Tráfico em área de UPP

As comunidades de baixa renda da Cidade do Rio de Janeiro, exceção feita a muito poucas, como Vila Kennedy e Cidade de Deus, apresentam uma realidade muito peculiar: a convivência, durante muitas décadas, com a ilegalidade e a informalidade. Parte das pessoas ocupou a terra de forma ilegal, depois, construiu suas habitações fora de quaisquer padrões urbanísticos, não respeitando a legislação municipal. E continuou a conviver com as ilegalidades: 'gatos' de luz, de água, gatonet, etc. Não fosse a omissão do Estado, as coisas poderiam ser muito diferentes.

Como já dissemos em outras oportunidades, a partir de determinada época, muitas comunidades passaram a ser os locais estrategicamente escolhidos pelos traficantes de drogas para estabelecerem o seu comércio ilegal, em especial, nas áreas com topografia mais acentuada - os morros, aproveitando-se da vantagem tática oferecida pela existência de postos de observação e de tiro, os quais foram sendo instalados nos pontos mais elevados e, portanto, mais privilegiados. A partir dessas posições, os delinquentes (um minoria no universo de cada comunidade) podiam rechaçar com grande vantagem os bandos rivais e, até mesmo, a própria polícia.

Não se pode esquecer que parcela de moradores dessas áreas, às vezes levados por laços consanguíneos (ou mesmo de outra natureza) com traficantes da sua comunidade, ofereciam (como até hoje oferecem) suporte logístico aos marginais, dando sustentação às suas atividades criminosas, não nos esquecendo, ainda, que parte do lucro desse tráfico sempre foi e é canalizado para o financiamento de "ações sociais" dentro da própria comunidade.

Portanto, a cultura existente há décadas nestas comunidades não irá mudar em pouco tempo, mesmo com a presença ostensiva e diuturna das UPPs. Nas comunidades onde o Estado se faz presente, o comércio de drogas, altamente lucrativo, teve o seu volume de vendas reduzido, mas este não acaba com a presença permanente de policiais; fica mais pulverizado - é o chamado tráfico "formiguinha".

Outra questão a ser observada, em especial no Alemão, é a grande extensão deste complexo, constituído por várias favelas, além da topografia acentuada e do próprio formato das habitações (becos, esquinas, laje sobre laje, etc.), o que dificulta a mobilidade e um efetivo controle por parte das forças de segurança.

a propósito, é lapidar e muito significativa a frase transcrita no livro recém-lançado sobre o Alemão, que retrata "Os 583 dias da Pacificação do Complexos da Penha e do Alemão" de autoria do Cel Ex Carlos Alberto de Lima: "O senhor vai ter que ter paciência. Não estamos acostumados com a lei..." (Depoimento de uma moradora do Complexo do Alemão em 19.12.2010, às 09h35min, para o Comandante da Força Tarefa Santos Dumont - Cel Barros)".