Querido Leitor

O assunto é delicado. De-li-ca-do. Eis uma palavra fácil de ser escrita. Ninguém erra. Mas vamos falar um pouco disso, de errar. No sentido ortográfico. Or-to-grá-fi-co. Ainda tem acento? Deve ter. É proparoxítona. Aliás, a palavra proparoxítona é autológica, ou seja, proparoxítona é proparoxítona, ao contrário de átona, que não é átona e, portanto, é heterológica. E vamos parar com essa loucura porque já é quase noite e o cérebro já está acordado há um bom tempo.

Meu trabalho aqui no R7 é vasto, abrangente e intenso. E olha que eu trabalho menos do que o pessoal que dá plantão, inclusive nos finais de semana. O que eu faço? Eu crio produtos de interface entre portal e TV, participo do grupo que cuida das redes sociais, faço o Querido Leitor, ajudo no pool que cuida dos blogs como um todo e, quando sobra um tempo, vou ler os comentários dos internautas. E quando eu digo comentários, eu digo ... dezenas de milhares de comentários. Só eu, apenas eu, euzinha, já li mais d e... 20 mil comentários em quatro dias. Não estou brincando. Descobri muito sobre o mundo, a vida, as pessoas, os internautas, os fãs, os leitores e, confesso, tem sido um banho de aprendizado.

Aprendi, por exemplo, que não devo nem ao menos citar exemplos. Porque se eu copiar aqui o pior erro do mundo em termos de língua portuguesa, alguém vai aparecer defendendo o direito da pessoa que cometeu o erro. Vai dizer que é errado eu trabalhar num portal e falar mal de um usuário que entrou no blog e nos deu hits. (Fato. Mesmo quem xinga dá audiência). Sempre vai ter alguém para defender o erro alheio. Sempre vai ter alguém para discordar, mesmo que o argumento não faça nenhum sentido, porque algumas pessoas precisam discordar de tudo.

Se um blogueiro publicar algo como "a água é molhada" ele vai receber críticas que vão desde "isso já foi publicado ontem e só você não sabia, seu burro atrasado" até frases como "a água é molhada aí na tua casa, mula,porque na minha é sequinha que só! kkkkk". Falar sobre isso é... chover no molhado.

Alguns discordam de tudo, outros concordam com tudo, outros apenas zoam das coisas. Há os que não sabem o que querem, não entendem o que dizem. E, claro, há pessoas incríveis, lúcidas, sagazes, que percebem até mesmo as mais estreitas entrelinhas. Esses, eu tenho vontade de abraçar. Gente atenta é o máximo.

Os erros de português, no entanto, são desprezíveis se comparados à riqueza que é este contato com os internautas em geral. Sim, porque os visitantes que passam por um portal, passam por todos. Ninguém navega em um mesmo site ou blog, todo mundo vai pra todo lugar. É o mar. É a navegação. É a vida. As pessoas estão sempre em movimento na rede. No máximo você pula de uma página pra outra, volta, mas estamos todos sempre em trânsito. Abelhas polinizando mídias, de blog em blog, de site em site, num vai e vem, num leva e traz, um zum-zum-zum de informações.

Neste sentido os comentários são demonstrações do estado de espírito das pessoas. Não como elas são, mas como elas estão se sentindo naquele momento. Se estão iradas, calmas, felizes, ansiosas, satisfeitas, irônicas, tensas. Em geral, as pessoas reagem de acordo com o que leem em cada blog.

Vou dar um exemplo. No blog do Dado Dolabella, as palavras são 'felicidade', 'te amo', 'boa sorte', 'casamento', 'bebê'.As reações são de afeto. No blog do Théo Becker, todo mundo diz 'iuhuuu rock and roll', 'esse é irmão desse', 'maluco', 'doido' etc. e tal. O blog da Chris Flores é todo leve, amoroso, cheio de elogios. As pessoas AMAM o programa. Em cerca de uma semana o blog recebeu mais de dez mil comentários.

O blog do Britto Jr. tem comentários sobre A Fazenda, ele, cidadania, filosofia. No blog da Fabíola Reipert há um fenômeno diferente. As pessoas chegam lá com a adrenalina a mil. O 'mood' é intenso, passional, porque ela fala sobre televisão. A televisão no Brasil é, de longe, o maior assunto de todos. Eu não saberia medir, mas acho que muita gente passa metade do dia vendo TV e a outra metade comentando sobre TV e sobre as pessoas que aparecem na tela. A televisão é assunto de todo mundo. Como se o tema fosse descendo do alto da pirâmide, desde o Olimpo da TV, passando pelos rádios, pelas revistas, jornais, Internet e, finalmente, ganhando as conversas nos bares, no trabalho, nas ruas. Entre o céu e a terra, naquele espaço onde residem os mistérios que nossa filosofia vã não é capaz de supor.

Num salão de beleza (fui hoje) você vê gente assistindo TV, lendo a Caras e falando dos famosos.

Eu também falo, não tem nada de errado. Eu trabalho nesse meio há tanto tempo que já nem me lembro de quando não era assim. Só sei que, apesar de tudo, tenho conseguido entender um pouco melhor o ser humano. Não muito, mas um pouquinho.

Já é um bom começo.

PS - Não sei como estava seu estado de espírito quando você entrou aqui. Tomara que você saia melhor do que chegou. icon smile A vida, o mundo, as pessoas, a Internet e tudo mais Hope so.

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