Querido Leitor

4 de novembro de 2011 às 19h07

A arte de criticar sem ofender

Cerca de 107 bilhões de pessoas já habitaram nosso querido planeta Terra. Ainda não conheci nenhuma que tivesse a capacidade de aceitar críticas sem sentir nenhum traço de incômodo. Curiosa e contraditoriamente, apesar de ninguém gostar de ser criticado, todos nós adoramos criticar tudo e todos.

Em minha vida como blogueira já recebi muitas críticas e já critiquei muito também. Não acho que seja ruim criticar, mas aprendi que a forma como você faz a coisa faz toda a diferença no resultado. Resolvi escrever sobre o tema porque, recentemente, uma querida leitora fez uma crítica a um texto meu, de forma tão sábia e correta que colhi resultados maravilhosos: não me ofendi, fiquei muito feliz, corrigi os erros, fiquei grata e passei a ser fã da pessoa.  Vamos à história.

 

No dia 31 de outubro publiquei a tradução da eulogia que Mona Simpson, irmã de Steve Jobs, escreveu em homenagem a ele. Entre os comentários havia um texto da leitora Jussara Simões, dizendo o seguinte:

"31/10/2011 - 20:07

Já que você pediu, aí vai: a língua inglesa é obrigada a usar milhões de repetições dos pronomes pessoais retos e dos pronomes possessivos, é uma questão de estrutura, falta de outros recursos. O português tem excelentes recursos para evitar essas repetições, que tornam o texto pesado, cansativo. A minha sugestão, portanto, é eliminar mais de 90% dos pronomes pessoais e possessivos do texto. Um simples "search & replace" os pronomes "ele", "ela", "eu", "seu", "seus", "sua", "suas", faria o texto ficar muito mais leve e elegante, porque as desinências pessoais dos verbos na maioria das vezes dispensam o pronome pessoal reto e o artigo definido sempre substitui o possessivo e evita a ambiguidade do "seu de quem, cara pálida?". (Por exemplo: "fulano saiu com sua mulher" é um enunciado ambíguo, mas "fulano saiu com a mulher" é claríssimo no nosso português.)

Grata pela atenção."

 

Voltei e li meu texto. Realmente estava horrível. Tudo errado, sem fluidez, com excesso de pronomes. Comecei a seguir o conselho de Jussara e percebi o quanto eu poderia limpar a tradução. A forma esclarecedora, objetiva e didática com que ela escreveu (e ainda com um agradecimento no fim) iluminou meu caminho.

Jussara apontou meu erro e me ensinou. Sim, era uma crítica, mas ela continha o problema e a solução. E aí aprendi a diferença entre criticar a PESSOA e criticar a OBRA.

Se uma criança faz uma coisa errada, você diz 'a coisa está errada' e não 'você é errado'. Você pode fazer uma burrice, mas você não é burro. Gente inteligente também faz asneiras, sem se transformar em asno por causa disso.

Criticar é necessário, porque é um método eficiente de aprimorar o trabalho. Quando alguém cozinha o macarrão além do ponto, deixando-o mole, grudento e sem sabor, você pode chamar a pessoa e explicar o que significa al dente, mostrar como se prova a massa para ver se ela está no ponto ideal. Você fala sobre o macarrão e não sobre a pessoa. Você não diz que ela é burra e incompetente, você mostra que a massa está mole demais.

Ser firme não é ser estúpido, ser crítico não é ser ofensivo. A postura muda tudo. Dependendo do caso e da intenção até um elogio pode ser cruel.

E, da mesma forma que criticar de forma a ofender a pessoa é errado e ineficiente, porque faz com que a pessoa fique com raiva de você e não conserte seus erros, elogiar de forma mentirosa e artificial também não dá resultado. Não critique ofendendo e nem elogie mentindo. Não funciona. Não faz bem pra ninguém.

De tanto querer ser verdadeiro e moderninho o ser humano esqueceu frases básicas como 'não é assim que se faz', 'esse não é o melhor método ou caminho'. Partimos direto para a ignorância e começamos a xingar o autor das burradas. Taí uma coisa que não dá certo.

Vou seguir o exemplo da Jussara, que foi clara, correta, inteligente e delicada.

O mundo está precisando de mais Jussaras pra fazer a vida da gente melhor.

 


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