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4 novembro 2009

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O Carandiru que eu vi de perto

Publicado por: André Tal

 O Carandiru que eu vi de perto

- Cadê a comida do ladrão!

- Ladrão tá com fome!

Tah... tah... tah... tah...

Uma sinfonia de gritos e batidas de latas nas grades. Um jovem repórter, assustado e empolgado ao mesmo tempo. Lembro-me como se fosse hoje. Tinha acabado de entrar na Casa de Detenção, o famoso Carandiru, para mais um dia de gravação. Estava no pátio interno de um dos pavilhões. Nesse dia, cheguei enquanto os detentos ainda estavam trancados, às 11 da manhã, aguardando uma revista dos funcionários. E quando ficavam fechados, eles agiam como animais. Principalmente perto da hora do almoço.

Fazer um especial sobre o Carandiru foi minha primeira grande missão, primeiro grande trabalho como repórter. Era final de 2001, meses antes da demolição, eu trabalhava na Rede TV! e tinha 23 anos.

Não havia muita produção. A chefia conseguiu uma autorização do juiz para mostrar o cotidiano da maior prisão da América Latina. E me mandaram pra lá. Fui sem saber o que iria encontrar. O diretor designou um funcionário para me acompanhar. Assim que saímos da sala do diretor, o funcionário me olhou com desdém e disse: "Quero ver você gravar aqui, eu não vou te ajudar". Entramos no presídio e ele continuou com o deboche. Gritou para um dos presos que passavam: "E aí, quer aparecer na TV?". O preso saiu de perto. A maioria dos presos tem medo de aparecer porque podem ser reconhecidos por outras vítimas e receber novas penas.

Eu era jovem, pouco experiente, mas persistente e resolvi negociar com os detentos. Me aproximei de um deles e falei: "Olha só, quem passa lá fora pensa que aqui dentro existem 7 mil animais. A gente quer mostrar que vocês são pessoas, seres humanos, mas que optaram pelo crime e estão pagando as penas. Queremos mostrar como vocês vivem aqui dentro. Fala com a chefia do pavilhão lá em cima. Eu te espero aqui embaixo."

Meia hora depois, ele voltou e disse: "Tá liberado". O funcionário ficou com raiva, mas eu já não precisava dele. Mais tarde, um outro funcionário, conhecido como Bin Laden, me ajudou bastante. Subi, conversei com os "cabeças" e comecei a gravar. No primeiro dia foi pouco, mas abri portas. Dali para frente, poderia voltar e gravar cada dia uma coisa diferente. O estranho é que a recepção foi especial. Me ofereceram doce de leite em tablete. Quando quebrei um pedaço, migalhas cairam no chão. Não me deixaram limpar. Eu era visita e tinha privilégios. Fiquei preocupado com parte do equipamento que deixamos no canto do pavilhão. Eles me disseram: "Fica tranquilo, aqui ninguém rouba". Até eles deram risada, mas era verdade, lá dentro ninguém ia nos roubar.

Nos dias seguintes, entrevistei dezenas de presos, novatos, antigos, sobreviventes do Massacre do Carandiru e outros personagens. Mostrei o futebol deles, a musculação, as celas, o candomblé, as igrejas evangélicas, a católica, a área dos jurados de morte e também a ala dos travestis. Já me sentia à vontade perto deles. Era estranha essa sensação. Mas todos me diziam: "A gente é igual a você, só que sua profissão é jornalista e a nossa é roubar". Não concordo muito com essa idéia, mas é assim que eles pensam.

Algumas cenas me marcaram para sempre. Num dos dias que eu cheguei, tinha um senhor, aproximadamente 45 anos, negro, forte, sendo conduzido por um dos agentes. Ele estava sendo levado para outro presídio e aproveitou para se despedir da sua "namorada". Ele olhava para o alto do prédio e gritava: "Eu te amo". Lá em cima, um travesti abanava um lenço branco e pedia: “Me escreve, não me esquece". Ele respondeu: "Vou te escrever, as palavras são fortes" e foi embora. Pois é, ladrão também se apaixona. Mas claro que a maioria dos presos não aceita bem esse tipo de situação.

Quando estava no pavilhão nove, entrevistando um preso de 19 anos, passei o maior susto. Perguntei a ele como uma rebelião começava. Se havia uma ordem geral, se só os "cabeças" ficavam sabendo. E ele fechou o semblante e disse: "Não tem nada disso, de repente vira a cadeira, pode virar agora, e aí?". Ficou me olhando. Eu agradeci e resolvi sair de perto.

No último dia de gravação, já me sentia íntimo do chefe de um dos pavilhões. Ele começou a contar a sua história no crime, sem gravar. Estava contando alguns assaltos que praticou para mim e para o cinegrafista, Marcos Travaglia. A câmera estava desligada, mas ele desconfiou e perguntou: "Não está gravando, né?". Dissemos que claro que não e brincamos: "Acha que a gente ia arriscar, depois você sai daí e vem atrás da gente". Ele riu e completou: "Não precisa nem sair, é só avisar o pessoal pra ir atrás de fulano assim, assado". Percebi que a intimidade com eles vale muito pouco.

Tem muitas outras histórias de lá, mas precisaria de muito espaço para escrever todas elas.

Quando a série de matérias foi veiculada, recebi muitos parabéns dos meus chefes e amigos. Senti que tinha potencial na profissão. Hoje, tenho certeza que faria um trabalho muito melhor. Mas o Carandiru virou pó, foi demolido. Quem viu de perto, viu! Posso dizer que foi um privilégio. Uma enorme experiência profissional e, claro, de vida.

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