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8 outubro 2009

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Delírios de um jornalista sem canudo

Publicado por: Ogg Ibrahim

Acabaram com o diploma de jornalismo. Ainda bem! Vou já retirar aquele quadro ensebado, cheio de cocô de mosquito e que já deixou marcas na parede. Pelo menos não vou ouvir mais dos amigos, com ar de desprezo, "Nossa, você estudou ali?". Vergonha!

Fico saudoso apenas porque consegui-lo foi um sufoco – meses e meses matando aula nas mesas de bilhar no bar da esquina da faculdade. O que faço agora com as fotos da formatura, da festa de entrega dos canudos, do baile? Vou pendurar na janela do apê pra espantar aleluia (que infestam essa época do ano). Ah, saudades que vou sentir também dos churrascos que fizemos pra juntar dinheiro pra pagar a festa de formatura (mas que na verdade serviu pra outras bebedeiras), das rifas (de produtos que nunca entregamos), daquele videozinho safado que produzimos pra mostrar os quatro anos de farra. Só agora percebo que foi tudo tempo perdido. Essa montoeira de coisas agora vai pruma caixa que será colocada na última prateleira da minha empoeirada garagem.

Bom, pelo menos minha formação vai servir pra uma coisa: se algum dia eu for preso vou ter cela especial. Ou será que o Gilmar Mendes também acabou com esse benefício para os jornalistas já que o diploma não vale mais? "Não, não! Que cela especial o quê ? Bota esse aí no calabouço! E não esquece de tirar o crachá dele".

Outro dia encontrei um colega de profissão:

- E aí Aderbal, largou as redações. O que tem feito?
- Ah, agora sou cozinheiro de um restaurante a quilo ali na Lapa! E nas horas de folga sou jornalista.
- Mas como tu conseguiu isso?
- O bico de jornalista? Fácil, foi só dizer que eu escrevia obituários no jornal.
- Não, o de cozinheiro!
- Ah, esse não foi fácil não. Exigiram diploma de culinária do Senac. Foi um sufoco!

E sabe que já comecei a sentir os efeitos da decisão do Gilmar? Na hora de apresentar um documento no supermercado pra pagar com cheque, mostrei a carteira da FENAJ. Chamaram segurança, me colocaram de mão na parede e apalparam tudo quanto é lugar do meu corpo. E olha que tava apenas comprando pasta e escova de dente. Tive de mostrar a carteirinha de sócio do clube dos Jogadores Profissionais de Dominó de Camanducaia do Sul pra não sair dali algemado.

Cara de sorte é o faxineiro do meu prédio. Ao sair do elevador dei de cara com ele se vangloriando do novo crachá. Tinha o logotipo de uma emissora de TV ali na Berrini. Perguntei se ele tinha conseguido vaguinha de emprego na faxina de lá. "Quiéisso Doutô! Agora sêmo colega! Consegui um boquinha ali e to de repórte setorista, só faço matéria de saúde e higieni. Afinal, eu manjo da área né?!".

Corri pro Senac pra ver o que tinha de curso por lá. Sei lá né... só pra grantir o futuro!

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