Rosana Hermann – Blog Querido Leitor  – R7

12 de novembro de 2009 às 09h25

Câmera

Ao longo dos muitos anos em que trabalho em TV já vi isso acontecer incontáveis vezes. E, claro, com a democratização dos recursos digitais todos nós vemos isso acontecer o tempo todo, o fenônomeno da transformação diante da lente. Da lente da câmera.

Você conversa com a pessoa antes da entrevista e ela é uma pessoa normal, que conversa, ri, fala bobagem, erra, acerta. Ligue a câmera e você verá aquela pessoa tão natural desaparecer. Em seu lugar surgirá uma outra criatura, mais plástica, mais tensa, meio fake, que tenta falar bonito, sorri além do necessário e, eventualmente, apresenta alguns trejeitos exagerados. Esse personagem que surge diante da lente. Quem é esse personagem? De onde veio?

Veio da sua cabeça. Da sua insegurança, dos seus desejos, do que você imagina sobre si mesmo. Esse personagem pode ser mais ou menos descrito como "nem a pessoa que você é, nem a pessoa que você gostaria de ser, mas a imagem que você gostaria que os outros tivessem sobre você."

Assim, a pessoa que sabe que os outros a julgam antipática, tenta ser simpática diante das câmeras. A pessoa irritada, nervosa e agressiva, muitas vezes, representa a boazinha de fala mansa. O ignorante tenta parecer culto. O culto tenta parecer cool. E assim por diante.

E, claro, há também o nervosismo natural de enfrentar um momento que não passa, pois vai ficar registrado. E o resultado estará fora do seu controle.

Sim, há exceções, mas a regra é tão ampla que atinge até crianças. Ligue a câmera do celular para gravar uma criança e veja como ela fica agitada, excitada, acima do nível natural.

Qual a importância disso? Não sei. Mas minha intuição me diz que num mundo em que as câmeras se fazem cada vez mais presentes, é preciso aprender a ler esses resultados.

Talvez as unicas imagens naturais sejam aquelas captadas pelas câmeras de segurança, ocultas, quando não vemos o olho da lente. Essas, sim, mostram as coisas como elas são. Porque, alguma coisa acontece quando o olho humano sabe que o olho de outro humano está olhando pra ela por uma lente da câmera. E essa consciência de estar sendo olhado o tempo todo, gera uma excitação nervosa que altera o resulstado.

Olho no olho, só sem aparelhos no meio.

Bom dia.

comentarios-icon8 Comentários »
Um beijo, um browse, um aperto de mouse da @rosana
  • Twitter
  • RSS
  • Facebook
Ir para a home do site
Todos os direitos reservados - 2009-2011 Rádio e Televisão Record S/A