Rosana Hermann

26 de novembro de 2012 às 12h17

A Internet é nosso fogo

Lá vou eu arrumar mais alguns inimigos. Sim, porque, você sabe como o mundo está funcionando neste momento, em modo desinteligência. Aprendi com o @cardoso que a palavra recorrentemente usada no programa Polícia24 horas, 'desinteligência', quer dizer desentendimento, briga, discussão. O conceito se espalhou e agora tudo é assim, da desinteligência à desnoção. A avalanche de informação que chegou com a Internet para nos aculturar acabou por nos confundir. O que vemos hoje é um monte de gente que tem acesso a um milhão de informações, mas confunde os primeiros 500 mil com a outra metade e aí dá no que está dando.

Exemplos? Pra já.

Sinceridade. É bacana sem sincero. Aprendi lá nos anos 60 que sincero veio do latim, sem cera. Os alunos romanos escreviam em tabuinhas cobertas de cera, como pequenas lousas. Se não me engano (Let Me Google That For You, ou, no caso, pra mim mesma) tabula rasa também vem daí. Pessoas sem cera eram tábuas limpas, que nunca haviam sido escritas e reescritas. Eram pessoas limpas. Bacana gente sincera, né? Sinceramente, eu acho. Mas como o equilíbrio vem antes da lógica, não dá pra ser sincero de menos e sem de mais. E é aqui que entra a primeira confusão. Ser SINCERA DEMAIS, falar TUDO o que pensa não é bom pra ninguém. Porque isso não é sinceridade é o chamado sincericídio. Tem que ter um mínimo de filtro em tudo. Filtro solar, filtro de Instagram, coador Mellita, tudo requer um mínimo de filtragem. O buraco na cama de ozônio que deixa de filtrar os raios solares causa até câncer de pele. Por isso usamos cremes com filtros sobre a pele. Tem que filtrar MINIMAMENTE pra conviver socialmente.

Mas muita gente confunde sinceridade com falta de filtro social e diz TUDO O QUE PENSA DO JEITO QUE PENSA. E aí saem coisas lindas, como hoje o site Fuxico publicando the following:

ZdFqF A Internet é nosso fogo

Sim, sim eu entendo. Burra eu não sou. Embora eu seja uma crítica cruel sou uma observadora condescendente. Eu sei que o Fuxico é um site e como todo site vive em busca de cliques. Trabalho por eles também. Eu sei que a Geisy fala o que quiser, que a vida e o corpo são dela, concordo totalmente. Apoei-a veementemente quando ela foi hostilizada. Fiz campanha no Twibbon pra ela. E, como uma prima mais velha, tenho vontade de dar alguns toques pra ela. Só que, nem sei se ela os quer. Então, ficamos assim, ela fala o que quiser. Eu também.

Eu sei que em última instância sempre tem a explicação de que 'isso pode ajudar outras mulheres que sofrem do mesmo problema' e tudo mais. Verdade. Mas há formas melhores e piores de fazer as coisas, lugares mais e menos adequados de abordá-los. Quando você recebe um presente de um amigo e você não gosta muito, você diz 'obrigada, mas eu detesto esta cor?'. Não, você não diz. Porque você pode, mas não PRECISA ser sincero a ponto de chocar, ofender, ser grotesco. Existem jeitos de fazer as coisas, como bem sabem as enfermeiras que tiram sangue do braço pra fazer exame. Em tese é só enfiar a agulha na veia, mas QUE DIFERENÇA faz quando a mão é leve e a técnica é boa! (falou a rainha-sem-veias experiente em hematomas).

Outro exemplo é o famoso 'liguei o foda-se; agora é assim eu boto tudo pra fora pra não ficar doente!'. Sim, existem teorias que dizem mesmo que os sentimentos que a gente guarda, retém, podem nos fazer mal, causar doenças. Verdade, causa mesmo. Mas viver em sociedade é controlar impulsos. (Minha terapeuta mandou eu ler uns textos do Norbert Elias sobre civilidade e sobre seu fim) Ela mesmo (minha terapeuta) citou uma cena do filme A Guerra do Fogo que acabei de achar no YouTube. Como diz o texto em francês, a imagem fala por si.

