Querido Leitor

6 de dezembro de 2011 às 14h32

Sobre o Ale Rocha, o ar e tudo mais

Acordei muito cedo hoje e fui participar de um debate sobre Futuro e Tecnologia. Não tive nenhum pressentimento, não adivinhei o que viria, nada. Era só uma terça-feira de manhã e eu estava concentrada em cumprir bem o meu papel e honrar um compromisso assumido, totalmente voltada para meu mundo egoista e pessoal. Tive os mesmos problemas com rotas e motorista e usei a solução "tecnológica e futurística", pra combinar com o evento: saquei meu iPhone, abri o aplicativo Waze e tudo de certo. O sol não saiu, o céu ameaçava chuva. Minha vida estava programada até o momento de voltar, o que deveria acontecer perto da hora do almoço.

No palco, conversamos e compartilhamos assuntos e informações, Ana Brambilla, Sérgio Xavier Filho, Marco Antonio Valente, Marcelo Tas e  com todos os jornalistas presentes ao #RedeComunica. Durante o evento, como mediadora, não tuitei e fiquei offline.

Assim que o debate acabou, me preparei para voltar e, enfim, peguei meu celular para ver os tweets. E na minha timeline alguém me perguntava se era verdade que o Ale Rocha havia morrido. Gelei. Tive medo de pesquisar. Corri para os perfis do @estadodecirco @anarina @samegui @alesie @janreis. Era verdade.

A primeira coisa que eu fiz foi respirar de forma longa, muito profunda. Não conseguia pensar em nada, só queria respirar. Sentir o ar entrando e saindo dos meus pulmões, esses pulmões que há tantos anos estão aqui, sem que eu dê muita atenção a eles. Porque todos nós somos assim. A gente não dá atenção para o que está funcionando bem, não agradece pelo que já tem. E ainda temos o vício de reclamar de tudo, como se a obrigação do universo fosse atender a nossos desejos.

Eu só conseguia pensar no ar, no Ale, na sua luta para poder respirar, com remédios, cilindros, máscaras e, finalmente o transplante de pulmão. E quanto mais eu pensava, mais fundo eu respirava, como se jamais tivesse percebido a importância do ar.

Só comecei a chorar quando encontrei um amigo e ele perguntou se estava tudo bem. Não estava.

Nesse final de semana, contei para meu marido que Ale era o primeiro transplantado de pulmão que sobrevivia no Brasil, com a alegria de quem comemora um amigo que ganhou um prêmio Nobel. E ganhou mesmo, pensando bem. Em várias categorias.

Ale era reservado, tímido até, não queria compartilhar a doença com o mundo, a hipertensão pulmonar. Durante muito tempo tentei convencê-lo a dizer tudo num post, a contar para o mundo o que estava acontecendo. Eu achava que se ele contasse tudo pra todos, os caminhos para conseguir remédios, tratamento, transplante, poderiam ser mais fáceis. Porque a força de todos é sempre mais eficiente, seja pra cobrar a obrigação do governo em oferecer medicamento, seja para alertar a todos sobre o que é realmente essencial na vida.

Não éramos íntimos, de frequentar a casa, mas nos conhecíamos há anos, desde o começo do Poltrona. Mas  Ale era meu amigo e me considerava sua amiga também e isso era uma honra. Com um pequeno grupo ele dividia suas conquistas e nos atualizava sobre seu estado de saúde. Agora há pouco encontrei um email que ele mandou pra gente no final de 2010, desejando um 2011 de muitas oportunidades e muita saúde.

Leio os emails de novo e paro para respirar.

Porque é isso que eu sinto agora, uma falta de ar.

Uma vontade de inspirar.

E expirar.

E respirar.

Um compromisso de melhorar.

E a  certeza de querer ajudar e doar meus órgãos.

Uma dor de perder.

Uma necessidade de agradecer.

E uma alegria por acreditar que o amor é sempre eterno. E que transcende a morte.

 

 

 

 

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