua amada.

Lindemberg Alves, era um jovem sem antecedentes criminais, na época com 22 anos, querido por muitos amigos. Em outubro de 2008 fez sua ex-namorada, Eloá Pimentel, de refém junto com outra amiga, durante quase cinco dias, num apartamento em Santo André. Acabou atirando na amiga e assassinando Eloá com um tiro na cabeça. O motivo: o mesmo de Pimenta Neves, a rejeição amorosa.

Pimenta Neves era rico, um jornalista conhecido e de sucesso. Lindemberg um pobre rapaz da periferia, motoboy sem muito futuro. Os dois são assassinos condenados. A sentença de Pimenta Neves demorou 6 anos para ser dada. A de Lindemberg, pouco mais de 3. Desde que cometeu o crime Neves ficou apenas 7 meses na cadeia e ganhou o direito de responder o processo em liberdade. O motoboy passou esses três anos na cadeia sem direito nenhum. Pimenta foi condenado a 19 anos. Lindemberg a 98.

Na minha opinião, não deveria haver diferenças entre os dois casos. Ambos mataram por rejeição. Independente do motivo, tiraram a vida de alguém friamente por suas próprias vontades. Mas quem definiu as sentenças a que eles foram condenados não foram os juízes que cuidaram do caso - foram suas diferentes condições sociais! Essa é uma das diferenças que separam o motoboy Lindemberg do jornalista Pimenta Neves. No resto são iguais a qualquer outro assassino que usa de frieza para tirar a vida de outra pessoa, baseado apenas no seu egoismo e individualidade.

Mas a justiça não entende assim. E nem eu consigo entender algumas coisas. Por exemplo: porque condenar alguém a mais de 30 anos de prisão se esse é o tempo máximo que uma pessoa, por lei, pode ficar presa? Enche a boca dizer que Lindemberg pegou "98 anos de cadeia". Mas será que as pessoas que comemoraram a sentença como justa sabem que ele deve ficar menos de um terço disso atrás das grades? Pois é! Entendo que há dispositivos judiciais que preveem uma pena diferente para cada crime cometido (no caso dele foram 12) e estas penas se somam. Mas que tipo de conforto isso trás para a família de quem foi vítima? Será que dizer que ele "pegou 98 anos" é mais consolador, mesmo que ele fique menos de 30 preso? É como multar uma empresa em 1 milhão de reais e deixar ela pagar apenas 280 mil e tá bom!

Lindemberg teve o que mereceu. Mas no caso Pimenta Neves, sua condição social lhe trouxe bons benefícios. O jornalista só foi preso 11 anos depois de cometer o crime. Usou todos os recursos e dinheiro que tinha à sua disposição para escapar da cadeia o quanto pode. Agora, aos 75 anos de idade, logo logo voltará para casa para cumprir o resto da sua condenação. Confortavelmente!

Retomo a pergunta: o que diferencia o jornalista Pimenta Neves de Lindemberg Alves? Suas condições sociais? Sim! Mas o que os diferencia mesmo é o olhar que a justiça brasileira teve para cada um deles em razão disso. Nesses dois casos, mais cega para um do que para o outro, provando mais uma vez que a justiça não é tão deficiente visual quanto os togados dizem ser.

Estes dois casos mais o do médico Roger Abdelmasih que, de certa forma, recebeu um "ok" da justiça para sumir para outro país, mostram que a cegueira da justiça é apenas parcial - uma espécie de catarata que afeta só um dos olhos. Para quem não lhes interessa ou para quem não tem recursos, os olhos judiciais estão fechados, às escuras, sem querer enxergar direito. Para outros, os poderosos, estão abertos, bem abertos e sempre com aquela piscadela de cumplicidade.

