Mudar é preciso. Sempre!

mudarvida Mudar é preciso. Sempre!

Desapegar-se de tudo é uma virtude.

Tenho quase cinquenta anos de idade e mesmo tendo trabalhado a vida inteira, hoje não tenho um imóvel próprio. É claro que já os adquiri algumas vezes mas acabei me desfazendo deles por motivos diversos - uma separação, um investimento que deu lucro, etc. Mas o principal motivo de não querer ser dono da minha própria moradia, o que é o sonho de milhões de brasileiros, é gostar de mudanças. E quando falo isso não me refiro apenas a de endereço, mas também a de ares, de bairro, de gente e de caminhos.

A obrigatoriedade de fazer todos os dias o mesmo trajeto, da casa para o trabalho por exemplo, me traz angústia. Por isso sempre procuro variar e independente da distância percorrida - se maior ou menor - gosto de fazer caminhos diferentes. É praticamente impossível fazer um novo a cada dia, mas procuro distanciar o máximo as repetições. Assim não vejo sempre os mesmo cenários, as mesmas casas, os mesmos semáforos, as mesmas pessoas. A possibilidade de ver coisas diferentes a cada dia é mais excitante.

Para muitos isso pode parecer uma grande besteira, mas na minha opinião a estratégia distrai, renova e faz com que não se crie apego às coisas. Hoje vejo famílias que moram a vida inteira num mesmo lugar, numa mesma casa, aquele onde os avós cresceram, os pais nasceram e agora abriga os filhos. Fico pensando se elas nunca tiveram vontade - um dia sequer - de mudar, ir prum lugar novo, ter vizinhos diferentes. Talvez elas gostem disso afinal, em muitos casos que conheço a imobilidade não é por questões financeiras nem de estrutura do bairro.

O apego é ruim. Seja a pessoas ou a objetos e imóveis. Porque quando se perde aquilo que se tem, contra a própria vontade, essa perda se torna mais dolorosa e por muito tempo indigesta, difícil de aceitar. Aprendi isso com o passar dos anos e com as perdas que colecionei durante a minha vida. Primeiro foi a morte dos meus pais que partiram muito cedo quando eu ainda estava na adolescência, depois a perda de um casamento e, em seguida, de um bom padrão de vida. Perdi amigos queridos, perdi oportunidades jogadas fora, perdi dinheiro. Hoje, bem mais maduro sei que as perdas ensinam mais que as conquistas. Ensinam, principalmente, o desapego às coisas.

O momento que vivo agora resume um pouco o que quero dizer. Pelo fato de não ter casa própria, posso me mudar de lugar a qualquer momento quando este não me agradar mais. E é o que estou fazendo - vou mudar de casa, de bairro, de cidade e me livrar do cheiro de apartamento antigo, das calçadas que não me agradam mais passear, do barulho incômodo das obras ao lado e dos vizinhos de alma carregada e estranha (salvo algumas exceções, claro). Vou respirar ar novo, descobrir as curiosidades do meu novo bairro, conhecer gente e caminhos novos. E assim como antes, sem apegos - quando me cansar, mudo de novo, me renovo mais uma vez.

Como diz o ditado "Pedra que rola não cria limo". Deixo o musgo para os acomodados.

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