27 de junho de 2010 às 17h46
Muito prazer, furadeira

Todo mundo segue o conselho socrático do autoconhecimento, basta ver o incrível número de pessoas que fazem testes do tipo 'quem é você no sei onde'. Eu também quero me conhecer, principalmente para descobrir por que repito tanto os mesmos erros, por que as mesmas situações absurdas se repetem na minha vida.
Eu sempre me sinto injustiçada, em parte porque sou paranoica, e em parte porque vivemos num mundo cheio de oportunistas e aproveitadores mesmo. Tenho incontáveis exemplos ao longo de todos esses anos de vida, muitos dos quais você, que é leitor do blog, já acompanhou. Pessoas que roubaram meus posts gratuitos para fazerem suas colunas (e ganharam dinheiro com isso), pessoas que atribuiram minhas crônicas a outros autores só para roubar a autoria, e muitos que se aproveitaram das coisas que fiz, divulguei, ensinei, sem crédito algum pra mim. Se isso não fosse ruim o suficiente já que vivo disso, toda vez que eu reclamo porque alguém roubou um texto que eu escrevi, ainda vem alguém pra reclamar de MIM! Em geral essas pessoas alegam que estou fazendo um escândalo 'só porque a pessoa me roubou'. Que mundo esse, onde quem rouba está certo e quem reclama que foi roubado é o chato. Mais alguns anos e vão prender as vítimas de assalto por desacato ao ladrão.
Hoje, graças a D'us, tenho uma condição absolutamente privilegiada no meu trabalho. Meu chefe reconhece meu valor e me dá crédito pelo que faço. Mais além, meus colegas e pares me tratam bem e me respeitam, exatamente como eu sempre respeitei todo mundo. Sou muito grata por isso.
Nem sempre foi assim. Ao longo das décadas, e em muitos empregos, eu fui um ser invisível e nunca consegui solucionar a equação. E, nesse tempo, tenho visto muita gente picareta também. Palestrantes que pagam para que outras pessoas façam suas palestras, famosos que escrevem livros com ghost writers, blogueiros que ficam famosos como blogueiros e que não sabem fazer um post. Eu entendo e acho justo que um ator pague alguém pra fazer seu blog, já que ele não tem obrigação de entender de web. Mas um escritor que não escreve, um palestrante que não faz as próprias palestras, é como um cantor que usa um clone em seu lugar. São pessoas que não tem o menor conhecimento das áreas em que ficaram conhecidas. Muitos são premiados por coisas que não entendem e não fizeram É de matar. Mas é assim que o mundo funciona. O mundo não é baseado no que é, mas no que parece ser. Curiosamente existe muita gente disposta a ser enganada e o máximo que podemos fazer é desenvolver a consciência pra não entrarmos pro grupo dos iludidos.
Em pleno inferno astral e já tendo desistido de mudar o mundo, resolvi apenas entender o processo que se repete comigo. A meta agora é aplacar minha ira, é sossegar minha alma. Conformar-me e aproveitar a vida em paz.
Na semana passada, eu estava na antessala de um consultório, pensando em todas essas coisas e brincando com meu iPad. Uma mulher muito bonita e bem arrumada pediu para vê-lo. Fiz uma demo toda entusiasmada e comecei a conversar com ela. Ficamos quase uma hora conversando, como se fossemos amigas antigas. Falei dos meus sentimentos e ela foi me dando toques muito legais. E, no meio da conversa, ela me disse:
- Você gosta de aprender e de ensinar. Você é curiosa e quer descobrir como fazer as coisas .Mas as pessoas não querem uma furadeira. Elas não querem a ferramenta pra fazer nada. Elas só querem o prego na parede. Só querem o furo. Tanto faz como o furo é feito. E você é a furadeira. Você é a pessoa que faz.
