Rosana Hermann

4 de dezembro de 2012 às 10h41

Eu, você, os garis e os porteiros

Quem sou eu pra falar de humildade, não é mesmo, colegas?
Já ouvi tanta gente me classificando como arrogante que estou prestes a me declarar a maior autoridade em arrogância do mundo!

Pronto. Estou oficialmente me autoproclamando A Maior Autoridade em Arrogância do Mundo e, munida deste poder, vos declaro:

- Eu reconheço outro arrogante quando vejo um.

E, olha, o mundo está repleto de arrogantes inconscientes, que se acham tão humildes, mas tão humildes, que autoproclamam-se as pessoas mais humildes e corretas do mundo.

Pelo que tenho visto é muito difícil andar uma vida na estreita corda bamba da retidão. Ora a gente pende pra um lado, ora pende pro outro e, na maior parte das vezes. Cai. O negócio é aprender a subir de novo bem rapidinho.

Muita gente que parece tão bacana na mídia tem lá dentro de si um sentimento muito arraigado de superioridade, de estar pairando num patamar acima de todas as outras pessoas.

Ninguém tem culpa exclusiva na história. Os dois lados fazem parte da mesma encenação, fãs e ídolos.

Os fãs ficam o tempo todo elogiando de baixo pra cima, paparicando, mimando o ídolo. Como se gostassem dessa posição subalterna de adorador.

Os ídolos se acostumam com tantos elogios e paparicação e acabam viciados em mimos.

E todos saem do equilíbrio e vão se descolando do fato mais básico e óbvio, aquele que diz que vamos todos morrer e que ninguém é melhor que ninguém nessa Terra.

A parte do morrer a gente sabe bem, mas disfarça, finge que não é com a gente.

A parte do ~somos todos iguais~ , bem, somos todos diferentes e isso nos confunde. Somos todos diferentes uns dos outros, mas temos todos os mesmos direitos e, aos olhos de D'us, ninguém vale mais do que ninguém.

Acontece que, enquanto estamos aqui olhando de baixo para cima para nossos ídolos, cujas arrogâncias nutrimos com nossas bajulações, sinceras ou interesseiras, eles vão revelando seus sentimentos diante de nossos olhos e ouvidos.

Um dos casos comentados da história recente da mídia foi do Bóris Casoy. Com o áudio aberto depois de uma reportagem que entrevistava um gari, ouvimos o respeitado jornalista comentar que lhe parecia absurdo pedir a opinião de um gari. Para ele, o gari, função que paga pouco e emprega pessoas com menos preparo formal, não podia pensar ou dizer nada que interessasse aos telespectadores do jornal. Para ele, como para muita gente, o gari é quase um robôzinho que limpa a cidade, invisível, cuja opinião não serve pra nada. A falha custou-lhe uma boa fatia do seu prestígio e a quase totalidade do seu respeito público. O famoso 'pegou mal', aquela manchinha pequena que estraga a roupa. Que ele pense ou sinta isso é uma coisa, que ele diga isso no microfone aberto é outra. Foi um erro. Todos cometemos erros. O importante é aprender com eles. Bóris deve ter aproveitado a ocasião para um exame de consciência e nós para um exercício de perdão.

Agora vemos algo semelhante acontecer na coluna de Danusa Leão. Já li vários livros da Danusa, sou seguidora da Pinky (sua filha) e gosto de ambas. Ela foi muito infeliz em sua colocação (menciona aqui nos comentários do QL pelo Cristiano) da semana passada, ao dizer que viagens para Paris ou Nova York tinham perdido a graça pra ela porque agora você o risco de encontrar o porteiro do seu prédio na cidade.

Sim, nós entendemos o que ela quis dizer. Ela está falando da popularização desses destinos, que estão permitindo que pessoas que nunca tiveram poder aquisitivo para viagens internacionais realizem esses sonhos.

Entendemos E discordamos veementemente!

Não é que seja ruim ESCREVER isso, é péssimo pensar e sentir isso. Ao mesmo tempo que ficamos bravos com Danusa, deveríamos também sentir compaixão por uma pensamento tão errado e por uma frase tão infeliz.

Todo mundo tem direito a realizar seus sonhos e o Brasil inclusivo é a oitava maravilha do mundo MESMO. Todo mundo tem que ter dinheiro suficiente pra ter uma vida digna que inclui sonhos, viagens, bens, lazer, como qualquer pessoa. É realmente desumano pensar que só quem tem dinheiro ~merece~ desfrutar da vida.

Danusa caiu no mesmo erro de Bóris. E o erro, repito, não está em externar esse pensamento, mas em formular esse tipo de sentimento de superioridade.

E, olha, quem escreve aqui é a Rainha da Arrogância, lembra? Assumidamente. Nâo cabe, portanto invocar o provérbio do ~roto falando do rasgado~ . É a autoridade na arte de ser metida a superior apontando outros infelizes adeptos.

A arrogância, gente, assim como a inveja, é uma merda.E como toda merda, cheira mal.

A arrogância acaba com a elegãncia, assim como o fedor acaba com a beleza.
Experimente chegar perto de uma pessoa linda e fedorenta, com bafo. Nâo dá.
O preconceito também fede alto, por assim dizer.
Você conhece uma pessoa e, quando toma contato com seu preconceito, sente um mal estar que desnorteia, de tão ruim.

Eu anotei isso na aula:

"Olhar com desdém, sentir-se superior, fede. A prepotência cheira mal.
O orgulho fede.
E quanto mais subliminar, mais elaborada a maldade, a indireta pro outro, cheia de álibis e verdades, mais suja a pessoa. "

Bóris foi infeliz e pagou por isso.
Danusa foi infeliz em sua colocação e desculpou-se por isso.

Cabe a cada um de nós ter compaixão por eles, perdoar e seguir em frente.
Porque ficar alfinetando os dois, como se nós nunca errássemos, como se não tivéssemos preconceito nenhum, como se fôssemos perfeitos, só vai fazer de nós pessoas tão arrogantes quanto aquelas que apontamos como tal.

A arrogância é uma cilada, bebê.
Você aponta o indicador pro outro e tem 3 dedos virados pra você.

ZsekX Eu, você, os garis e os porteiros

11 Comentários

"Eu, você, os garis e os porteiros"

4 de December de 2012 às 10:41 - Postado por rosana

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Comentários
  • Luís Felipe
    - 12/12/2012 - 10:44 PM

    Esse texto me recordou um recente artigo de um rancoroso Artur Xexéo sobre a ascensão da classe C. Entendi que seu objetivo era a crescente uniformizacão dos gostos, mas no fim das contas soou apenas como um mimimi de "classe média sofre". Perdi completamente o tesão que eu tinha ao ler seus textos. Ah! Ele nunca se desculpou...

    Responder
  • Dani
    - 05/12/2012 - 3:15 PM

    Cito: "O homem que diz tô, num tá, porque quem tá mesmo, não diz."

    Responder
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