Rosana Hermann

9 de janeiro de 2013 às 13h21

Boletim da quarta chuva

A vida de transparência social em que todos falam de si o tempo todo e atualizam seus paradeiros e atividades tem um preço. E o preço na etiqueta desse comportamento em rede diz claramente que temos que dar satisfações de tudo. Das nossas atitudes e atos, pensamentos e fatos, palavras e gestos. Exatamente por isso quando você faz uma pergunta no Twitter você recebe, em vez de respostas, dúzias de questionamentos. Porque ao fazer uma pergunta você levanta lebres adormecidas e paranóicas que passam a suspeitar da intenção de sua indagação.

Se o objetivo da pessoa é vencer batalhas, o caminho para a briga se abre como sésamo. Se, ao contrário, você não se importa em ter que se explicar em nome de um bem maior, como a economia de energia, então você vai explicando e ponto final.

No momento estou trilhando o caminho das explicações, quase na esquina da rua da tolerância com o beco do vá lá que seja. Estou sentada numa banqueta alta de um balcão da cozinha escrevendo este post. Meu marido está lendo um guia de restaurantes no Litoral Norte e, de vez em quando, sugere um lugar para almoçarmos. Ao longe ouvimos o pessoal da construção ao lado, gritanto para superar os decibeis das máquinas que nos atordoam durante o horário comercial. A faxineira está limpando a casa e deixa seus produtos e panos espalhados por todos os lugares, para meu desespero. Sempre fico aflita com a mistura de produtos de limpexa com comida. Nem no supermercado eles se misturam e evito adquirí-los na mesma viagem. E, no entanto, aqui está o desinfetante com a tampa aberta ao lado das bananas. Mas ela é ótima e querida e eu nem estou na vibe de reclamar, na verdade.

Estou de férias, mas não estou. Tenho algumas coisas para fazer, planejar escrever, decidir e pagar. Num mundo conectado e adulto não existem férias como antes as concebíamos, tudo se mistura, o que nem é totalmente ruim. Viver e trabalhar para mim são bem parecidos, já que transito muito mais pela área acadêmica e artística do que pelo mundo da indústria pesada e mineração.

Estou lendo dois livros ao mesmo tempo, um sobre a pós-modernidade de Zygmut Bauman e o Caderno de Maya da queria Isabel Allende. Sou fã dos dois e fico feliz em saber que estão ambos vivos e com saúde. Sempre choro quando leio um livro que amo e percebo ou lembro que autor está morto e não poderei trocar nem uma palavra com ele.

Lá fora está chovendo. Pela quarta vez. A chuva não se decide, não sabe se cai ou fica. Enquanto isso vai mostrando todo seu repertório. São Pedro em dia de mostruário.

Já fomos até a praia e voltamos, já tentei ler no quintal e desisti, já sentei numa cadeira molhada sem perceber. Respondi alguns emails, ativei e desativei a paranoia. Acho que me deixei contaminar pelo clima de incerteza da natureza.

Tenho postado pouco no blog e no Twitter, nada no Facebook, pouco no Instagram. Não liguei pra minha mãe, falei pouco com minha casa.Fico aqui pensando se o novo estado de férias deste mundo ultraconectado não é justamente o silêncio, o exercício de guardar coisas para si, de fazer sem mostrar, de pensar sem publicar, de promover pequenos segredinhos, como roubar mudas de plantas do mato da estrada e plantá-las num vaso de garrafa pet cortado com faca.

Segredos não precisam ser coisas terríveis escondidas. Segredos podem ser apenas pequenas criaturas invisíveis que fortalecem sua mitologia interior.

Bom dia.

12 Comentários

"Boletim da quarta chuva"

9 de January de 2013 às 13:21 - Postado por rosana

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Comentários
  • Hevelin
    - 11/01/2013 - 8:35 PM

    Um dos melhores posts que eu li. Adorei!!!

    Responder
  • Dani
    - 11/01/2013 - 5:37 PM

    Hoje acho fundamental o silêncio. Vivemos em um mundo barulhento, onde consciência e reflexão se misturam com a exaustão de informações, paranóias e fuxicos. Sou a favor do silêncio interior, apesar de ser agitada, urbana e ligada na minha rotina. Beijo.

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