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2 outubro 2009

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O que São Paulo tem?

Publicado por: Cleisla Garcia

Ontem recebi um e-mail de uma amiga falando sobre o desafio insano de se estabelecer em Nova York.

Êta cidade de códigos indecifráveis, idiomas intermináveis e incontáveis bueiros que baforam uma fumaça cinematográfica.

Viver na capital do planeta deve ser tão excitante quanto intrigante. Da 5ª à 7ª avenida. Da Broadway ao Brooklin. Esses nomes que a gente decora pra parecer antenado.

Não importa. Seja em Nova York, Tóqui ou São Paulo. Um dia... tudo vai ficar previsível.

Mais cedo ou mais tarde, cada um... à sua maneira, à sua capacidade, sendo analfabeto ou poliglota, vai dominar o território que ocupa, caso queira e se movimente pra isso.

Me lembro bem de quando saí ainda garota do interior de Goiás pra capital. Depois de Goiänia pra São Paulo.

Difícil mesmo é a primeira vez.

Complicado é sair da barriga da mãe. Depois, trocar de cidade, de país, de estado civil ou de alma pra matéria, tem menos entusiasmo.

Quem tem boca, boa vontade e pouca preguiça consegue compreender o movimento das coisas. Seguir trilhas de cristais na Chapada dos Veadeiros ou o confuso sistema de irrigação no sudeste asiático, antigo Império Khmer.

Pra quem é do interior do Brasil, São Paulo bota medo, quase espanto. Assim como NY emudece quem vem dos outros cantos do planeta.

Mas, acredite em mim: vai ser só por um tempo.

São Paulo é uma máquina que quando acaba a energia, tem gerador ligado.

Vira e mexe, fica cinza, se escorrega num bege pálido. Não por causa da ausência de cores. É porque nuvens insistentes ficam fumegando chuva fina, cuspindo vapor na gente, como os bueiros de Nova York.

Andar no Minhocão pela primeira vez provoca um misto de poder, desafio e raiva, quando o que é pra ser expresso fica lento, lento e pára. Pior ainda, se era pra você virar à direita na 23 de maio e perde o prumo, o rumo e vai cair longe, longe, bem longe do trajeto que você decorou e jura pra todo mundo que sabia de cór. Que nada! É o caminho do aeroporto, o único que você acha que sabe, além do caminho de casa. Aliás, paulistano nasce com uma bússola na cabeça. Só aqui, descobri na prática pra que lado fica a Zona Oeste. É pra sua vida não virar uma zona.

O duro não é dominar o Minhocão e se sentir um novo paulistano. Pior é descobrir que o Minhocão se reproduz e se multiplica em um monte de minhoquinhas de duas cabeças, que obrigam você perder a sua. Avenidas sem volta, mão só de táxi e ônibus, bifurcações que levam a mundos distantes, que fazem qualquer forasteiro perder os sentidos.

O bom de tudo são os paulistanos.

Um povo bonito, que bota cor na vida com o tom dos cachecóis. A vida pode estar cinza, congestionada, eminhocada, mas um pedaço de pano rosa, vinho, verde ou vermelho, muda tudo. Traz glamour, adorna delicadamente o pescoço, oferece leveza e estilo. O nariz nem precisa ser empinado, tão pouco se deprecia a olhar as poças d'agua no chão. Olhar é assim... sempre no horizonte, um pouquinho de lado, dando o caimento perfeito, o nível exato para o descanso dos cachecóis. Paulistano tem pressa. Isso é irritante, mas é nobre. Corre pra ter um raiozinho de vida no fim do turno, pra degustar meia xícara de um café forte que faz espuma. Paulistano não muda de roupa pra sair à noite. Vai direto do trabalho. No máximo, troca o casaco que tá no carro e amarra diferente o cachecol. Uma vida a todo vapor. Um filete colorido no meio da imensidão pálida e divina. Vida com taquicardia, misteriosa, intensa, quase cinematográfica como os bueiros de Nova York.

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