Amor nem tão incondicional assim

PAIS FILHOS ESCOLA Amor nem tão incondicional assim

O amor pode não ser o mesmo, mas os exemplos sim

Meu pai nunca foi uma pessoa plenamente carinhosa. Pelo menos até onde eu o conheci. Não era de pegar no colo, de fazer afagos, de brincar com a gente. Somos 3 irmãos e do período em que comecei a entender as coisas até a sua morte, 16 anos depois de eu nascer, nunca vi meu pai trocar carinhos com qualquer um dos filhos. Mas na época eu nem ligava pra isso. Talvez eu achasse melação demais esse dengo de pai. Anos mais tarde é que fui entender a importância e sentir falta disso.

Ao mesmo tempo em que não demonstrava muito seu afeto, meu pai era uma pessoa extremamente generosa com a família e com os amigos. Se alguém elogiava seu relógio, ele tirava do pulso imediatamente e presenteava a pessoa. Também nunca mediu esforços para ajudar alguém com dinheiro. Comprovei isso depois da sua morte quando minha mãe achou entre os documentos dele um calhamaço de cheques pré-datados que nunca foram descontados. Eram as garantias dos empréstimos que nunca foram cobrados.

Em casa, sempre atendeu nossos pedidos de brinquedos e conforto e, muitas vezes, nos surpreendeu com coisas que ele dizia que jamais nos daria. Mas era severo. Seu olhar doía mais que uma palmada. E ele nunca encostou um dedo em qualquer um dos três. Bastava aquela cara de repreensão quando fazíamos algo errado, e pronto! Tudo entrava nos eixos.

O Turcão, como muitos amigos o chamavam (e hoje uma amiga querida me chama assim), me deixou vários bons exemplos de vida. Quando moleque, ele empurrava uma carroça pelas ruas de Santo Antônio da Alegria, cidade em que nasceu no interior de São Paulo, e catava papelão para vender. Estudou, se formou em técnico contabilista e virou gerente de banco numa época em que era uma profissão de mais status. Ganhou dinheiro, construiu um belo patrimônio em São Paulo, mas de repente largou tudo e fomos para o interior, onde ele comprou um supermercado e uma loja de materiais de construção.

Sempre que eu lhe pedia dinheiro para as coxinhas de fim de semana na lanchonete da praça, ele nunca negou, mas me colocava para trabalhar aos sábados na loja, para que eu fizesse jus à mesada. Eu odiava aquilo, afinal, meus amigos rumavam para o clube e eu estava ali vendendo pregos, parafusos e sacos de cimento. Muitas vezes eu dizia “tomara que isso aqui pegue fogo”. Isso sem entender direito que aquilo tudo nos dava o conforto que tínhamos e sem saber que um dia nos faria tanta falta.

Pouco tempo depois, meu pai morreu sem deixar absolutamente nada do que tinha para a família. Depois de quatro anos acamado por causa de doenças, as despesas e as dívidas consumiram tudo. E de uma vida confortável, passamos a viver, muitas vezes, de favor na casa dos outros.

Mas o maior patrimônio que seu Abdala nos deixou mesmo foram mesmo as lições de vida. Ele e dona Iracy, minha mãe, que se foi três anos depois dele, quando eu mal tinha completado a maioridade. Seus ensinamentos foram meu bastião de aprendizado. Aprendi com eles a dar valor ao dinheiro e às pessoas. Aprendi também a lei da ação e reação que uso até hoje: para cada ação que você empreende, recebe uma reação em proporcional intensidade e tamanho, seja pelo bem ou pelo mal. Se você dá um tapa, recebe-o de volta. Se você dá carinho, é com afeto que será tratado. É simples e básico. Apesar de faltar o carinho do meu pai, o da minha mãe preencheu essa lacuna. Na prática então, éramos felizes, apesar de tudo.

Por não ter tido a oportunidade de conhecer melhor meu pai, e que ele me conhecesse melhor, é que sei como serei com a minha filha Mariah. Me sinto no dever e no desejo de resgatar com ela, o que não pude ter com meu pai. Se Deus permitir, quero conhecê-la como ele não pode me conhecer em vida, compartilhar com ela todas as minhas conquistas e vê-la compartilhar comigo as suas. Pretendo sempre estar presente em sua vida como meus pais não puderam estar comigo e com meus irmãos. Enfim tentarei viver com ela, intensamente, o que gostaria de ter vivido com meus pais.

