Rosana Hermann

pastadedentes Como fazer com que o amor continue quando a pasta de dente acaba

 

Cada pessoa tem um jeito. Você tem o seu, eu tenho o meu, meu marido tem o dele. Às vezes a pessoa além de um jeito, tem um ~jeitinho~.

O jeito de ser de cada um tem muitos ingredientes. Alguns atávicos, outros genéticos, culturais, ambientais, adquiridos por contato e tudo mais. E, como em toda lista de ingredientes, tem coisas boas pra saúde e alguns aditivos que deixam a gente de cabelos em pé, tanto no caso de produtos quanto no caso de pessoas.

Meu marido, por exemplo, é muito controlador.

O lado bom é que ele provê tudo que é preciso em casa, cuida bem de todo mundo, é super correto em todos os seus compromissos e não perde um detalhe de nada.  Todo mundo tem defeitos, por isso, o mais sensato é ter uma atividade profissional que se adeque não só às suas virtudes, mas aos seus problemas também. Não é uma maravilha ter, por exemplo, uma dermatologista detalhista?

O lado ruim de ser controlador é que, bem, ele controla tudo. Todo e qualquer detalhe. E exige explicações. A mente dele precisa completar a história para poder funcionar com tranquilidade, como no caso de uma caixinha de fio dental, por exemplo.

Temos duas cubas na mesma pia do banheiro, lado a lado, uma pra cada um. O espaço da direita é das coisas dele, o da esquerda é das minhas e no meio temos as coisas em comum, como pasta de dente e fio dental.

Outro dia tinha 3 caixinhas de fio dental, de tipos diferentes. Escovei os dentes, passei o jato de água e peguei o fio dental antes do bochecho com meu amado Scope. Assim que peguei a caixinha do fio dental e puxei, senti que o fio tinha acabado. O pedaço que veio na mão era pequeno, quase insuficiente para a higiene. Usei aquela tática de enrolar bem e aproveitar ao máximo, mania que adquiri ao longo de mais de trinta anos de economia por força da dureza financeira. Fiz o bochecho e joguei a caixinha no lixo do banheiro. O lixinho do banheiro foi pro lixo master e, no final do dia, já estava no caminhão da prefeitura.

À noite meu marido chegou em casa do trabalho, foi para o banheiro lavar as mãos antes do jantar e sua linda mente controladora tocou o alarme. Duas caixinhas de fio dental?!?!?! WTF? Mas de manhã eram três!

No comando das pernas, a mente de Isaac levou-o até meu encontro na sala de almoço com aquele olhar indignado de quem tem um mistério escabroso para resolver. Ele entrou na sala e atacou:

- Cadê a caixinha de fio dental?

- Tá na pia do banheiro.

- Não, não está. Tem só duas. Hoje de manhã eram três. Tem uma faltando.

- Ah, acabou.

- Como assim 'acabou'?

- Acabou, não tinha mais fio. Sabe, tipo, tudo acaba, o fio dental, as caixinhas, a vida? Acabou.

- Mas acabou mesmo? Tem certeza?

- Acabou, meu bem. Eu peguei o fim do fio, nem era suficiente pra limpar todos os dentes. Aí eu peguei a caixinha e joguei fora. Meu bem, por que você tá fazendo um big deal dessa história? Acabou, joguei fora, fim da história. Podemos comer?

Ele sentou pra comer, mas era visível sua indignação. Eu sei como funciona. Ele sai, tem 3 caixinhas. Volta e tem só duas. Se eu o conheço bem ele deve ter procurado a 3a. caixinha vazia olhando na lixeirinha do meu espelho. Sabe, não é maldade, é uma coisa da mente controladora da pessoa. Tem uma coisa faltando, ela não viu, ela não se conforma, não aceita.

Eu, por minha vez, sou muito implicante. E não gosto de ter que dar explicações de todos os detalhes da minha vida. E é aí que o amor entra. Porque não é uma questão de lógica, mas de afeto, tolerância e compreensão.

Já entendi como as coisas acontecem e sei que pra que ele seja feliz, ele precisa saber das coisas, precisa aplacar essa ansiedade. E é pra isso que estamos juntos, para sermos felizes.

