Querido Leitor

10 de março de 2010 às 12h48

Sobre bancas de revistas

Todo mundo gosta de ver bancas de revistas. Eu também. Durante muitos anos as revistas importadas eram um sonho pra mim. O preço era o fator limitante. Quando ainda era estudante, eu juntava o dinheiro que sobrava para comprar uma ou outra revista. Cada uma era guardada como um tesouro. Eu lia a revista de ponta a ponta, quase decorava seu conteúdo. Algumas revistas recebiam tratamento de livros. Livros, pra mim, sempre foram sagrados.

O mundo mudou. As revistas mudaram. As editoras também. Hoje tem muita gente que publica livros  tão descartáveis quanto  jornais diários. São feitos apenas para atender a indústria da fama. O artista  está em alta, o nome está 'marketado' e a editora procura a pessoa pra produzir um livro, como se fosse qualquer outro produto licenciado. Livros como nuggets.  São livros de receitas, citações, piadas, fotos. São livros escritos por ghost writers.

Para vender esses 'livros de  oportunidade',  as editoras contam com o desejo que o público tem de estar perto de seus  ídolos. Os fãs vão a todas as noites de autógrafos  para, digamos, comprar o autógrafo e o direito a uma foto, um sorriso e uma palavrinha com o artista amado.  Não é nem certo nem errado, é assim.  Pouca gente se importa com o conteúdo do livro. O que conta é a 'glamour' da ocasião. Ponto. Tive a oportunidade de conviver brevemente com este mercado e sei como funciona. No fundo a opção é nossa. O importante é ter informação para não ser iludido, embora eu acredite que o maior mercado é mesmo o da ilusão.

Ao mesmo tempo que os livros com efemeridade de revista  invadiram o mercado, as revistas tentam assumir status de livro. Há anos existe noite de autógrafo de revista masculina. Talvez seja a única chance da editora vender.

Claro, elas vivem de assinaturas. Mas, segundo os donos de bancas, as vendas caíram muito com a Internet.

Hoje, visitei algumas bancas de revista e conversei com seus respectivos donos. Um deles disse que vendeu uma única revista Playboy este mês. E que, no mês passado, vendeu duas. Uma outra senhora disse que não vendeu nenhuma no mês passado. Este mês vendeu uma só.  Ela disse que recebe dez a doze revistas  por mês e vende, em média, três. O máximo que já vendeu foram oito. Segundo ela, eles fazem muitos eventos para tentar vender. Mas o que conta é o assinante. A senhora, aliás,  disse que hoje ela vive dos extras, dos doces e balas, dos produtos que oferece na banca. Que se dependesse só dos títulos, passaria fome.

Um outro dono de banca disse que as editoras tentam fazer muita 'mídia' para vender as modelos, mas que hoje o que vende são as boas reportagens.

A mídia vende ilusão. A realidade está ali, na ponta da linha, no bolso do cidadão. O silicone, o photoshop, os assessores de imagem, criam um personagem para cada pessoa. Inventa-se uma profissão, uma personalidade, uma embalagem.

Tudo, todos, tentam ser mais do que são. A verdade não pode e não deve ser mostrada, embora esteja sempre disponível para quem a procura.

Quem procura verdade, acha.

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