Aquilo me pegou. Porque tenho um histórico de vida com esse assunto. Meu avô era um artesão. Meu pai consertava tudo. Desde os quatro anos eu lido com ferramentas. Eu amo as ferramentas. Sou eu que cuido delas em casa. Eu sou o processo, eu sou o peão, o ser que vai lá e conserta, que arruma, que faz. As pessoas não têm olhos pro processo. Elas pouco se importam com quem lava, passa, cozinha, pinta, lixa, fura, varre. Elas só querem ver o resultado. Eu transferi isso para o mundo dos 'tools', das ferramentas online. Mesmo sem conhecimento formal eu sei fazer tudo no blog, procuro no código fonte, escrevo alguma coisinha em html (ficou veeeelho...!). E, o que adquiri na Física, na época em que aprendi a programar, eu adapto. Sei mexer com pesquisa web, com operadores booleanos. Sou a rainha do toolbox.
Numa escala bem mais idiota, a mesma coisa está acontecendo esses dias na minha vida social online. Por mera curiosidade minha, resolvi procurar pessoas para descobrir como subir avatares animados para o Twitter novamente. E como fazer o sidebar transparente. Descobri e publiquei aqui como fazê-lo. E o que aconteceu? Tive que fazer OITO avatares pra mim, porque toda vez que eu adaptava um, alguém vinha e pegava O MEU. Mesmo eu ensinando como fazer um, com qualquer um dos infinitos avatares da rede. Ninguém queria usar a furadeira, roubavam meu prego e penduravam seus quadros no meu parafuso já pronto. Na natureza tem um passarinho assim, que rouba o ninho pronto que o outro constrói. No Twitter, esses passarinhos devem ser muito comuns.
Pra coroar de glória a tese de que 'bonzinho só se fode', pardon my French, uma menina, sem nenhuma intenção, na boa, pegou meu avatar animado pra ela. Como eu tinha apego pela máquina de escrever do farofa.com.br que uso há 8 anos, pedi pra ela não copiar. Ela disse que queria um parecido. Fui fazer uma lista pra ajudá-la, mandei pelo google docs. Sem querer, juro, ela fez sem querer, ela me denunciou como conteúdo impróprio, provavelmente clicando no lugar errado. Resultado? O Google me bloqueou. Fiquei sem email, sem agenda, trancada do lado de fora do mundo Google, onde eu moro parcialmente. Juro, fiquei passada, deprimida. Eu não mereço.
Comecei a lembrar de vários fatos recentes que me fizeram chorar. Uma empresa que me chamou para fazer todo o trabalho braçal e interno. Não muito bem pago. Tenho medo de parecer metida ao dizer isso, mas é sincero: se não fosse por mim o trabalho não tinha saído. Eu salvei o dia pra valer. Na hora de colher os louros e fazer a coisa grande, pública, com muito dinheiro... bingo! Chamaram outra pessoa. Que não entende nada do assunto, mas que tem uma imagem de quem entende. E um outro trabalho que fiz, do começo até o final. E que na hora de colher os frutos... de novo! Fizeram tudo exatamente como eu propus. Com um detalhe: sem mim.
Como disse uma amiga querida, eu sou a chinesinha cantora de oito anos que foi considerada muito feia para a abertura dos jogos olímpicos de Pequim e foi dublada por outra menina bonita que não sabia cantar. É muita injustiça. É uma #putafaltadesacanagem. Garanto que acontece com você. Garanto que, como eu, você também sofre com essas coisas. O que estamos fazendo de errado, afinal?
Como eu só tenho o blog para desabafar e acho bem chato ficar enchendo o saco dos leitores com "mimimis' pessoais, decidi que vou fazer terapia com essa pessoa que conheci. Resulta que ela é life coach e terapeuta. Ainda não marquei horário, mas já tomei a decisão. Devo começar no final de julho, perto do meu aniversário. Uma coisa simbólica.
A furadeira vai pro divã.
Com todas as brocas.
Um beijo, um browse, um aperto de mouse
da
Rosana "Black&Decker" Hermann










