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20 novembro 2009

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Filhos da pauta

Publicado por: Ogg Ibrahim

O jornalismo é uma das profissões mais imprevisíveis que conheço. A gente nunca sabe o que vai encontrar pela frente quando chega à redação para trabalhar. Às vezes, antes de ir embora, eu dou uma olhada para ver qual minha pauta do dia seguinte. Mas, nem sempre, quando chego, é aquela mesma que terei de cumprir ou, nem sempre, o assunto que está marcado ali acaba virando matéria, do jeito que está ali.

Por isso sempre dizemos que não podemos ser "filhos da pauta", numa alusão ao xingamento que todos conhecem. Esse negócio de fazer exatamente o que a pauta pede é a diferença entre uma reportagem mediana ou uma grande reportagem. A gente tem que saber como fazer para "virar" a pauta quando ela não está rendendo muito. Virar significa mudar o rumo, achar outro enfoque que seja mais interessante naquele assunto ou conseguir enxergar outro assunto naquela história.

Fazer virar ou simplesmente "derrubar" a pauta é também o que faz a diferença entre um repórter medíocre e um grande repórter. É claro que há casos em que as pautas são derrubadas porque faltaram personagens, as informações não conferem com a realidade, ou o assunto acabou perdendo a factualidade. E isso não é culpa dos pauteiros nem dos repórteres - muitas vezes o assunto cai sozinho, por sí próprio.

Para ilustrar o que é ser um filho da pauta, eu sempre conto uma estorinha engraçada. Uma vez, uma repórter foi mandada para cobrir um conflito entre índios e fazendeiros que tiveram suas propriedades invadidas. Era num município distante uns 200 quilômetros da sede da emissora, umas duas horas de viagem só pra ir. Pouco mais de duas horas depois a repórter retorna à redação:

- Ué, já voltou? E a matéria?
- Ah, não conseguimos nem chegar na área do conflito.
- Porque?
- Porque um outro grupo de índios bloqueou a estrada e a gente não conseguiu passar!
- Caramba! Mas vocês filmaram o bloqueio, não filmaram?
- Não deu! Tava uma fila de carros de mais de 10 quilometros e a gente não conseguiu chegar nele!
- Caraca! Um bloqueio de estrada feito por índios, um engarrafamento monstro e vocês não registraram isso?
- Também não deu não! É que um carro na nossa frente superaqueceu e pegou fogo - tinha muita fumaça na estrada e não dava pra fazer imagens.
- (O chefe já arrancando os cabelos)... E porque não mostraram o carro pegando fogo? Grrrrrrr!
- Ah chefe, você não ia gostar de ver os corpos carbonizados dentro, né? Isso a gente não mostra na TV!
- CATAPULLFF!! (barulho do chefe caindo no chão depois de um ataque do coração).

É uma piadinha, mas esse tipo de coisa já aconteceu muito dentro das redações. Do contrário, quando enxergamos além das informações contidas no papel, conseguimos descobrir um assunto melhor. Uma vez fui fazer um protesto de pescadores que reclamavam da toxicidade da água que tinha matado toneladas de mariscos cultivados à beira da praia.

O protesto acabou não rendendo, tinha uma meia dúzia de gatos pingados e a pauta tava pra cair. Tive a idéia de pedir a um dos pescadores pra nos levar até a área de cultivo, no mar. Ele preparou seu barquinho e achei curiosa aquela mistura que ele colocava no tanque pra abastecer. Durante o passeio senti um cheiro de bolinho frito no ar e ele me explicou que saía do escapamento. Peraí!

O barco soltava fumaça cheirando a bolinho frito? Que história é essa? O pescador, por conta e esforço próprios, tinha desenvolvido um motor pro barco movido a óleo de cozinha reciclado! Achei do cacete, uma puta idéia. Diariamente ele recolhia o óleo de diversos restaurantes da região, deixava "descansar" pra baixar os resíduos e depois era só abastecer o barco. E ainda abastecia os barcos de alguns colegas. Pronto, estava ali uma outra matéria, nada a ver com a pauta inicial e muito mais interessante. Nesse caso, confesso que a história caiu no meu colo, mas bastou ser um pouco mais observador pra perceber outro foco e escapar de ser um filho da pauta!

Então, se tudo estiver fácil demais, desconfie. Se parecer fanstástico demais, questione. Se for fraco demais, reinvente. E se lhe parecer maravilhoso demais, refaça que ficará ainda melhor.

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