11 outubro 2009
As detentas da vida moderna
Publicado por: Cleisla GarciaGente,
quem inventou esse protótipo da mulher moderna?
Quem em sã consciência acreditou um dia, por alguns minutos que seja, que esse modelo vigente dos vilarejos a grandes metrópoles do mundo, poderia dar certo?
Não deu! Posso dizer por mim e por centenas de amigas, vizinhas, colegas de trabalho e de caminhadas, praticamente banidas da minha vida desde que me mudei pra São Paulo.
Digo com todas as letras: é insano!
Estamos virando homenzinhos descaracterizados, aprisionados em corpo de mulher.
Pior! Estamos virando robozinhos empoleirados em gente, sugadores da alma feminina.
Não sei se demorou uma década ou milênios de uma história inteira pra conseguir "tais privilégios". Pagar conta, ter jornada quadrúpede, ser modelo de educação, boas maneiras e beleza. Uma espécie de mulher maravilha sem o culote (tá em desuso).
Quem atirou a primeira pedra em direção às Amélias deveria ter sido queimado no lugar dos sutiãs em praça pública.
Gente, a Amélia só se fazia de boba. Nós somos as próprias "otárias estressadas" que se acham "superrr demais".
Meninas, podemos ter 12 horas de trabalho forçado, leituras do dia e dos livros do mês, filhos com dentes escovados e unhas cortadas, despensa cheia, maridos satisfeitos sexualmente, ocupar cargos disputadíssimos e altos salários, mas é preciso uma certa dose de subversão, coisa simples.
(Risos) É preciso pelo menos uma hora por dia ser mulherzinha, viver! Eu garanto!
No meio da madrugada, um bebê chora ou o filho chama. Várias vezes. Pode ser manha, carência ou os dois acoplados. Lá está a mãe. Meio gente, meio zumbi. Nem pense nas chineladas que nossas mães deram na gente. Hoje, isso atrasa o raciocínio da criança, baixa a auto-estima, pode dar cadeia pra você.
Você ressuscita no dia seguinte garota propaganda dos Monstros S.A. Vai pro trabalho com figurino de espantalho. Não porque dormiu mal à noite, mas porque um dia da nossa agenda equivale a uma semana masculina.
Essa coisa de cuidar da carreira, coordenar casa, família e manter o formato do corpo... assim tipo dá pra saber onde fica a cintura, pernas e braços é algo que não beira, mas, atropela a exaustão.
Corpo da Revista Boa Forma já resolvemos esquecer. Mas, aquele negócio fica no inconsciente feminino. Fica sim! E dá um misto de incredubilidade e revolta. Primeiro, porque gostaria de saber quem paga as contas dessas mulheres pra que elas malhem 2 horas por dia ou mais. Depois, de onde vem o rio de tempo que ainda dá a elas algumas outras horas pra massagem, cabeleireiro e spa.
Meu Deus! Mais que dinheiro e felicidade, investir na beleza e na vida fútil consome tempo. O processo é intenso, às vezes, dolorido. É lento, tão lento que só dá pra ver resultado com lupa.
Uma silhueta perfeita e uma cabeça leve em 2009 é quase mágica.
É irreal, ilegal e tem retoques de photoshop, nossa redenção.
A mulher verdadeira, essa como a gente, que trabalha, tem marido, filho, empregada, cachorro e chefe, não na mesma ordem ... está tendo que escolher. Ou malha ou dorme. Passa no supermercado ou faz as unhas. Acaba passando no supermercado e depois, recorre à bolsinha de emergência, aquela que tem alicate, lixa e uma base branquinha.
Não sei vocês. Mas, ando meio cansada dessa rotina de estivador. Só não pode ficar depressiva com isso. Porque se não, aquela fama de mulher bacana e bem humorada que você demorou 33 anos pra esculpir vai embora em segundos.
Pior. Vão dizer que você é bipolar, o rótulo do momento.
Dia desses, fez sol em São Paulo. Isso é raro.
Fez sol e não choveu. Isso é mais raro ainda.
O elevador da Record, apesar de novíssimo, tecnológico, última geração, estava estragado. Isso não é tão raro assim.
Fui obrigada a descer pela escada, abarrotada de coisas. Bolsa pesada, livros, crachá, contas à pagar, o texto do dia já feito e não editado.
Fui descendo rapidamente os degraus até que um raio de sol atingiu certeiro meu rosto e cada célula do meu corpo, que conseguiu escapar da fantasia de repórter. Casaco pesado, camisa, bota, maquiagem e óculos.
Até o estacionamento da Record, foram alguns minutos de contato com os raios ultravioletas. Comecei a sentir uma coisa estranha. Sol, escada, caminhada. Acho que em contato com os hormônios femininos causaram alguma reação. Desacelerei a marcha e resolvi aproveitar a minha praia paulistana, rodeada de prédios. Peguei os caminhos mais longos, todos que pudessem proporcionar um pouco de luz e sol. Parei no estacionamento e fiquei fazendo nada, pensando em nada. Tirei folga por 15 minutos sem um pingo de culpa. Estava sob efeitos das drogas do sol, uma picada de vida alucinógena.
Antes de ligar o carro pensei: Meu Deus, que loucura! O momento mais prazeiroso do dia da mulher moderna é descer a escada? Pensei em procurar um psiquiatra.
Desisti porque não dá pra achar um horário na minha agenda.
A nossa vida anda pior que a dos presos de Guantánamo, aquela prisão de segurança máxima de Cuba.
Lá, pelo menos, os detentos tem hora pra comer, dormir, pra ler correspondências e ah... que delícia! Acredite! Eles tem banho de sol. E, olha o plus... também tem acesso à psicólogo de graça, caso queiram se matar.
Por essas bandas de cá, no universo "encantado" da mulher moderna e sobrevivente, os compromissos andam assassinando nossas almas devagar, perversamente, enforcando nossos desejos, adulterando nossas vontades mais pueris. E, nem dá tempo de marcar o psicanalista. Além disso, o plano de saúde não cobre.
Quando alguém me diz que às vezes sofre enxaqueca, dor nas costas, no peito, tem celulite e tem observado aumento de peso, fico feliz. São os problemas da modernidade.
É sempre melhor ter com quem compartilhar suas dores e desamores.
Meninas, convoco a todas!
Vamos nos rebelar!
Cada uma à sua maneira, dentro das suas condições físicas e financeiras, divorciadas, mães ou solteiras.
Vamos decretar pelo menos uma hora por dia de futilidade, pra ser mocinha. Um momento Barbie.
Fazer unhas, ir às compras, fazer massagem, fofocar no telefone ou simplesmente deitar no sofá sem pressa, sem ter na cabeça ou no iPhone, a agenda do Barack Obama em sinal de alerta. Parece impossível, mas é razoável e faz um bem danado.
Ah... E pelo amor de Deus, hein? Não vale ficar subindo e descendo escada, passeando pelos corredores do trabalho pra tomar banho de sol.
Isso é coisa de quem tá no regime semi-aberto. Pelo menos, juridicamente, somos livres.
Não cometemos nem um crime. Ainda.











