Rosana Hermann

Domingo de manhã, na hora do café, quando soube do incêndio na boate Kiss em Santa Maria, comecei a chorar e a pensar e a sentir e a lamentar e a refletir e não consigo parar desde então. Como tanta gente no Brasil e no mundo, meus olhos se voltam para os jovens que morreram, meu coração se despedaça com os depoimentos dos pais e parentes que ficaram, meu espírito se agita com o medo de que coisas assim possam voltar a acontecer. É uma carga intensa demais de dor para a gente administrar, um sofrimento que não cabe. A gente tem que falar, compartilhar, lamentar e vivenciar esse rito doloroso, para que ele se incorpore. Por fim, para que a gente se conforme e aceite tamanha tragédia, é preciso tirar alguma coisa, uma lição, um aprendizado, que fique ao menos como uma homenagem a tantas vidas perdidas.

E é aí que começa a reflexão sobre você, eu, todos nós, especialmente nessa era de redes onde nosso pensamento coletivo e o comportamento social delata o estado de alma em que estamos.

Estamos confusos, isso é certo.

Se um dia tivemos valores dados pelo senso comum, pelos avós e antepassados, todos nascidos num mundo mais pacato que o atual, perdemos boa parte deles. O respeito pelos mais velhos, dar lugar para mulheres grávidas no transporte público, não roubar, não falar mal dos vizinhos, não jogar lixo na rua, são apenas os exemplos mais corriqueiros de ensinamentos que se perderam nas confusas estruturas sociais e, pior, tornaram-se' coisa de babaca'.

A Lei de Gérson não apenas nos definiu, como 'pegou' e não há meio de revogá-la.  Sobre nossa natureza do jeitinho nacional, somou-se a Gersonificação da vantagem individual, potencializada pela opinião coletiva de que ser certinho é ser idiota e uncool.

A situação de momento no Brasil (e não falo do mundo porque não tenho autoridade ou vivência pra falar de outros paises) é assim:

 

1. Todo mundo que faz tudo certinho, que obedece à lei, que não transgride e não se corrompe  é xingado e apontado como babaca, caga-regras,  pela maioria conivente e tolerante com tudo o que é  errado e corrupto

2. Na hora que dá alguma merda, a mesma  maioria conivente e tolerante com o errado e corrupto  posa de certinha e aponta dedos para todos os que erraram, com ou sem dolo, em busca de crucificação e linchamento público dos envolvidos para expiar a própria culpa da conivência e tolerância com o errado durante uma vida.

Vamos olhar a tragédia insuportável que estamos vivendo.

Os especialistas em acidentes de avião dizem sempre que toda tragédia é uma sucessão de erros, não é uma coisa isolada. Sim, tem algo que começa, um gatilho que dispara, mas a reação em cadeia que leva a perdas de vidas só acontece porque tem uma ~massa crítica~ de erros no caminho. E, muitas vezes, nossa leitura dos fatos também é imprecisa. Exemplo? Todo mundo acha que muitos carros batem nos postes. E aí começam a elaborar teorias sobre 'a atração entre postes e carros', como se um poste inanimado tivesse um magnetismo que leva os carros a baterem nele. Não, né. A gente vê muitos carros batidos em árvores, postes e muros, porque dentro TODOS os carros que se acidentem, ou quase se acidentam, todos os que não deram PT ou não chegaram a bater, foram embora. Os que ficam são aqueles que encontraram um anteparo, bateram e, por isso ficaram parados lá. Aí a gente vê os que ficaram parados e tira conclusão do todo pelas ocorrências em particular.

Pois bem. O bom senso nos diz que acender fogos de artifício em lugares fechados não faz sentido. Fogos de artifício já não fazem muito sentido nem do lado de fora, embora sejam lindos. Mas indoor realmente não parece ser sensato. Só que MUITA gente faz. E MUITA gente aceita. E acha normal. E acha OK. E acha bonito. E só quando acontece uma tragédia é que vai apontar dedos para quem o fez.

As mesmas pessoas que querem crucificar o garoto da banda que acendeu o sinalizador, muito provavelmente até OUTRO DIA não se importavam com o fato e nem tomaram nenhuma atitude para impedir que isso acontecesse.

O material da boate era todo inflamável, ao que parece. Assim como são feitas tantas casas noturnas, fantasias de carnaval, barracões de escolas de samba e tudo mais. Se está tudo errado e é perigoso, temos que fiscalizar e multar e obrigar todo mundo a fazer certo. Mas, você percebe que nós, como sociedade, somos os mesmos que culpamos todo mundo depois e não cobramos nada antes?

