Rosana Hermann

7 de dezembro de 2012 às 13h01

Carta para Rafinha Bastos

"Querido Rafinha,

Esperei alguns dias até a poeira baixar. A poeira que você mesmo levantou, sacudiu e deu a volta por cima. Ou tentou dar. Sim, estou falando da carta aberta que você publicou para o Luciano Huck. Aliás, depois da sua carta vou escrever uma pra ele também. Não sou exatamente uma BFF do Luciano ou sua, mas tenho proximidade com ambos e me sinto à vontade para me meter na vida de cada um, pelo menos na esfera pública.

Conheço você desde a era mesozóica da Internet, do tempo da página do Rafinha. Eu não curtia você. Achava de você o que muita gente acha de mim, uma pessoa arrogante, metida e com vontade de aparecer, a expressão máxima do roto-que-fala-do-rasgado-show. Um dia, nos anos 90, meu marido subiu um vídeo caseiro gravado na sala, falando pra câmera no estilo hoje conhecido como vlog e minha filha, que ainda era uma criança pequena, passou correndo atrás, meio que fazendo algazarras pra chamar a atenção. Você viu o vídeo e com aquele jeito sutil de meter o pau, falou mal do meu marido, da minha filha e eu fiquei com uma raiva que só mãe sabe ter, o contrário daquele desejo de gerar a vida, que é a vontade de matar o cidadão, no caso, você.

O tempo passou, minha filha cresceu e mesmo sem esquecer não guardei mágoa de você. Ao contrário. Quando você foi pra TV no CQC, mudei a impressão que eu tinha de você como profissional. Acho você autêntico, inteligente, criativo e muito doce no trato. Seu filho é fofo, sua mulher é linda, você é um sucesso e sempre me alegro quando encontro você em eventos e festas da nossa comunidade internáutica. Fui a sua casa de shows e adorei.

Depois teve o episódio do New York Times e o seu título de 'pessoa mais influente do Twitter no mundo'. Nossa, isso me deixou revoltada. Eu sei que todo mundo me acusou de inveja, mas mais do que a inveja, que tenho mesmo em muitos casos, tinha o problema da lógica! Ninguém 'é' a pessoa mais influente do Twitter no mundo o tempo todo, isso é só uma medida em um instante! Mas a mídia, meio burralda em termos de Internet, transformou a coisa mais particular e passageira no mundo num título eterno! Cara, o jornal escolheu UMA métrica, que pegou UM período determinado, com um corte entre os mil perfis mais seguidos e esta UMA empresa fez UMA medida , naquela semana e o resultado foi você. E fizeram disso uma verdade eterna e imutável! Santa burrice. Até aí fiquei do seu lado, porque você também não levou a sério.

Em compensação você foi mesmo entrevistado pelo New York Times e, cara, isso tem um peso. Parabéns mesmo, achei o máximo!

Quando você lançou o seu disco, tive uma epifania, várias aliás. E acho que entendi todas as mensagens subliminares nos cacófatos, trocadilhos e alusões que você fez nas canções infantis. Existe grande probabilidade de eu ser totalmente paranoica e imbecil, mas eu consegui desvendar praticamente todos os nomes próprios de todos os diretores, ex-diretores, gerentes, proprietários, que aparecem nas canções. Não encontrei ninguém que tivesse percebido. Cheguei a falar com você por SMS sobre isso, porque eu precisava confirmar se eu mesma me aplaudia ou se me internava. Porque, sério Rafinha, eu trabalhei na Band. Não tem como ouvir ~coelhinho se eu fosse como tu, tirava a mão do bolso e punha no seu coelhinho~ e não entender a mensagem para o Helinho Vargas, ex-diretor artístico da Band. Sacada de gênio, sério, o seu Co(cu)Helinho. Também entendi todas as outras alusões subliminares (tá certo isso?) mencionando o seu João Saad (a festa do São João de Seu João, o cai cai balão). Enfim, quem quiser que baixe todas as músicas e procure os nomes.

Tudo isso pra dizer que eu nunca fui contra você. No episódio da Wanessa Camargo e seu bebê eu também fiquei do seu lado. Escrevi aqui no blog e tudo mais. Uma piada dos anos 70 ou 80, do cúmulo da pontaria que foi reinterpretada nesses tempos de politicamente-correto e idolatria e tomou proporções dantescas. Claro, com a fina camada de interesses comerciais que sempre recobrem o mundo capitalista. E aí deu no que deu e você foi dispensado da Band. Veio o disco, o SNL, a sua saída e tudo mais.

