9 outubro 2009
Aos tratoristas, que levam a imprensa adiante
Publicado por: Cris GomesNuma reportagem, o que vai ao ar não revela tudo. Nem daria. O telespectador quer saber se a polícia prendeu a quadrilha que sequestrou e matou um aposentado em São Paulo. Não cabe dizer no ar que, para chegar ao lugar onde o corpo estava enterrado, eu, cinegafista e auxiliar tivemos que chamar um trator, assim como quem chama um táxi.
Perto da morte trágica, o meio de transporte da imprensa fica desprezível, com razão. Mas é curioso, se mudarmos o foco, o que um repórter vive para alcançar a notícia. O trator levava árvores a uma fazenda ali perto, em Cajamar, a 40 km da capital paulista. Era uma área rural. Convencer o tratorista a interromper o trabalho dele e nos levar não foi fácil. Pedi, simplesmente, dizendo que se tratava de um crime absurdo. Ele resolveu pedir permissão ao chefe.
Aí complicou. O chefe disse que não. Eu apelei : "Puxa , você conhecia a vítima (ele havia me contado isso minutos antes), e seu chefe não precisa saber, é bem pertinho daqui, e é importante noticiar uma covardia dessas". Ele topou. Três pessoas no trator, mais equipamento de filmagem, além do motorista. Todo mundo apertado. A lama e a buraqueira na estrada de terra jogavam a máquina de um lado para outro, parecia que íamos tombar. Passamos. Eu, com certo medo.
Cair de uma lancha em alto mar, com terninho, microfone e tudo? Aconteceu também. Estranho foi subir na lancha de volta, continuar a gravação toda molhada , e voltar para redação de canga, comprada num camelô. A reportagem era sobre navios vindos da China, e o temor de que passageiros trouxessem a gripe aviária. A parte engraçada (repórter na água!) ficou de fora, claro.
Geralmente, revezes e obstáculos são superados pela equipe na rua. Pessoas, como o tratorista, que não ganham nada em ajudar a reportagem, quase sempre ajudam. Na época da morte de Isabela Nardoni, vizinhos abriam as portas para a imprensa usar banheiros e ofereciam água e cafézinho. Numa cobertura de grande porte, que dura semanas, sempre alguém acolhe repórteres e fotógrafos. Esta colaboração é tocante. É gente que facilita o nosso trabalho, torna o terreno menos hostil e nos leva adiante.











