Querido Leitor

4 de novembro de 2009 às 10h54

Desconforto

saltaoanabelaround Desconforto

Eu não sei por que tantas mulheres fazem isso. Eu também faço. Ou, pelo menos, me vejo em situações de extremo desconforto voluntário, momentos de sofrimento físico por conta da minha cabeça sem nexo.  No meu caso, tem relação com a  horrível tendência que tenho para engordar. Agora, por exemplo, estou numa fase péssima de sobrepeso. Sei exatamente o que causou essa perda de controle emocional e entendo que tenho que ter paciência e coragem para voltar a ser magra. Fato é que, por causa desse fato, minhas roupas estão apertadas. E não há nada mais desagradável do que uma calça que aperta na cintura. É uma tortura para quem usa um jeans que incomoda. Sem contar  o estresse físico do zíper e do botão.

Infelizmente, meu sentido de autoflagelação me impede de comprar calças novas quando estou gorda. Primeiro porque eu acredito que vou voltar a caber nas calças dos cabides. Segundo porque tenho um sentimento de que 'não mereço' roupas novas e confortáveis. E assim, continua o ciclo de sofrimento. E não adianta vir com racionalidades, porque minhas loucuras são mais poderosas. Eu sei raciocinar. O que eu não sei é cuidar de mim mesma. Fim do capítulo calça.

Outra fonte de desconforto que é de MATAR é sapato. Eu não uso sapato desconfortável, odeio machucar o pé. Já passei por circunstâncias horríveis quando trabalhava como repórter e usava sapatos do figurino. Cheguei a sair de um evento com o sapato na mão. Atravessei todo o Shopping Iguatemi descalça, até o outro lado do estacionamento, para garantir ao menos que eu teria um par de pés para o dia seguinte. Sapato novo, apertado, horrível. Quem projeta esses assassinos?

Além das roupas que marcam, apertam, sufocam, dos sapatos que machucam, há outro quesito: a inadequação. A coisa mais importante do mundo é ser adequado. Vestir-se de forma adequada é pensar de forma holística, respeitando a si e aos outros no seu microcosmo. É não incomodar ninguém, não chamar a atenção demais, não sofrer, não causar problemas para si e para as pessoas a sua volta. Exemplo: andar nas calçadas quebradas das ruas das cidades. Quase todas, eu diria. Eu já vi uma amiga pedir ajuda para poder ir até o restaurante à pé. O amigo segurou o braço para que ela se equilibrasse na sandália.

Esta  foto acima despertou em mim o desejo de fazer este post. Num dia qualquer,de uma rua qualquer, duas mulheres se cruzam numa calçada paulistana. Uma está com um sapato baixinho, ótimo para andar. A outra usa um salto muito alto, mais de dez centímetros. A sandália é anabela, inteiro e, para piorar, não é flexível, é de madeira rígida. A sandália 'come' a barra da calça, que entra sob o calcanhar. A moça tem muita dificuldade para andar. Na verdade, ela não consegue andar. A calça é muito, muito justa. Me identifico com seu sofrimento, porque ela também está acima do peso. Talvez tenha engordado recentemente e tenha o mesmo problema de esperança que eu tenho. Acompanho seu caminhar. A cada dez ou vinte metros, ela para. Tenho vontade de conversar com ela, como amiga. De me confessar, de saber se temos as mesmas dificuldades humanas.

Olhando de fora, analisando friamente, dá vontade de criticar. Mas só quem está do lado de dentro de um jeans torturante, ou sobre saltos que nos flagelam, sabe o que nos leva a fazer coisas estúpidas assim. A insegurança. A gente fica gorda e acha que uma roupa justa vai disfarçar. Ou que ficando mais alta, com um salto maior, a proporção vai melhorar a aparência. Como se alguém fosse ligar pra gente. Como se o julgamento dos outros fosse tão importante. Como se qualquer aprovação valesse o sofrimento de não poder andar ou respirar.

Somos muito inseguros, todos nós. Carentes, em busca de amor, aprovação, elogios. Medrosos, tentando evitar o mal que há nos outros. Vaidosos, porque não conseguimos rir dos nossos próprios defeitos e dificuldades.

Hoje, eu estou de salto. Mas é um sapato confortável, que me deixa feliz. Estou de vestido. Largo e muito gostoso de usar. De rabo de cavalo, para deixar a nuca livre num dia de calor. Hoje eu estou feliz. Estou bem. Não preciso me punir por nada, nem me autoflagelar. Porque eu sei que a vida é passageira, que o mais importante é a saúde, que o mais difícil de tudo não é vencer na vida para ficar rico e famoso. O mais difícil de tudo é aprender a ser humilde,  vencer o ego, não ter inveja e respeitar todos os seres do planeta.

Duro é vencer o monstro que habita em nós, ora tentando aniquilar o outro, ora aniquilando a nós mesmo.

Eu não sei como matar o monstro. Mas tenho certeza que para enfrentá-lo precisamos de roupas mais largas e sapatos mais baixos.

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