20 de dezembro de 2011 às 09h44
O alto preço de ter uma opinião
O Twitter brasileiro parece um lugar que você frequenta, a vizinhança onde você nasceu socialmente, aquele bailão gigantesco onde todo mundo se encontra, dança, conversa, bebe. E briga. A graça do Twitter é que ele não é um clube social (anotar: não é a bolacha) nem uma festa fechada onde só vai quem você convidou ou que tem o nome da lista. É um evento aberto, como show na praia de Copacabana. Vai quem quer, se mete quem tem vontade. Não tem aquela 'sensação de segurança e proteção'. O Twitter é um lugar de exposição, em todos os sentidos.
O Twitter é um espaço de exposição. Fficar 'só olhando' é como ir todo dia no Shopping e não comprar, ir à praia e não entrar no mar.
— uuɐɯɹǝɥ ɐuɐsoɹ ☚(@rosana) December 20, 2011
Nessa hora alguém pergunta: (torcendo o nariz e fazendo voz pastosa) "Uééééééé. E se eu QUISER entrar e ficar quieto sem falar nada, não posso?" Claro que pode. Pode tudo, pode até prender a respiração e se jogar no chão. Pode inclusive ter uma opinião e esta é a minha.
Pronto, uma voltinha e cheguei no ponto do título, o alto preço de ter uma opinião. Sim, ter opinião virou um esporte mais caro do que o automobilismo. Não é fácil pagar o preço de sustentar opinião, qualquer que seja ela; mesmo uma coisa banal sobre um assunto corriqueiro pode custar muita energia pra quem se posiciona.
Vi um bom exemplo disso na retrospectiva de humorista de standup, a Rirtrospectiva. Muitos garotos, conscientes de que o show no teatro estava sendo transmitido pelo UOL para todos, faziam as piadas sobre pessoas famosas e, imediatamente, se desculpavam, ou diziam "eu sei que fulana pode estar assistindo" ou algo assim. Não dá pra fazer piada sobre famoso pedindo desculpas pro próprio. Enfraquece a piada e o humorista. O humor tem que ter vários quesitos (importados, em inglês) como 'timing', 'punch'. Aquela 'tirada', a punchline, tem que ser um soco na cara, não pode vir acompanhada de um pedido de perdão. O humor é sempre cruel, venha ele numa bonita caixinha de acidez e crueldade ou embalado no fino papel da ironia.
E por que a opinião custa tão caro? Gera polêmica, briga, xingamento, processo? Porque quem opina, polariza. As pessoas passam a se posicionar em relação a você e sua opinião. Elas concordam ou discordam DO QUE você disse. Elas são as limalhas de ferro e você é o ímã que vai lá com seu campo magnético opinativo e rearranja a configuração caótica e aleatória.
Se você concorda, discorda, ama ou odeia, dá no mesmo. Se você está reagindo a uma opinião, você já está sob o efeito de seu campo, já está posicionado em RELAÇÃO a ela. A opinião tem poder. E qualquer um pode ter esse poder, até um idiota. Quando um idiota diz um absurdo (o que é bem frequente) ele também gera um campo de polarização e forte reação popular. Não é humilhação nenhuma interagir com o campo do outro. Ruim mesmo é você nunca opinar por medo. Se as pessoas razoáveis ficom com medo, porque temem perder alguma coisa por causa do julgamento público, os idiotas, que nada temem por não terem nem mesmo consciência de perder, dominarão o mundo. Se é que ainda não dominaram.
Ontem, no Twitter brasileiro, o Ronald Rios divulgou um vídeo de rap, com outros dois amigos, falando mal do Felipe Neto. Felipe Neto é um cara que opina sem medo. A vida dele é emitir opiniões de forma categórica. Ele é o íma. Os outros se polarizam em relação a ele. PeCeSiqueira é menos incisivo, mas também ficou famoso por ser opinativo. O vlogueiro Marcelo Matheus (DeCarona) conseguiu muita atenção a partir do momento que se posicionou em relação a PeCeSiqueira. Foi coerente, pois, de fato, pegou carona no imenso sucesso do PeCe. Algo similar foi visto ontem. Ao criar o vídeo (aqui, se você quiser ver) 'zoando' Felipe Neto, Ronald Rios passou a ser o Marcelo Matheus de Felipe Neto; ele foi 'de carona' no sucesso do Felipe, posicionou-se como uma limalha de ferro polarizada no campo magnético de uma opinião,
Depois disso, o que vi na minha timeline foi algo bem pitoresco. Muita gente comentando o quanto o vídeo era ruim (eu tentei analisar se a letra era ruim, mas a interpretação superou tanto esse quesito que nem consegui analisar), gente defendendo, gente apoiando. Ou seja, gente polarizada. O vídeo também opinou e posicionou as pessoas. O mais engraçado foi a materialização da fábula dos sábios cegos e do elefante: cada um analisava só uma parte e tirava conclusões sobre o todo.
Muitos tweets elogiavam o vídeo e eram retuitados pelos próprios autores, muitos outros tweets detonavam o vídeo. De qualquer forma, ele polarizou muita gente e foi parar nos trending topics. Agora, aqui fica pra você opinar. Ir para o Trending Topics é como estar na capa de jornal. Ser capa é questão de intensidade, tanto faz a polaridade. Você pode ser gênio ou idiota, famoso ou criminoso.
O fato é simples: quem tem opinião paga um preço alto, mas vai mais longe. Mobiliza. E no mundo moderno quem tem poder de mobilização é recompensado.
E você? Tem opinião?
Quer pagar quanto?