O assunto até pode parecer repetitivo em relação ao último post em que falei de amor incondicional. Mas eu quis, agora, inverter. Falar de amor de filhos para com os pais, que muitas vezes não é tão intenso como o inverso. E isso eu não pude ter na sua verdadeira essência. Eles se foram um pouco antes da fase em que os filhos geralmente deixam de ser apenas filhos para se tornarem amigos dos pais. E assim tornarmo-nos confidentes. Nós os amávamos, ou pelo menos achávamos que os amávamos. Mas não conseguimos conhecer, na época, esse real sentimento.

Hoje quero ser para minha filha mais do que meus pais foram para mim e tentarei aceitar que o amor dela por mim talvez não seja o mesmo que lhe dedicarei. Quero, no mínimo, repassar a ela os exemplos que meus pais me deixaram e que sempre me ajudaram a entender e a respeitar as relações humanas e seus sentimentos. Mesmo que eu ainda tenha muito de aprender com eles.

Amor incondicional? Agora já sei como é!

Amor incondicional Amor incondicional? Agora já sei como é!

Esse é o toque que mais seduz um homem!

Essa semana saí de uma entrevista em frangalhos. Foi sobre uma casal que, um mês depois do nascimento de seu terceiro bebê, uma menina, recebeu a notícia de que ela tinha morrido. Maria Vitória tinha nascido no dia 13 de dezembro, curiosamente um dia antes da Mariah, minha filha. Durante a entrevista não resisti e desabei junto com a mãe, enquanto a gravava remexendo as roupinhas da bebê no quarto que tinha sido decorado para ela. Por trás das câmeras, minhas lágrimas escorriam sem controle na mesma proporção das de Erika, a mãe inconsolável.

Naquele momento eu pensava que isso poderia ter acontecido comigo ou com qualquer outro casal. Afinal o que tirou a vida de Maria Vitória, pouco mais de um mês de vida depois, pode ter sido um problema congênito, misterioso, que se revelou depois do parto.

Ao sair da casa da nossa personagem, ainda comovido e abalado com a situação, peguei o telefone imediatamente e liguei para minha esposa para saber se estava tudo bem com a Mariah. E, como faço diariamente, agradeci a Deus por ter me dado uma criança perfeita, sem problemas e que estará ao meu lado até o fim da minha vida.

São detalhes como esse que me fazem entender hoje o verdadeiro significado do amor incondicional. Aos 26 anos de idade, ainda um jovem mas com a vida bem encaminhada na televisão, me lancei ao desafio de me unir a uma mulher, com a mesma idade que eu, e com duas filhas do seu primeiro casamento. De certa forma virei pai nessa idade pois as tratava (e é assim até hoje, 21 anos depois) como minhas filhas de verdade. Meu amor por elas sempre foi intenso, verdadeiro, sincero, assim como o delas por mim. Mas muitos amigos me falavam que eu só conheceria o verdadeiro amor incondicional quando eu tivesse meus próprios filhos, vindos do meu sangue, frutos de uma relação harmoniosa com alguém que eu amasse. E isso aconteceu recentemente. Mas contesto um pouco o que meus amigos diziam: eu já tinha um amor incondicional pelas minhas enteadas, mas só passei a compreende-lo melhor depois da chegada da Mariah.

Eu confesso que ainda não sei o que define exatamente o que é "amor incondicional" mas posso dar indícios. Quando cheguei em casa depois daquela entrevista, abracei e beijei minha filha como nunca. Quase a sufoquei nos meus braços para sentir de verdade que ela estava ali. E isso aos prantos. Quando a vejo chorar por cólicas (e isso acontece muito pouco), quase me desespero tentando fazer com que aquela dor que a incomoda tanto passe logo. Nas vezes em que fico imóvel, as vezes por mais de uma hora, velando seu sono tranquilo e olhando sua serenidade com pequenos sorrisos que escapam nesse momento, choro de felicidade por ter recebido uma benção tão grande. Sentir uma saudade imensa e vontade de ir embora pra casa depois de um dia de trabalho, é o mínimo que acontece diariamente. Faze-la dormir ou trocar fraldas então, não importa se é de madrugada ou segundos após eu me deitar, é um prazer que vence com folga meu sono e cansaço. Ter a impressão de que sou capaz de matar ou morrer por ela. Se tudo isso resume um pouco do que é o amor incondicional, agora sei o que significa.