Então, esse é a mostra primitiva do 'sentiu - fez' sem filtros. O homem primitivo, animalesco, vê a nudez da mulher, sente desejo e pá, pronto. Foi lá e fez. Como fazem os bichos.

Mas...não somos bichos, somos? Fomos, éramos, mas havíamos passado por um longo processo ainda em andamento, o processo de civilização, não?

Pois parece que junto com a desinteligência e a desnoção chegou a descivilização. Descivilização é quando a pessoa acha que dizer tudo o que ela pensa do jeito que ela pensa, em qualquer lugar, a qualquer hora e pra qualquer um, é 'bacana', é sincero.

Descivilização é quando a pessoa acha que se ela sentiu, tem que botar pra fora, do jeito que veio, sem pensar no lugar, na hora, em quem está em volta. É achar que 'foda-se' é 'fodam-se todos porque em primeiro lugar vem o que eu penso e sinto'. Agora imagine 7 bilhões pensando e agindo assim.

E já que estou aqui chutando cachepots, vamos fundo. Já que estamos falando sobre pessoas entrevistadas pela mídia tweetando links com textos que comentam sobre photoshop de vagina, técnicas para colocar excesso de volta a seus orifícios originais, vamos adiante. Vou ilustrar essa nova técnica de descivilização momentânea:

Lindo, não? Ah, mas coitada, dirão alguns. Ela tava apertada! Ela é louca! Ela é uma senhora. Bom, eu acho que isso tudo pode ser verdade, mas não é aceitável. Ou, se ela realmente teve um problema incontrolável, instantâneo e teve que fazer isto, por que ela não recolheu e limpou o que fez? O mínimo, o mínimo da civilização é você consertar seus erros e limpar sua sujeira, não? Ou arrumar um jeito de não deixar para o OUTRO. A menos que ela esteja sob ação de psicotrópicos (nem se fala mais isso, céus!), ou fora de sua consciência, aí ela seria inimputável.

Pois olha, eu acho ótimo poder falar disso agora. Ainda mais nesse momento em que lutar por um pouco de civilidade é chamado pelo trupe descivilizatória de 'arrogância'. Sim, porque é arrogância pedir um pouco de noção.

Hoje, buscando a cena da Guerra do fogo, tive uma epifania. Um insight:

A INTERNET É NOSSO FOGO.

Tem a tribo que domina a Internet e tem gente que ainda não descobriu o fogo.
Tem gente que deixa a Internet ligada o tempo todo, sem parar, sem jamais tirar da tomada ou desligar o roteador, como quem tem MEDO de apagar o fogo e não conseguir mais produzí-lo.

A Internet é nosso fogo. Ela nos ilumina, nos aquece, nos dá conforto. Cozinha nosso alimento.
A Internet é nosso fogo, nosso elemento.

Amo a Internet e sempre digo que é a última chance do ser humano dar certo como projeto no mundo.
Só que o fogo também se alastra e devasta, queima tudo.
Porque não é só o caso de DESCOBRIR o fogo, mas de saber lidar com ele. Saber domá-lo, domesticá-lo, controlá-lo, usá-lo com sabedoria pra não se chamuscar.

A Internet é nosso fogo.
E é um passo adiante para nossa civilização.
Isso, se a civilização quiser mesmo permanecer civilizada.
Talvez não queira.
Talvez a massa queira volta atrás e falar tudo o que vem na cabeça, botar todos os sentimentos pra fora, gritar, fazer barraco, rodar a baiana. Talvez a nova massa humana queira destruir a cultura, acabar com o conhecimento e ficar apenas rindo de tosqueiras 24 horas por dia, como no filme (ou documentário?) Idiocracy.

A Internet é nosso fogo.
A falta de noção é nossa fogueira.
Joana D'arc, quero ser não.

14 Comentários

"A Internet é nosso fogo"

26 de November de 2012 às 12:17 - Postado por rosana

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Comentários
  • Marcos Salomão
    - 28/03/2014 - 7:30 PM

    Sinceridade sem civilização é um egoismo total!

    Responder
  • Marcie
    - 28/03/2014 - 6:00 PM

    Texto atualíssimo e sensatíssimo, parabéns!

    Responder
    • rosana
      - 28/03/14 - 18:35

      Marcie- obrigada, Marcie

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