29 de outubro de 2011 às 14h41
Sócio, sociedade e redes sociais
Cheguei há pouco de um passeio breve e triste pela minha rua. Breve porque está muito calor, abafado e não estou me sentindo muito bem. Pressão baixa e aquele sentimento de opressão climática. E triste porque fomos com o Otto, faltando a Milla em nossa vida.
Tenho me esforçado muito para não me deixar abater. Consegui chorar só uma vez durante o passeio. E outra agora enquanto estou escrevendo. Já é um progresso.
No passeio, meu marido falou do Facebook. Comentei que acho o site muito nostálgico, preso ao passado, saudosista. Nunca fui assim. Não gosto de revirar o que já foi, bisbilhotar a vida alheia. Sou do agora, sou do futuro. Sou o vir a ser. Fiquei tuitando sobre isso até concluir que o Facebook molda o mundo a você enquanto o Twitter molda você ao mundo.
E aí começou uma conversa intensa entre muita gente, conversa essa que passou por todas as coerências e incoerências das quais somos capazes. Exemplo: você defende um site, mas ataca um ser humano; você gosta do Facebook e acha que por isso outra pessoa não tem o direito de não gostar ou, se não gosta só pode ser porque é 'burra'. O outro tem o botão de unfollow pra não me seguir, de block pra impedir que ela leia sua Timeline, mas quer outra coisa, quer um botão pra impedir que eu me expresse.
Passei por todo aquele desfile de respostas, das pessoas bacanas que conversam e trocam pontos de vista até as que já julgam e condenam você de forma sumária.
Eu não acho o Facebook inútil. Ele tem muita coisa boa, mas tem coisas que não me agradam, por exemplo:
(1) DIZER 'Agora não' pra quem pede sua 'amizade'.
Abro o Facebook e tenho mais de mil pedidos de amizade. Vejo nomes que nunca vi, pessoas que não conheço, mas que QUEREM ser minhas amigas. Aí eu, que decidi ter um "perfil muito íntimo" clico em Agora não. Olha que hipocrisia!! AGORA, não?? É não para sempre! A pessoa vai ficar chateada, com raiva, ou vai querer ser minha inimiga. Tem gente que fica magoada, que COBRA pessoalmente no trabalho!! Tipo "eu pedi sua amizade no Facebook e você negou!". Muito melhor o Twitter. A pessoa decide seguir você por ela, sem ter que PEDIR. Acho isso muito chato. Você só tem duas opções: ou é verdadeiro, diz não e ganha rancor, ou você MENTE e aceita só por pena, medo, convenção e aí seu perfil não é mais o que você queria. Chato.
(2) Criar um club de apoio, sem oposições ou antagonismos.
O Facebook molda o mundo a você, o Twitter molda você ao mundo. No Twitter você recebe porrada, elogios, ensinamentos, críticas, tudo. É mais parecido com o mundo 'real', onde você fortalece seu caráter por conviver com as diferenças e a oposição. O Facebook é um mundo de um partido só, como o mundinho cor-de-rosa dos famosos. Não tem antagonismo. Todo mundo te ama, é seu amigo, elogia suas fotos mais feias. Só tem assessor, fã e amigo, um mundo de faz-de-conta. O algoritmo aprende o que você vê e gosta e só oferece a você mais do que você já é. Gente, isso é como pagar um terapeuta pra ele dizer que você é o máximo! Você entra numa rede social pra melhorar, aprender, conhecer, ampliar seus horizontes e não pra EXPANDIR o seu ego! O Ego da gente já é grande, precisa ser encolhido, não ampliado.
Pois é isso que acontece no Facebook. Você se cerca de puxa-saco, amigo, parente, gente que só concorda com você e perde a noção do universo. Você posta uma foto horrorosa e todo mundo diz que você tá 'linda'. Não está, não! Isso é conversa de vendedora de loja na porta do provador dizendo que a roupa ficou perfeita em você porque ela quer a comissão da venda. Ou cabeleireiro ruim que faz uma merda no seu cabelo e combina com azamigue em volta pra dizer que você tá 'ahazando' só pra você pagar sem reclamar. Daí que eu prefiro o corte frio da espada da verdade do que a purpurina colorida da mentira.
(3) A origem da palavra social.
Procurei a etimologia de social. Vem de socius, sócio, amigo. E de sequi, seguir, seguidor. Ponto para o Twitter. Uma sociedade é feita de pessoas com as quais você se relaciona, se associa, segue. Você não fica pedindo pra aceitar nem expõe o outro ao constrangimento de dizer não na sua cara.
Redes sociais são diferentes, tem usos distintos. Mas todas atendem ao usuário. E o usuário está lá pra interagir de todas as formas, seja se expondo ao mundo, recebendo informações do mundo. Mas sempre nesse mundo imenso, diverso, complexo. Tudo bem, existem clubes fechados e cada um pode criar seu nicho. Cada um vive como quer. Pra mim, só posso me tornar uma pessoa melhor convivendo com a diversidade, enfrentando dificuldades e, claro, também recebendo afeto e apoio. Mas sem me privar do confronto. A vida é curta demais pra viver de ilusão. Ou mentir. Ou ser hipócrita, embora as opções estejam aí pra quem quiser se servir.
O Facebook é uma ferramenta útil e poderosa e depende muito mais de quem a usa. Só não consigo me identificar com ela como está agora. Mais nada.
Eu vou continuar usando as redes do jeito que sou, que posso, mas sempre pensando em continuar minha viagem, em busca de amor ao próximo, de afeto e sentimento, de alegria e conhecimento. Claro que faço a minha jornada interior, em busca do meu "eu", de compreender como funciono. Mas a graça do mundo é tudo o que não sou eu. Por isso, não fico buscando apenas "mais de mim nas redes sociais". Porque isso não é viver em sociedade, mas naufragar no próprio ego em busca da mediocridade.
PS - Obrigada ao Daniel Silvério (@danielcsilverio) que sugeriu esse post.