Hoje também entendo melhor o que dizem sobre o relacionamento. Por mais repleto de felicidade e complexão que ele seja, aquela pessoa que a gente sempre amou fervorosamente passa para o segundo plano quando nasce um filho. E posso dizer isso abertamente aqui por que eu e minha esposa concordamos com isso. Sabemos que, se por acaso um dia (Deus queira que não) essa relação não der mais certo, uma coisa sobrará intacta: nossa filha Mariah. Ela sim existirá para sempre na vida de cada um de nós, por mais que sigamos rumos diferentes e nos casemos de novo.

Hoje compreendo que amar incondicionalmente é passar por cima de tudo por aquela criaturinha. É sentir um amor tão grande dentro da gente que chega a doer. E até dá medo de perde-lo. É entender que as coisas que fazemos na nossa vida só tem significado se, de uma certa forma, for voltado para ela. Se hoje eu procuro um carro melhor, não é para satisfazer meu próprio desejo mas sim de dar mais conforto e segurança a ela. Se pretendo me mudar para uma casa maior, é por causa dela. Se trabalho incansavelmente é para que ela tenha condições de ter uma vida que eu não tive. E se cuido mais da minha saúde hoje é para nada mais do que pode acompanhar seu crescimento, ve-la se tornar menina, adolescente, mulher e mãe. Perdi meus pais muito cedo e sei bem a falta que eles fazem na vida da gente.

Se tudo isso é amar incondicionalmente, descobri mais um dos poucos sentimentos que ainda faltam para que eu me sinta um ser humano mais completo. E se não descobrir outros, já me darei por satisfeito porque talvez tenha conhecido o maior deles, esse amor incondicional.

Me mostre o quanto buzinas e te direi quem és

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Buzina: um perigo nas mãos dos impacientes!

Desde que o automóvel foi inventado, ela faz parte das nossas vidas. Criada, inicialmente, como sinal sonoro de alerta para os pedestres e outros motoristas, sempre foi muito útil. Mas hoje, nas mãos de alguns imbecis impacientes, a buzina se tornou a coisa mais irritante e detestável que existe.

Dê um carro qualquer para um cidadão, daqueles que viram monstros no trânsito, coloque-o num congestionamento e veja do que a imbecilidade dele é capaz de fazer com a buzina. O cara acha que meter a mão no volante e apertar continuamente o dispositivo, vai fazer o trânsito andar. E, pior: ele não buzina para o cara logo à frente dele. A intenção, mais estapafurdia possível, é achar que vai chamar a atenção do carro que está lá na frente, na primeira fila do semáforo, 35 carros adiante!

É uma irritabilidade de dar nojo. Parece que o sujeito quer descontar toda a raiva na buzina. Se brigou com o patrão, mete a mão na buzina. Se brigou com a mulher, mete a mão na buzina. Se o trânsito para, mete a mão na buzina. Se uma pomba senta no capô, mete a mão na buzina. O camarada não sabe fazer outra coisa a não ser isso - meter a mão na buzina desenfreadamente.

E aqueles que, atrás de você no semáforo, mal esperam o sinal verde acender e dão aquela buzinadinha pra te "empurrar"? Calma camarada, o sinal acabou de entrar no verde! E nem quero falar dos que param na frente do prédio e ao invés de usar o celular pra chamar alguém, incomoda todos os demais moradores com suas buzinadas intempestivas.

