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1 outubro 2009

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São Paulo encolheu?

Publicado por: Lucio Sturm

Como noticiou o R7, a prova do ENEM que seria aplicada neste fim de semana foi cancelada. Nem por isso a crônica perde seu sentido.

Sim, São Paulo encolheu. Não geograficamente, mas na cabeça dos paulistanos. Foi essa minha sensação ao fazer reportagem sobre o ENEM, exibida na terça-feira (29).

Qual a relação entre o exame nacional do ensino médio e o tamanho da cidade? Eu explico. Para quem não acompanhou, ocorreu o seguinte: uma falha no programa de computador embaralhou a lista de candidatos e escolas onde acontecerão as provas. O cara que mora em Moema e pediu para fazer o exame na escola do bairro acabou escalado na casa do chapéu… longe pra caramba!

Bem, comecei a produção da reportagem em um cursinho frequentado por estudantes de baixo poder aquisitivo na Lapa, Zona Oeste. Gente assustada...

- Moro aqui perto. Mas vou ter que fazer a prova no Tatuapé! Não sei chegar.

Um rapaz de 21 anos, da Freguesia do Ó, estava registrado em uma escola do Parque São Lucas, Zona Leste. Para ele, parecia outro planeta. Não conhecer o Parque São Lucas, tudo bem. O problema é que ele também não sabia nada dos lugares por onde teria que passar para trocar de ônibus. Parque Dom Pedro? Largo Payssandu?

- Nunca estive nesse lugares, disse ele, olhando com cara de perdido para o mapa do centro da cidade.

O que mais me impressionou foi uma estudante de 22 anos.

- Onde você mora? perguntei.

- No Butantã. Vou ter que fazer prova na Pompéia!!

- Mas pra você tá fácil. É do lado, respondi.

- Imagina, nem sei onde fica isso!!!!

Achei muito esquisito. Como pode? São bairros quase colados. Tentei entender. Talvez com o crescimento da cidade, os bairros de São Paulo ganharam vida própria. Tamanha variedade de serviços que ninguém mais precisa se deslocar para encontrar o que quer. Tem também o trânsito que desestimula qualquer passeio mais distante.

Segui para uma escola de classe média-alta no Itaim. Encontrei alunos apavorados!

- Não vou fazer o exame!

- Por quê?

- Me colocaram numa escola no Grajaú. Dá mais de 30 km daqui.

Tentei convencer a garota.

- Calma. Eu já estive lá. Durante o dia é tranquilo.

- Tranquilo? Fui de carro com minha mãe pra conhecer. Ficamos com medo, voltamos no meio do caminho.

Um aluno, de dezoito anos, retrucou.

- Também não vou. Pesquisei no Google Maps. O lugar da minha prova fica ao lado de uma favela, no Capão Redondo.

- Vai de táxi. Com roupa velha, argumentei.

- Sem chance. No dia do exame meus pais têm compromisso e não podem me levar.

Outros contaram que iriam se aventurar por outras regiões da capital, mas com o pé atrás. Mãe leva, pai busca.

Engraçado. Quando eu tinha a idade dessa molecada o que eu mais queria era motivo para ir longe. Adorava conhecer lugares novos, fossem feios ou bonitos. Queria descobrir o mundo ao vivo e em cores. Na época do vestibular, todo mundo viajava para outras cidades e estados atrás das melhores vagas…

Com ou sem ENEM esses estudantes vão se formar… advogados, engenheiros, médicos, professores. Serão estrangeiros na própria cidade?

Espero que não.

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