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2 novembro 2009

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Desconfie até da própria mulher

Publicado por: Ogg Ibrahim

Recentemente, assisti a um filme interessante sobre a profissão do jornalista. Intrigas de Estado (com Russel Crowe e Ben Affleck) mostra um jogo de poder no Congresso americano, dominado pelos interesses da indústria da guerra. Mas, muito mais que revelar os bastidores da corrupção e de esquemas cabulosos, o filme mostra a atuação da mídia na denúncia dos fatos. Uma situação interessante que vivemos diariamente na vida real.

Nós, repórteres, muitas vezes somos levados a dar informações que não condizem com a realidade. Mas isso só acontece com quem não tem um olhar mais apurado sobre aquilo do qual está se tratando. Vou dar um exemplo: fui fazer reportagem sobre a divulgação dos números da violência em São Paulo. Os dados publicados por um jornal impresso atestavam o crescimento da criminalidade, principalmente da modalidade seqüestro. Ao ir para a coletiva, a situação mostrada pela Secretaria de Segurança Pública era o contrário – a violência tinha diminuído. Poxa, algo estranho há aí, pensei. Se não tivesse apurado um pouco mais, eu teria incorrido no erro de publicar uma inverdade. Ao consultar um especialista, ele me confirmou o que eu imaginava. Os dados divulgados pela SSP faziam a comparação com o trimestre anterior e o correto seria relacioná-los com o mesmo período do ano passado. Por que? Porque comparando-se momentos semelhantes (mesmos meses, mesma época, mesmo trimestre) temos uma situação mais próxima do real e com ocorrências que não acontecem em outras épocas do ano. Para exemplificar melhor, seria como comparar as vendas do mês de dezembro, as vésperas do Natal, com as de novembro.  É lógico que são momentos diferentes para o comércio e não seria possível comparar um mês com o outro. Certo?

intrigas de estado Desconfie até da própria mulher

Bom, voltando ao tema do filme: uma fonte do jornalista principal, representado por Crowe, o leva a quase publicar uma matéria onde ele, a fonte, seria a vítima. O final do filme revela o contrário. Por isso reforço o que um dos meus mestres no jornalismo sempre me disse: “Sempre desconfie das suas fontes, principalmente se elas forem sua mulher ou amigos próximos”. Essa proximidade pode ser tão útil quanto perversa, dependendo dos interesses envolvidos na questão.

Muito além de saber escrever bem e ter bons contatos, nós jornalistas precisamos do exercício diário da desconfiança. Desconfiar de denúncias, de números, desconfiar de situações, por mais banais que pareçam.

Quer outro exemplo? Na operação que a Policia Civil realizou no Estado de São Paulo recentemente, foram presos nos 645 municípios, em apenas um dia, cerca de 2.200 criminosos. Para a polícia, um recorde. Ao analisar um pouco melhor os números, vimos que isso resultou em pouco mais de 3 prisões por cidade, em média. Será que seriam mesmo necessários mais de 9 mil homens para atingir esse resultado? Todos da imprensa séria apontaram isso como uma manobra midiática da polícia.

E esse é o nosso papel, buscar incansavelmente a verdade. Muitas vezes a pressão e a urgência de “dar o furo” nos levam a cometer erros, não somos perfeitos. Ter a desconfiança para tudo já é um bom caminho para mudar isso.

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