27 de novembro de 2009 às 13h30
Ibope em tempos de redes sociais
Eu acho impressionante a força da marca Ibope. Ibope virou palavra da língua portuguesa, assim como Gillette ou Havaianas. Todo mundo fala 'Ibope' pra designar audiência, sucesso, repercussão, fama. E o que é este termo Ibope que usamos? São os números medidos pelo minuto a minuto, em tempo real, das audiências de TV, de duas grandes capitais, São Paulo e Rio de Janeiro, como você certamente já sabe. E, sem querer ser bairrista, das duas, a audiência que mais 'repercute ' (ô termo chato) é o 'Ibope' de São Paulo.
Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística - IBOPE. A empresa tem 67 anos e " é líder em medição de audiência de TV e Rádio no Brasil e na América Latina", segundo seu próprio site. True.
No momento, que eu saiba, o Ibope não tem concorrentes ou equivalentes. Confesso que isso sempre me intrigou, porque, que eu saiba, no Brasil não pode ter monopólio. Pelo menos todas as vezes que a Nestlé tentava comprar a Garoto o CADE ia lá e alegava isso. E vou parar por aqui, porque se tem um assunto que eu não domino é esse vasto campo da economia, entre muitos outros assuntos. Aliás, quanto mais eu vivo mais eu descubro que não sei nada. Beijo pro Sócrates. (Aqui, uma pausa pra uma piada imbecil, caso alguém esteja interessado. Clique aqui)
Hoje, lendo o blog do Daniel Castro, vi um post sobre o Ibope e os peoplemeters, os 'escolhidos' para compor o mais seleto grupo de 750 lares que assinam contrato de sigilo durante anos, responsável por grande parte do investimento em propaganda e publicidade no Brasil.
Não vou entrar na discussão estatística sobre a representatividade de 750 casas face 200 milhões de habitantes. Mesmo porque já conheço o contra-argumento, aquele que diz que basta pegar algumas gotas de sangue como amostra para analisar as condições de saúde do corpo inteiro. Eu ainda tenho aquela visão antiga do conto dos sete sábios cegos e do elefante, ou seja, que dependendo da parte que você analisa você pode tirar uma conclusão diferente sobre o todo. Mas a metáfora holística dos exames de laboratório é boa mesmo. Até por um fio de cabelo dá pra saber o que a pessoa anda ingerindo.De qualquer forma, o escopo do post (bonito!) é outro: o sigilo do Ibope em tempos de redes sociais.
Como é que 750 famílias e TODOS os seus relacionados conseguem guardar um segredo, num mundo onde todo mundo conta tudo na Internet e ainda tem ferramentas de anonimato para contar o que não contaria com seu nome próprio?
Fico intrigada. Porque nem você, nem eu, nem ninguém conhece uma dessas famílias que têm um peoplemeter em casa. Eu só conheci, num outro emprego, uma pessoa que jurava que a vizinha tinha. Mas eu não sei quem é a vizinha, portanto, tecnicamente, continuo não conhecendo ninguém que tenha.
Se cada família tem, em média, 4 integrantes, o universo de 750 lares corresponde a 3 mil pessoas.
Além dessas 3 mil pessoas que veem o aparelho em suas casas, ou sabem que fazem parte desta base, deve haver outras pessoas que orbitam nesses espaços. Parentes, amigos, prestadores de serviço, empregados. Vizinhos que perguntam, amigos dos amigos. Mais todos os técnicos que um dia entraram para consertar a TV, a TV a cabo, a Internet. Vamos chutar, baixinho, mais mil. São 5 mil.
Além dessas 4 mil pessoas em São Paulo, tem todos os funcionários do Ibope. Por exemplo, os que vão resetar as maquinetas em tempo de apagão telefônico (veja no blog do Daniel Castro, de novo, se quiser) mais todas as outras pessoas que sabem disso na empresa. E os ex-funcionários. Vamos fechar em 5100 pessoas.
Se 5.100 pessoas sabem quem tem esse medidor, que determina o destino de toda a TV Brasileira, toda a verba publicitária e boa parte de todas as transações envolvidas na grande indústria da mídia, como é que NEM UMA jamais publicou nada em nenhuma rede social? Nem em blogs, nem no Orkut, nem no Twitter, nem no Facebook? Nem na Internet inteira? Eu ach oisso louvável, sério. Apenas não compreendo como é possível.
Nesses 67 anos, além de ter desenvolvido um dos mais consolidados Institutos de Opinião Pública o Ibope também deve ter redigido o melhor contrato de todos tempos. Queria conhecer as cláusulas que existem para quem quebra o sigilo. (Vou mandar um email pro Flávio Ferrari, que conheço e respeito, meu amigo!)
Ou isso ou o ser humano realmente é capaz de guardar segredo.
Pelo menos um.
PS - Curiosidade sobre o comportamento humano: quase todo mundo acredita no Ibope quando está ganhando e desacredita quando está perdendo. E isso não é segredo...