Por causa disso tudo, do mau uso, o que era pra ser um item de segurança até, virou arma de chatice nas mãos de boçais. Será que eles pensam que buzinando dessa forma vão extravasar, desestressar, por os demônios pra fora?

É incrível perceber o quanto o ser humano se transforma no volante de um carro. E já tive provas cabais disso. Já vi amigos que, no ambiente de trabalho são dóceis, gentis e solícitos. Mas quando peguei carona com eles, me assustou o modo como o trânsito joga por terra toda aquela serenidade. Xingamentos, freadas bruscas, fechadas, disputa por espaço nas faixas, gestos obscenos. Parece que eles entram numa batalha onde só se salva da morte quem vence!

Voltando às buzinas, lembra daquele aviso "Proibido Buzinar, Hospital"? No dia em que minha filha nasceu, numa maternidade quase na esquina da Avenida Paulista, pude ver do quarto o quanto esses esse tipo de motorista não está nem aí pro alerta. Claro, não são punidos! Alguém já tomou multa por buzinar mais do que deve em lugar que não pode?

Essa coisa da "buzinação" compulsiva é mais uma atitude que me faz sentir vergonha de determinados cidadãos. Se eles dirigissem com a mesma habilidade com que, freneticamente, tocam suas cornetas, o trânsito seria bem melhor e bem menos barulhento!

Coragem é para poucos

Vitor Coragem é para poucos

A foto acima está circulando pelas redes sociais. Para quem não conhece a história, o rapaz aí chamado Vítor, de 21 anos, foi brutalmente espancado em Ilha do Governador/RJ, depois de tentar livrar um mendigo do linchamento. Os autores dessa barbaridade eram cinco jovens de classe média, na mesma faixa de idade. Cinco covardes que não contentes em espancar um mendigo, fizeram o mesmo com seu salvador. Cinco moleques que, talvez, nunca devem ter apanhado dos seus pais que, provavelmente, sempre os mimaram com tudo que estraga um ser humano. Cinco idiotas que vêem diversão na violência, como muitos dos jovens nessa idade que, sem a necessidade de ter de trabalhar, procuram no ócio e na vagabundagem um meio de vida.

Ainda não se conhece a história de Vítor, o que fazia e como ele é. Mas sua atitude diz muito sobre suas virtudes. Quantos de nós já deram as costas para mendigos sentados nas calçadas, que estavam apenas pedindo dinheiro? Quantos de nós já passaram reto por um pessoa que sofreu um desmaio na rua sem oferecer ajuda? Quantos de nós já viram um homem agredir outra pessoa e não deu a mínima, achando que aquilo era um problema particular? Quantos de nós já parou para pensar o quanto somos covardes em dar as costas para situações como as que citei?

Vítor Suarez, por sua coragem, não está nestas listas. Para ele, naquele momento, não importava se tratava-se de um mendigo, um colega ou um parente. Era um ser humano sendo espancado. E também não importava o motivo. Ele não pensou nas consequência e partiu em sua defesa, mesmo que já imaginasse que os resultado poderiam ser os piores, como foram. Talvez ele não se torne um mártir. Talvez ele não sirva de exemplo para muitos que acreditam que ele não deveria ter se metido na briga. Talvez a história dele seja esquecida em algumas semanas. Mas uma coisa é certa: nós, aqui com os nossos botões, vamos pensar, o resto da vida, sobre o que teríamos feito no lugar dele. E cada vez que nos olharmos no espelho vamos tentar imaginar se teríamos a mesma coragem.

Imagino que a resposta da consciência de cada um vai nos assombrar por um bom tempo. Pelo menos para aqueles que tem consciência e um mínimo de decência! Eu confesso: não sei se teria a mesma coragem de Vítor porque nunca passei por situação semelhante. Mas ele me inspira a tomar a mesma atitude caso seja preciso. Por isso o admiro e o homenageio nesse artigo.

Vítor, você é um vencedor e merece sim estar acima dessas fúteis celebridades que surgem do nada e, sem qualquer virtude, infectam nossas mídias diariamente. Que a sua coragem faça muita gente pensar o quanto são insignificantes.

