Rosana Hermann

21 de janeiro de 2013 às 16h31

A volta de quem não foi

Voltei.
Voltei de férias para o trabalho. Voltei do ócio domiciliar para a prestação de serviço corporativo. Voltei das manhãs de acordar cedo pra não fazer nada para os dias preenchidos com compromissos. Voltei pra pilha de contas a pagar, deveres a cumprir. Voltei, basicamente, daquelas semanas em que os adultos podem fingir que são crianças com pouca responsabilidade e muita diversão para o mundo maduro em que somos os responsáveis por tudo e por todos.

Não cheguei a ir longe. Fui para o interior no final do ano, depois para o litoral. Não saí nem do estado. Num radio de 200 km, fiz um circuito de santos, São Paulo, São Pedro e São Sebastião.

Voltei também para as aulas de Pilates. Mais do que saudade, senti falta física dos meus exercícios de força e alongamento. Foi muito bom voltar para aqueles momentos em que meu cérebro inteiro só tem como objetivo administrar meu corpo e minha vitalidade, obrigando todo o sistema operacional a sustentar meu peso numa posição de instabilidade mantida apenas pelos músculos do abdômen. Me faz lembrar de um antigo professor do curso secundário que tinha um carimbo de borracha com os dizeres ~venci pelo esforço~.

Apesar de todos os exemplos de retorno, temo não poder classificar minha atual presença como uma volta. Porque na verdade nunca fui a lugar nenhum. A chácara e a praia são destinos recorrentes em minha vida há quase vinte anos, sempre os mesmos. As atividades que fiz também são repetidas, como caminhar, nadar, cozinhar, ler, fazer tricô e crochê, cuidar da casa, da família. E, desde 95 com a Internet, estar aqui ou ali já é muito parecido. O fato é que todas as paredes e divisórias estão caindo por terra, não há mais distinção, a vida é um mingau grosso que sustenta partículas de todas as naturezas como uvas suspensas na aveia. Você está na praia e falando de trabalho ao celular, está no avião indo para uma reunião e postando fotos da janela no seu instagram pessoal, você está no banheiro e lendo sua timeline, exemplo mais adequado da mistura de vida pública com privada.

O paradoxo da volta dos que não foram invadiu até meu guarda roupa. Visto-me de forma que comporte tudo no mesmo dia. Tenho que usar alguma coisa que seja cabível não apenas em mim, mas no meu entorno e suas atividades, seja para gravar um vídeo, dar uma entrevista ao vivo, comparecer a um evento, ver um filme no cinema, uma estreia no teatro, um almoço de trabalho, dar aulas, palestras ou comprar iogurte desnatado no supermercado.

A conexão física de todas as pessoas e coisas está mudando o comportamento dos seres viventes. Comentei isso num post chamado Teoria dos Meios Comunicantes. Cada vez mais se nota essa interpenetração das coisas, gerando um ambiente mais homogêneo. Já acho tudo tão parecido, que tenho dificuldade de saber onde li, onde vi, como fiquei sabendo. As informações se misturam sem parar.

Agora, por exemplo, estou aqui escrevendo esse post. É trabalho, mas é lazer. É meu, mas é de todos. É público, mas é pessoal. É efêmero, mas é eterno.

Melhor assim, pois todos nós mortais podemos celebrar com alegria o fato de estarmos vivos, sem definições, sem medos e sem barreiras.

Boa tarde, querido leitor.

6 Comentários

"A volta de quem não foi"

21 de January de 2013 às 16:31 - Postado por rosana

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Comentários
  • Flavia
    - 23/01/2013 - 10:01 PM

    O texto me lembrou um pouco filmes de ficção científica, que retratavam máquinas de teletransporte. A internet já é um pouquinho de tais máquinas. Nos conectam com todos e "nos levam" a vários lugares. E se desconectar logo logo será impossível: todos entrando na "matrix".

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  • Paula
    - 22/01/2013 - 12:07 PM

    Oi, Rosana! Sempre dou uma passada por aqui. Gosto muito do jeito que escreve. Bom, quanto a isso de estarmos sempre conectados, eu penso que é meio como um vício. No meu caso, eu consigo ficar longe da internet e do celular por dias, sem muita neura. Na verdade, gosto de ficar um pouco alheia a tudo de vez em quando. É só questão de experimentar e ver que dá pra sobreviver sim. Abraços.

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