8 de fevereiro de 2010 às 17h37
Banzo
Nos anos 70, quando morei no Canadá, eu era pobre. Pobre não é miserável, é pobre. Montamos nosso apartamento com alguns móveis dados, outros que pegamos na lixeira do prédio. Lixeira de prédio no Canadá não é lixão, como em 'Ilha das Flores'. As pessoas jogam fora coisas em bom estado. A lixeira do meu prédio estava mais para um mercado das pulgas, uma loja de móveis usados.
Tínhamos poucos móveis, poucos recursos, pouco dinheiro. Eu e minha irmã tínhamos pouquíssimos discos. Por isso ouvíamos os mesmos discos o tempo todo, sem parar. Eu, que aprendi inglês como segunda língua durante esses dois anos em que frequentei a escola, ouvia sempre as mesmas canções. E por ouvir as mesmas canções, aprendi todas as letras. E por ouvir sempre as mesmas letras, acabei interpretando cada frase a fundo.
O LP de Simon & Garfunkel com "Bridge Over Troubled Water", "The Boxer", "Cecilia" . Canções do Guess Who (sei até a 2a. voz de 'No Sugar Tonight/New Mother Nature', decorei 'Talisman',' Raindance', 'These Eyes', 'Undone', etc). E, claro, American Woman. Eu me acabava cantando American Woman aos berros.
Não sou saudosista, mas tenho saudades do tempo em que eu cantava como uma louca, dançava como uma louca e era... loucamente livre e feliz. Sou livre, sou feliz.
Mas tenho saudade da minha loucura.
Deve ser por isso que estou indo pra Houston.
Pra cantar em inglês, ler no avião, sentir frio e lembrar que o universo é tão infinito quanto as possibilidades que temos na vida.