E os seguranças da boate? Bom, eu não sei o que aconteceu de fato. Mas, o que é que faz um segurança da boate? Ele cuida da segurança do usuário ou da boate? Bom, em tese, ele cuida da boate primeiro, impedindo que pessoas saiam sem pagar, que não tumultuem ou criem problemas. E cuidam para que o usuário se comporte dentro do esperado. Eu nem sei se teve algum segurança morto no incêndio, mas pelo que entendi, foi tudo tão rápido e o lugar era tão labiríntico,  que levou um tempo até que os seguranças entendessem o que estava acontecendo.

As portas de emergência fechadas, isso realmente não tem explicação. Se a porta é de e para emergências, o que adianta tê-las se na hora da emergências elas estão trancadas?

E tem o alvará vencido, os extintores que supostamente não funcionaram. Tanta coisa irregular. Errada, criminosa. Mas a gente só vai enxergar isso lá e agora? Por que você não vai olhar o extintor de incêndio do seu carro, do seu prédio, do seu trabalho pra ver se ele tem espuma dentro, se funciona, se serve pra alguma coisa?

É, querido leitor, é tudo muito chocante e doloroso. Desabei em vários momentos, como as ligações perdidas dos pais e mães nos celulares dos jovens mortos, o pai que perdeu duas filhas no mesmo incêndio, os caminhões frigoríficos usados para empilhar e transportar corpos que horas antes eram jovens cheios de futuro e de vida. Mas até essa dor não impede que eu enxergue a hipocrisia na qual estamos todos mergulhados como sociedade.

Claro que existem responsáveis, claro que é preciso apurar tudo, que não podemos apenas dizer 'ah, aconteceu'. Mas até nessa hora é preciso ter bom senso para esperar resultados, compreender, sem sair crucificando tudo e todos. Tem gente que culpa até as vítimas, até os que correram pra se salvar.

Porque, repito, neste texto longo, catártico, que tenta dar conta do silêncio de dias no blog com essa verborragia   interminável, as pessoas que apontam culpados a torto e a direita agora, cobrando perfeição e lisura de tudo e de todos são as MESMAS que transgridem, que corrompem, que toleram o erro, que são coniventes com a corrupção pequena que os beneficia. Essas pessoas somos nós, os brasileiros.

E mais, os brasileiros, quando se deparam com alguém que faz tudo certo, OFENDEM essa pessoa. A pessoa que faz tudo pela lei é maltratada e temida, porque ela esfrega a corrupção alheia na cara da sociedade. E, nossa sociedade endemicamente corrompida, que expulsar todo elemento perigoso a essa rede implantada de pequenas contravenções, porque ele nos expõe.

É hora de parar e pensar com nossa consciência o que realmente somos. Se pagamos o guarda para liberar a multa, se pagamos o despachante pra comprar a carta, pra passar no exame, se pedimos ao contador para alterar o imposto de renda, se não declaramos os bens que temos, se compramos drogas do traficante, se baixamos torrentz sem pagar, se também fazemos incontáveis irregularidades (muitas vezes porque a lei é mesmo burra e o mercado injusto) sem LUTARMOS para que as coisas sejam certas, temos que ter a decência de, PELO MENOS não apontar culpados que não são melhores nem piores do que nós.

Diante do que é certo, você tem que escolher o lado em que vai ficar.
Mesmo que você ao longo da vida mude lado.
Mesmo que você tenha que pedir ajuda para decidir o seu lado.

Só não dá é pra ficar do lado onde tantos tentam ficar, do lado de fora.
Assistindo tudo de camarote, no conforto de sua cadeira diante das telas vivas das redes, apontando culpados sem conhecimento, condenando sem julgamento, criticando obras prontas, ofendendo os que têm boa intenção, difamando os que agem de forma correta. Pulhas que ficam sempre do lado de fora, apoiados em seus provérbios vencidos, em seus valores escusos, em seus dogmas mal interpretados, usando a razão como advogada de sua crueldade.

Você precisa escolher o lado que vai ficar.
E não ter medo de mudar de lado se o coração mandar.
Porque cobrar do outro uma perfeição que você não tem é estar do lado de fora da raça humana.

 

 

71 Comentários

"A tragédia de Santa Maria e a pergunta que fica: de que lado você está?"

28 de January de 2013 às 11:34 - Postado por rosana

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Comentários
  • - 01/02/2013 - 5:52 PM

    É isso Rosana. A sua lucidez iluminou tudo. O certo é o certo, não existe meio termo. Isso de jeitinho corrompe por dentro e por fora a quem cede. Andar na linha não faz o trem passar por cima, mas sim a chegar ao destino final.

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  • Ricardo Talarico
    - 31/01/2013 - 11:01 AM

    Parabéns pela lucidez, Rosana. Soçarba. Tala

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