Até que você publicou a carta para o Luciano. E aí eu fiquei surpresa. Primeiro porque eu não entendi a lógica da sua carta. O caso do Luciano Huck foi entre ele e a lei. Ele é um cidadão, rico, famoso, conhecido, mas é um cidadão. Transgrediu a lei, pisou na bola, foi multado, punido, teve a carteira de habilitação apreendida. A lei foi cumprida. Deveríamos comemorar a isonomia da aplicação da lei para todos, mesmo para quem é rich and famous. Mas aí você cometeu um equívoco duplo, na minha opinião. Você usou o Luciano para metralhar sua mágoa. Porque você se sente injustiçado até hoje, por ter sido punido de forma desproporcional. Repito, você foi injustiçado de VERDADE. Mas quando a gente é visto com arrogância, as pessoas nãos nos pudem pelo que fazemos. Elas se aproveitam dos nossos erros para nos punir por TODO o incõmodo que causamos. Sou velha e essa lição eu aprendi.

Mas você errou. Você usou o Luciano pra vomitar sua mágoa de injustiçado, comparando-se com ele. Pra que? É, ele é o bom moço, que tem a família perfeita dos comerciais de margarina e cereal com leite, o cara que deu certo, que se impôs como apresentador mesmo sem ter aquela ~veia de artista~ que outros têm. Mas o que você tem com isso pra chamá-lo de bosta? Por que você se comparou com ele? Porque você se acha merecedor do sucesso que ele tem e tiraram de você? Você usou argumentos lógicos. Dirigir embriagado é perigoso e pode por a vida dos outros em risco, devemos combater isso sempre. Inaceitável. Mas de onde você tirou essa vontade de comparar o seu erro com o dele, ou você com ele? Que isso, novinho? Tá doido?

Felizmente você voltou atrás e pediu desculpas, seja por causa do processo que ele disse que vai mover contra você ou não. Não sei e não tenho nada com isso. De qualquer forma, fico feliz que você tenha voltado atrás. E até celebrou seu pedido de desculpas.

Quando tudo isso aconteceu, pensei em me manifestar imediatamente. Mas resolvi esperar. Achei que você ía mudar de ideia e, felizmente, aconteceu.

Continuo admirando sua criatividade, continuo achando você um doce de pessoa no convívio pessoal, continuo torcendo para que você encontre um bom espaço para exibir seu trabalho.

E, se você aceita observações ou conselhos, deixo um pra você. Lembre-se sempre da parábola do barqueiro e do escorpião, que eu sempre usava para o Clodovil. Mesmo que ele se afogue junto, o escorpião não consegue escapar de sua natureza, que é picar o outro. Você tem a sua natureza e, para ser feliz, você tem que se adaptar a ela. Encontrar o melhor jeito de aproveitar o que você é. Sempre lembrando que a natureza do outro é ser como ele é também.

Vamos todos levantar, nos sacudir dar a volta por cima, porque do pó viemos e ao pó voltaremos, mas nem por isso precisamos passar a vida inteira afogados na poeira.

beijos,

Rosana Hermann"

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"Carta para Rafinha Bastos"

7 de December de 2012 às 13:01 - Postado por rosana

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Comentários
  • TACIO FALCAO
    - 5 05UTC março 05UTC 2013 - 2:18 PM

    O TAL RAFINHA BASTOS E UM PSEUDO HUMORISTA QUE ESTA TOTALMENTE FORA DE MODA, QUE E QUERER FAZER SUCESSO EM CIMA DA DESGRAÇAS DO OUTROS, OU FAZER PIADA DE MUITO MAL GOSTO COM AS PESSOAS. INFELIZMENTE AINDA NAO SEI O MOTIVO CONTINUA NA INTERNET, CARAS DESSE TIPO DEVERIA SER BANIDO.

    Responder
  • Renata Pozzi
    - 12 12UTC dezembro 12UTC 2012 - 8:22 PM

    Adoro o Rafinha...adoro o humor ácido dele...na verdade o Rafinha diz o que muita gente do meio artístico gostaria de dizer, mas não tem coragem...pq para permanecer na TV precisa fingir ser amiguinho de todos....

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