6 de fevereiro de 2010 às 12h40
O diploma
Na parede do meu escritório tem um pequeno sofá, bem velho, do tipo que a gente tem preguiça de mandar forrar e acaba cobrindo com mantas coloridas. Sobre ele, na parede, alguns certificados de cursos e meu diploma de bacharel em Física pela USP. O diploma é antigo, está escurecido pelo tempo. Tem um selo dourado pomposo e assinaturas de pessoas que nem sei se ainda vivem. Pouca gente o vê e não tenho nenhum uso para ele a não ser o decorativo.
Para fazer meu registro na FAAP como professora, porém, o MEC exige documentação de curso superior. Meus documentos da USP referentes aos dois anos de pós-graduação estão perdidos na casa, se é que ainda existem. Surgiu aí o problema: como tirar cópia autenticada do diploma emoldurado em vidro duplo? Simples. É só ir até uma loja de molduras, desemoldurar o certificado, levá-lo até o cartório, tirar a cópia, autenticá-la, voltar para a loja de molduras, emoldurar o diploma novamente e levar as cópias na secretaria da FAAP. Simples, não? Mas...e o tempo que isso consome?
Não tenho ninguém que possa fazer tudo isso por mim e não tenho tempo de fazer tudo isso por mim mesma. E, quando tenho o tempo, uso-o para outras coisas que tenho que organizar. Acredite, são muitas.
Hoje resolvi fazer a primeira parte. Tentei tirar a moldura em casa, sem sucesso. Cheguei até a parte da chave Philips e tudo mais, mas fui barrada pela estrutura metálica que não saía. Arrumei uma bolsa grande para colocar o diploma emoldurado com os parafusos semiarrancados e fui até uma loja de molduras. O rapaz, lento e cuidadoso, tirou o diploma de dentro, cortou papelões de suporte, colocou o diploma dentro da pasta improvisada e ficou com a moldura lá. Eu, que estou gorda e infeliz por isso, resolvi ir a pé até o cartório para me exercitar. Fui.
Faz um sol escaldante em São Paulo, meu bairro está um forno, o caminho é cheio de subidas e descidas. Com dor na perna, sono, cansaço, caminhei e pensei no quanto eu preferia estar numa piscina nadando e tomando sol em vez de estar resolvendo burocracias. Poxa, eu tenho cinquenta e dois anos de vida e trabalho e ainda continuo no mesmo yadda-yadda; sempre eu, sempre os compromissos, sempre tudo. Chorando de barriga cheia no belo bairro de Higienópolis, com saldo positivo no banco e perspectivas maravilhosas de viagens próximas, a madame reclamenta chegou ao cartório.
O cartório estava cheio. Tinha fila. Senha. Caras feias. E muito calor. Os donos do cartório resolveram levar as crianças da família, pelo que notei. Um menino de uns cinco anos estava no computador, outro correndo entre as copiadoras. Senhoras se abanavam, bebês choravam, delícia total. Ouvi uma mulher comentando que dois funcionários tinham faltado. Lindo, pensei. Vou passar o sábado de sol na fila da xerox. Finalmente fui atendida. O rapaz devia ter mil motivos a mais do que eu para estar de saco cheio. Minha formação uspiana esquerdista logo tentou justificar a cara feia do atendente pelo provável baixo salário que ele recebe. Meu lado burguês moderado, porém, argumentou:
- Ué, mas o rapaz da moldura não deve ganhar nenhuma fábula e foi gentil, atencioso e dispensou todo carinho do mundo com o diploma e comigo. Não é questão de salário, mas de personalidade.
Entre devaneios e argumentos de luta de classes, o rapaz me atendeu. Pegou meu diploma como se fosse um trapo, enfiou-o numa máquina e começou a tirar as três cópias que pedi. Vi a primeira cópia saindo, escura, horrível, em preto e branco, num sulfite A4. Interferi:
- Moço, por favor, as cópias não são grandes e coloridas? Eu vim aqui há duas semanas e perguntei se vocês tiravam cópias de diplomas grandes e me disseram que sim.
O troglodita retrucou com aquele ar machista de superioridade ao falar com uma senhora de meia idade:
- A senhora não deve ter vindo aqui não, porque a gente só tem essa e só tira desse jeito e se quiser. Se não quiser vai na papelaria e tira outra.
Coincidentemente eu não havia levado meus dardos mortais, nem minha zarabatana envenenada ou minha UZI israelense na bolsa, contando apenas com minha boca e meu vocabulário para responder à altura.
- Eu vim aqui, perguntei e me garantiram que as cópias eram grandes. Mas já que você só tem essa pequena, poderia pelo menos calibrar a máquina para fazer uma cópia mais legível?
O ogro chefe da legião da má vontade não fez por menos. Parou o trabalho e veio dizer que estava legível e blá-blá-blá. Desisti. Mandei fazer do jeito que desse e pronto. Abrindo e fechando a maldita tampa da copiadora, amassando uma ou outra folha e quase estuprando meu adorado diplominha, ele continuou seu calvário. Pegou as cópias, autenticou como quem rabisca um atestado de óbito do Saddam Hussein e me entregou as três folhas de papel, com o aviso de cobrança de quinze reais. Quinze reais por três folhas de sulfite A4 com um carimbo e uma assinatura em cada. Peguei as folhas e disse:
- Posso pegar meu diploma dentro da máquina pelo menos?
Fui, peguei, paguei e saí pisando duro com muita raiva. O sol queimando meus miolos, o tamanquinho de borracha esquentando meus pés, o incômodo do calor, do suor, da ira. Voltei até a loja de molduras, deixei os vinte reais pagos e devolvi o diploma para ser emoldurado novamente. Vou buscá-lo mais tarde.
Voltei para casa, peguei o carro e, ao começar o trajeto até a casa da minha mãe em Guarulhos, o aviso no rádio: marginal Tietê totalmente congestionada, nos dois sentidos por causa de obras. Dei meia-volta e desisti de tudo. Depois eu pego o diploma, depois eu levo a cópia na FAAP, depois eu visito minha mãe, depois eu levo o engradado, depois eu conserto o porta-retratos eletrônico que dei pra ela. Depois eu faço meu currículo, assino e tiro cópias. Depois eu produzo e edito os doze quadros que gravei. Depois eu atualizo o blog Skype, publico os posts, converso com Londres. Depois eu preparo minhas aulas de sexta-feira. Depois eu arrumo a mala e separo as coisas pra ir pra Houston. Depois eu respondo os 761 emails da minha caixa postal.Depois eu faço tudo o que tenho que fazer. Agora eu vou terminar este post e jogar uma partida de Arachnid no PC.
E pedir aos céus um pouco de paciência.
Por enquanto, obrigada pela visita. De coração.










