14 outubro 2009
Personagens incríveis
Publicado por: Ogg IbrahimPegando carona no post da minha colega Cris Gomes, aproveito para contar a história de um personagem fantástico que tive o prazer de entrevistar.
Eu ainda estava em Santa Catarina e fui para Canoinhas, interior do estado, fazer uma matéria sobre um mestre cervejeiro que ainda comandava a cervejaria que tinha sido do pai - provavelmente a mais antiga do Brasil. Detalhe: ele tinha, na época da matéria, três anos atrás, 89 anos.
Seu Rupprecht Loeffler, nome difícil de pronunciar, era um homem incomum para a sua idade. Ele acordava por volta das sete da manhã e abria a cervejaria todos os dias, religiosamente. Nem uma gripe ou mal estar qualquer atrapalhavam sua rotina. Às onze horas parava para almoçar, impreterivelmente, e retornava uma da tarde para continuar seu trabalho. Pontualmente às cinco baixava as portas. Nossa equipe também deveria obedecer a esses horários para fazer a matéria.
Na cervejaria em Canoinhas, fundada em 1908, trabalham apenas seu Rupprecht e mais dois funcionários. São produzidas ali apenas 1500 garrafas de cerveja por ano, sempre no período de agosto a outubro, que eram vendidas a consumidores que vinham de todas as partes do país.
Seu Rupprecht era uma figura. Mal conseguia caminhar, apoiado numa bengala e com o corpo curvado por causa de um problema de coluna. Eu perguntei se ele bebia."Desde os sete anos de idade quando comecei a trabalhar aqui", respondeu, com um largo sorriso no rosto. "Meu pai sempre dizia pra minha mãe: na falta de leite, dá cerveja preta pra essa piazada que faz bem", completou rindo da própria situação.
É o próprio velhinho quem cuida da produção - escolhe o lúpulo, a cevada e os demais ingredientes da sua cerveja e mistura tudo, a olho, confiante na experiência que a idade lhe confere. Não deixa ninguém mais por a mão. Os dois funcionários apenas cuidam do funcionamento dos tonéis e panelões de cozimento, tudo artesanal.
Perguntei se ele hoje, aos 89 anos, ainda bebia. "Diminuí muito. Já cheguei a tomar 5 litros de cerveja por dia. Hoje são só dois litros". "Por dia?", insisti. "É... mas só da preta, por recomendação médica!". A mulher do velhinho ainda confirmou que ele nunca ficou doente na vida, nem gripado. E de vez em quando ainda a "incomodava". Nem perguntei como.
Um brinde ao seu Rupprecht!