E foi assim que aprendi como lidar com isso. Agora, quando vou usar o fio dental, verifico se está no final. Se estiver e for acabar na minha vez, eu uso outro. Ou pego só um pedaço, calculando para que termine sempre NA VEZ DELE.

Agora mesmo fui escovar os dentes para sair e vi que a pasta de dentes estava no talo, quase no final. Espremi tudo o que eu pude até pegar aquele restinho de gel azul que costuma cair em todas as minhas roupas. Caiu de novo. Fiquei sem pasta. Fui tentar de novo, não deu. Peguei uma outra pasta, mas não joguei a que estava usada no lixinho. Deixei lá. Sei que quando ele chegar ele vai tentar interrogá-la, torturá-la, até que ela entregue mais um pouquinho de pasta. Não é mesquinharia, é hábito. E, quando ele notar que não tem mais jeito mesmo, ele vai jogá-la no lixo. Assim ele vai saber o final da história e vai arquivar o caso. Porque, pra mente do Isaac, não ter essa informação, não conviver com o término da pasta, do fio, de qualquer coisa, é como ler um livro até o fim e descobrir que alguém arrancou as últimas páginas. Meio que invalida toda a história. Sentia isso quando era estudante e alguém pedia a última mordida do sanduíche. Parece que fica faltando alguma coisa.

Aos poucos, com amor, carinho, compreensão e sem julgamento, vou conversando com ele sobre esses detalhes de personalidade, meus e dele. Hoje já conseguimos andar pela areia da praia e chegar ao outro lado e voltar sem que ele precise tocar a mão numa pedra no final da baía. Antes ele não conseguia. Se a gente resolvesse dar meia volta a alguns metros do paredão, ele corria até as pedras pra ~bater a mão~. Dependendo do meu humor eu vou até lá encostar na pedra, apesar de achar isso uma bobagem sem tamanho. Dependendo do humor dele ele abre mão do ritual.

O que conta, afinal, não é a lógica, mas o amor.
O amor prescinde de bom senso. O amor é absoluto. O amor aceita. Com alegria. E sem reclamar.
Um dia eu chego lá.^
Por enquanto eu só aprendi que sem sentido é viver sem conseguir amar.

 

comentarios-icon38 Comentários
Um beijo, um browse, um aperto de mouse da @rosana
  • Twitter
  • RSS
  • Facebook
38 Comentários

"Como fazer com que o amor continue quando a pasta de dente acaba"

24 de January de 2013 às 11:24 - Postado por rosana

* preenchimento obrigatório



Digite o texto da imagem ao lado: *

Política de moderação de comentários:
A legislação brasileira prevê a possibilidade de se responsabilizar o blogueiro pelo conteúdo do blog, inclusive quanto a comentários; portanto, o autor deste blog reserva a si o direito de não publicar comentários que firam a lei, a ética ou quaisquer outros princípios da boa convivência. Não serão aceitos comentários anônimos ou que envolvam crimes de calúnia, ofensa, falsidade ideológica, multiplicidade de nomes para um mesmo IP ou invasão de privacidade pessoal / familiar a qualquer pessoa. Comentários sobre assuntos que não são tratados aqui também poderão ser suprimidos, bem como comentários com links. Este é um espaço público e coletivo e merece ser mantido limpo para o bem-estar de todos nós.
Comentários
  • Jose Luiz Padilha
    - 27 27UTC março 27UTC 2013 - 10:03 PM

    Ola,meu nome e Jose Luiz Padilha,moro na Cidade de Correia Pinto no Estado de Santa Catarina.Gostaria de Comunicar que Filial de Santa Catarina a Rede RIC RECORD esta apresentando Problema,a Imagem esta passa bem,mas o Audio esta sem retorno,sem Voz,gostaria de comunicar este Problema,se for atendido,fico muito agradecido.Muito Obrigado.Um Abraco.Jose Luiz Padilha.Correia Pinto.SC

    Responder
  • gio
    - 5 05UTC fevereiro 05UTC 2013 - 4:14 PM

    È o meu marido! Igualzinho!!! haja paciencia! hahhahaaa....

    Responder
1 2 3 4 5
Ir para a home do site
Todos os direitos reservados - 2009- Rádio e Televisão Record S/A
exceda.com