Rosana Hermann – Blog Querido Leitor  – R7

Você vai ouvir um sonoro palavrão, a falta de educação e a reação estupefata dos apresentadores e do entrevistado diante da grosseria do telespectador. Agora que você já viu, vamos aos fatos. Vamos tentar entender.

Eu estava aqui no trabalho quando o Diego Maia perguntou se eu tinha visto o vídeo do Programa Manhã Maior da RedeTV com o palavrão, o vídeo acima. Peguei o link e assisti. Fiquei passada. Trabalhei em TV durante 26 anos, de 1983 a 2009 e conheço muita gente. Minha visão é a de quem conhece o meio. E, claro, hoje eu sou uma profissional de Internet. Sou peão das duas mídias.

A primeira coisa que chamou minha atenção foi o fato do telespectador ter sido tratado como um convidado. Mas, soube depois, os apresentadores costumam fazer assim. O telespectador é convidado a fazer uma pergunta. Ele dá o nome e o telefone e entra no ar, com seu nome na tela. O programa faz isso em respeito ao telespectador. O garoto em questão deu um telefone verídico, porque a produção ligou de volta e verificou. Eu apurei isso junto ao programa.

O rapaz que fez isso 'trollou' a televisão. Trollar é uma mistura de bullying com zoação, uma espécie de assédio midiático, em que uma pessoa usa um meio para encher o saco do outro, para zoar o outro, para exercer o famoso espírito de porco. É parecido com os pichadores, que sujam as paredes, prédios e monumentos. Eles estão numa outra vibe, num outro jogo, um jogo sujo, muito diferente do jogo limpo dos cidadãos e da cidade. Trollar é pichar monumentos vivos, ou seja, gente.

Muitos fazem isso. Confesso que já dei muitas risadas ao ver esse tipo de coisa acontecendo. Lembro da onda de tentativas, muitas com sucesso, de telespectadores que enviavam nomes com cacófatos, como Paula Tejano, para programas esportivos. Você pode achar vários no YouTube.

O rapaz que fez isso hoje tinha outra intenção: queria aparecer no Top Five do CQC. A ideia era essa, exatamente. Ele ligou, deu o nome, o telefone, gravou. Ele queria bombar a cena no YouTube, com o palavrão, para aparecer no Top Five da noite desta segunda feira. Gravou com o celular, disposto a virar um herói da trollagem. Imagine a emoção do menino. Sentar no sofá hoje à noite, assistir ao CQC, ver o vídeo no TopFive e dizer pros amigos: eu que fiz isso!

Eu estaria mentindo se dissesse que não ri quando vi o vídeo pela primeira vez. Mas depois, a graça acabou. Porque respeito as pessoas do programa, porque gosto muito do Arthur Veríssimo, porque é provável que o programa deixe de receber ligações dos telespectadores por causa disso. É um canal de interatividade que se fecha por causa de um garoto. É tão triste quanto ter que fechar uma praça por causa de um vândalo ou cercar uma casa com arame farpado por causa de um ladrão.

Brincar é normal. Ver as pessoas experimentando as novas mídias também. Assim como é normal testar as relações entre web e TV. Mas há uma diferença entra o passamoleque que é o cacófato 'Paula Tejano' e ser grosseiro ao dizer um palavrão. Ainda mais porque a pauta era homossexualidade.

Não quero ser hipócrita, porque trabalhei no Pânico, sempre fiz humor, dou risadas das zoações, como todo mundo e, num primeiro momento,imaginei que a cena estaria no primeiro lugar do Top5. Mas como todo adulto eu também sou capaz de analisar e pensar na forma de brincar e nas consequências que advém desse ato. Todos nós temos a reação infantil de uma criança diante de uma situação assim, mas a diferença é que quem amadurece, pondera.

Hoje, no aniversário de morte de Graham Bell, acho que esta ligação é emblemática. Se ele estivesse vivo e visse tudo isso, talvez tivesse desistido de inventar o telefone.

Pra você, Otávio Neto, eu dedico essa canção. Que mostra como a mesma coisa, em outro contexto pode ser legal. A Cris Nicolotti não fez mal a ninguém. E com esta interpretação todo muito riu, todo mundo se divertiu e ela ainda ganhou um prêmio. E ninguém teve que perder o emprego.

icon sad A Internet quer trollar a TV para virar celebridade

Ah...essa Internet.

PS -  O vídeo acima é do Marcelo do Asttro. Ele não tem nada com isso, só ouviu o palavrão, gravou e subiu pro YouTube.

Update das 21:24h - O garoto que fez a ligação entrou em contato com a produção do programa via email e disse que estava arrependido, que ele só queria forçar a barra pra aparecer no Top5, pra enganar a produção do CQC. Sim, porque, o CQC mostra os erros que acontecem espontaneamente e não coisas produzidas intencionalmente, com a finalidade de aparecer no programa.  Mas enfim, cada um faz o que quer. Eu só queria contar  a história e dar minha opinião. Opinião dada. Agora é sua vez de opinar nos comentários. Obrigada.

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