Querido Leitor

31 de agosto de 2011 às 15h48

As voltas que o mundo em rede dá

Na minha família quase todas as mulheres sabem fazer tricô e crochê. Minha tia também bordava. Tenho grande familiaridade com esses trabalhos manuais, assim como muita, muita gente. Pergunte a qualquer mulher se ela reconheceria qualquer pano de prato que ela pintou, qualquer bico de crochê que fez numa toalha, qualquer casaquinho de bebê. Ela reconheceria qualquer peça criada. Pergunte a qualquer pintor se ele reconheceria um quadro. Ou um artesão, se ele saberia diferenciar uma imagem entalhada. Todo mundo se reconhece no que faz, porque é trabalho humano, das mãos e da mente da gente. O pedreiro, por acaso, não reconhece a parede que ele subiu? A parede que pintou? Claro que sim. Por isso não entendo essa 'revolta' que algumas pessoas sentem quando falo das coisas que escrevo. Sou uma artesã da palavra, eu reconheço as coisas que faço. E, em muitas circunstâncias, tenho os originais.

Vou contar uma historinha referente a isso, um tanto quanto intrigante.

Nos anos 80 eu entrei para a Jovem Pan FM, como redatora de humor. Escrevi muita coisa, assim como os colegas que vieram depois, como os queridos Oscar Pardini e Zé Américo. O Boi na Linha, programa de trotes, foi o maior sucesso do qual participei na rádio. Era realmente incrível. Já postei até matérias da Veja São Paulo falando desse programa. Levei anos para convencer o Tutinha a fazer o Boi na Linha. Como eu tinha muito apego a esse quadro, eu fazia tudo no capricho. Antes de cada programa tinha umas vinhetinhas com trotinhos telefônicos, daquele tipo bem infantil como o famoso 'alô, é da padaria, já saiu o pãozinho?-Já-e quando ele volta?". Além desses que todo mundo conhecia eu inventava outros. É muito fácil. Você pega um estabelecimento comercial, pega os termos e vai fazendo. Fiz alguns (e ainda tenho os originais em casa) bem tontos como:

Triiimmmmmm
-Lava Rápido, bom dia?
=Por favor, o senhor lava-a-jato?
- Lavo sim
= Então vai no aeroporto, tá cheio de jato sujo!

 

Trrrriiiimmmm
-Material de construção, boa tarde
=O senhor tem saco de cimento?
-Tenho!
=Então o senhor deve usar cueca de aço!

 

Tinha uma outra que era muito elaborada e que talvez não tenha funcionado no rádio exatamente por isso. Texto de rádio tem que produzir imagens na cabeça pra funcionar. Se não me engano era assim:

-Restaurante de peixes, bom dia!
= Por favor, o senhor tem pintado na brasa?
- Tenho sim!
= E não tem queimado o pincel?

(Foi fraca, eu sei. Acontece.Mas, como dizem os teóricos da comunicação, o que conta é a adequação. Se você trabalha com mídia popular, tem que fazer texto popular. )

Eram coisas totalmente tontas, mas feitas à mão, em casa. Piadas, sim, também são criadas, elaboradas, remixadas. Elas não brotam do nada, como as moscas da banana. Alguém faz. Alguém recicla. Ou cria do nada, de suas próprias experiências vividas, como fazem muitos autores e redatores de Stand-up. Mas, por alguma razão que não compreendo e já nem gasto mais energia tentando entender, muita gente se sente 'pessoalmente ofendida' quando digo que eu fiz um texto ou uma piada. E ainda vem com o argumento de que é 'arrrogância' eu reivindicar a autoria do que eu fiz. Olha, não precisa ser genial pra pessoa querer a autoria, basta ser seu. "Ser ou não ser, eis a questão" não é uma frase genial, mas é de Shakespeare. É dele e pronto. Ninguém duvida, ninguém questiona, ninguém se importa, ninguém se incomoda. Ninguém tem inveja de quem está morto. Agora, experimente estar vivo e ser dono de uma frase pra você ver a dificuldade.

Pois bem, querido leitor, o que tem esse post a ver com qualquer outra coisa? Respondo: a outra coisa vem agora.

Eu estava no twitter e vi que uma pessoa tentou puxar um diálogo com o garoto que ficou me ofendendo,  mais uma tentativa vã. Ele passou a xingar a pessoa do mesmo jeito de sempre. Rolei a timeline dele e...adivinha o que eu encontrei? Um monte de trotinhos. E um deles... bingo! O do saco de cimento. Veja, se outra pessoa tivesse criado a piada, a 'cueca' do final poderia ser de ferro. Mas era de aço mesmo. O mesmo trotinho que eu fiz. Alguém ouviu na rádio (que nunca teve crédito pra ninguém, aliás) nos anos 80 e a partir daí, a piada continuou viva. E chegou até o fulano.

Ah, esse mundo dos vivos!

 

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