A saga das sacolinhas

Sacolas plasticas  300x256 A saga das sacolinhas

E ai? Usar ou não as sacolinhas?

Outro dia falei aqui sobre o banimento das sacolinhas plásticas nos supermercados. Inicialmente, defendi a medida por acreditar que seria uma boa causa ambiental. Faço agora minha "mea culpa" e reconsidero o que eu disse. Andei lendo mais e conversando com mais especialistas imparciais sobre a questão e percebi que a coisa realmente não é bem assim.

É claro que devemos diminuir a quantidade de lixo que produzimos, principalmente de plástico, mas vamos analisar melhor os fatos.

A medida que retirou cerca de 2 bilhões de sacolinhas de circulação é válida para todo o estado de São Paulo. Não é uma lei, portanto, nem todos os supermercados são obrigados a aderir. O acordo com a prefeitura partiu da Associação Paulista de Supermercados que gastava cerca de 400 milhões de reais por mês com a compra das sacolas. Valor que, óbvio, sempre foi cobrado de nós consumidores junto ao preço dos produtos. Só que tirá-las de circulação não vai fazer a mínima diferença no nosso bolso. Mesmo que esse valor seja abatido na planilha de despesas dos supermercados e deixe de ser repassado para os produtos. Seria um desconto tão insignificante que gostaríamos de continuar pagando por elas.

Agora, preparando uma matéria sobre os reflexos e da repercussão da medida junto aos consumidores, percebo ainda mais que essa medida em nada vai ajudar o meio ambiente. Não pelo menos como apregoam. A população vai continuar consumindo plástico na mesma quantidade das sacolinhas, só que agora em forma de saco de lixo. E o que fazer com as sacolinhas de farmácias, sacolões, lojas, bancas de revistas, etc?

Sempre reutilizamos as nossas sacolinhas de forma inteligente - iam para as lixeirinhas dos banheiros e das pias de cozinha e para catar o cocô dos nossos animais de estimação quando saímos pra passear. Sem elas estamos fazendo o que? Comprando saquinhos de lixo para substituí-las. Ou, como já vi em alguns supermercados gente pegando os saquinhos de frutas e legumes e "mocozando" no meio das compras. Então, de uma certa forma, a quantidade de plástico no nosso lixo não diminuiu absolutamente nada.

Resumindo, e reforçando a "mea culpa" em relação ao artigo anterior, vejamos quem pode se estrepar com essa medida:
A - a indústria plástica que deixa de fabricar sacolinhas, que são mais baratas, mas passam a fabricar mais sacos de lixo, que são muito mais caros;
B - os supermercados que deixam de gastar 400 milhões de reais por mês;
C - o meio ambiente que vai ter de engolir a mesma quantidade de plástico que antes;
D - o consumidor que sempre pagou pelas sacolinhas, vai continuar pagando e ainda vai gastar com sacolas retornáveis, carrinhos de supermercado e caixas plásticas;
E - as duas últimas alternativas anteriores.

E há também um outro fato para o qual me atentei: quando levar as compras para a casa em caixas de papelão, o que muitos consumidores vão fazer? Para não comprar mais sacos de lixo, vão colocar o lixo nessas caixas e colocá-las na calçada pro lixeiro pegar. Se a chuva vier antes, tudo vai desmilinguir e se esparramar pela rua. Se o catador de papelão vier antes, ele vai revirar tudo na calçada pra levar a caixa e o caminhão de lixo não vai pegar.

Estamos entre a cruz e a espada. Usar as sacolinhas parece contra-ambiental, mas deixar de usá-las não vai mudar muita coisa. O que falta na verdade são políticas ambientais mais definidas, uma coleta mais eficiente e um descarte de lixo que realmente não venha prejudicar o meio ambiente. Adianta, em casa, eu separar o lixo orgânico do reciclável se no caminhão eles misturam tudo de novo e levam pro aterro?

Soluções existem mas falta boa vontade! O problema é querer isso das nossas autoridades... boa vontade!

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