30 de maio de 2010 às 10h21
O novo velho filme de Woody Allen
Sou fã de Woody Allen, ou melhor, de sua obra. Como qualquer pessoa que segue de perto a carreira de um artista, tenho minhas opiniões sobre suas atitudes, embora saiba que isso não faz a menor diferença para o universo ou para ele. Fazer o quê, eu nunca aceitei que ele se casasse com sua enteada, mesmo sabendo que Mia Farrow era uma passiva-agressiva do pior tipo.
Ontem fui ver o filme novo do diretor, Whatever Works, traduzido daquele jeito capenga como "Tudo pode dar certo". Para usar a linguagem do filme, nota 6. E sendo boazinha.
A cópia do filme que vi no Shopping Pátio Higienópolis estava escura, com uma textura granulada horrível. A
sala pequena, repleta de adultos maduros como eu, deu algumas boas risadas, especialmente durante as piadas e referências judaicas tão caras a todos nós. Mas não gostei de várias coisas, começando com o ator que faz o alterego de Woody Allen, Larry David.
O cara tem credenciais. Ator, diretor, roteirista, criador de muitos episódios de Seinfeld, entre tantas outras coisas. Mas como ator, neste filme, está péssimo. Até a primeira metade do filme dá vontade de ir embora, de tão ruim que ele é. Talvez porque ele esteja usando "duas roupas" como ator, vestindo dois personagens: ele é ele, fazendo o papel de Woody Allen, representando o personagem que Woody faria.
A segunda coisa que me desagradou de cara foi a ideia nada original, infantil e imbecil de colocar os atores conversando com a plateia, numa metarrealidade meta-realidade (Ednucci, hífen ou dois r's? Ah, obrigada, dois erres.) como se alguns deles soubessem que tem "gente assistindo no cinema".
A ideia é muito recorrente, já foi usado até nos comerciais do próprio cinema. Eu mesma vi um comercial desses outro dia, com os atores conversando sobre pipocas e celulares. É pouco para quem já criou momentos inesperadamente criativos brincando com a linguagem de cinema, como o "Daddy is out of focus" (Desconstructing Harry). Um ator que fica fora de foco nas filmagens é uma coisa muito inteligente, divertida e criativa.
Da metade para o fim o filme melhora. As transformações e liberações dos personagens, a discussão sobre sexo e religião, a graciosidade da burrinha loira e lindinha muitas vezes presente na obra do diretor, compensam o preço do ingresso.
Saímos do cinema conversando sobre Woody Allen. Talvez os 74 anos estejam pesando. O medo da morte, a revisão da vida, a descoberta de que não se pode levar a vida de uma forma tão pesada, influenciaram o filme. Quem sabe ao discutir sua própria misantropia, neurose, paranoia, azedume, Woody esteja concluindo algo sensacional, que todos devemos aprender o mais cedo possível na vida: whatever works is fine. Qualquer coisa que funcione, que resolva, que nos agrade, que dê prazer, que seja sincera, vale.
Nesse ponto, concordo com ele: qualquer coisinha pequena vale para ser feliz.
Qualquer maneira de amor vale a pena, qualquer maneira de amor vale amar.
Mas isso, eu já tinha começado a aprender com o Clube da Esquina.










